Um verão indiano, por Leticia Wierzchowski

8 / março / 2013

Coluna publicada no jornal Zero Hora, em 7 de março de 2013.

Posso dizer que passei o verão na Índia… Depois de mergulhar em Joseph Anton, biografia de Salman Rushdie, enveredei pelos romances O último suspiro do mouro e Os filhos da meia-noite (aclamadíssimo livro de Rushdie, eleito em 1993 Booker of Bookers Prize, o melhor livro galhardonado pelo famoso prêmio literário britânico). Foram 1708 páginas-Rushdie, e horas de leitura – Joseph Anton é um livraço, e a história da fatwa e da vida clandestina à qual Rushdie foi condenado por Khomeini daria um filme. Eu nunca tinha lido Rushdie, confesso. E viajar pela sua ficção sanguínea e vertiginosa lavou a minha alma. Quando terminei meu primeiro livro, ouvi uma pessoa que eu admirava dizer-me, Um belo texto, mas sofre de um problema, o realismo mágico é coisa do passado. Eu tinha, portanto, escrito um livro que já nascia condenado – aqui da América do Sul, vivendo à sombra de García Márquez, não podíamos deixar que “moléstias fantasiosas” acometessem nossos livros… Pois lá vem Salman Rushdie e deixa rolar. Seus personagens deixariam o clã Buendía de queixo caído. Eles andam pelo Tempo, leem pensamentos, crescem no dobro da velocidade normal para um humano, são geniais, preveem tragédias, morrem de amor – em suma, eles acontecem. Os livros de Rushdie são livros dos seus personagens, e eles pairam, vivos e furiosos, deixando a “forma” a comer poeira. Os filhos da meia-noite é um belíssimo livro, uma intrincada composição de histórias que brotam de histórias – Rushdie usa a trajetória da Índia contemporânea como uma boa bordadeira usaria seus fios coloridos, e traça uma fantástica viagem na qual o leitor é levado pela vida de Salim Sinai, menino que nasce num hospital de Bombaim no mesmo momento em que a Índia se torna uma nação independente.

Sobre Rushdie, não há como não se sentir seu amigo depois de ler Joseph Anton. Pelo final do livro, Rushdie conta que, depois de 13 anos de proteção policial, finalmente chega o dia em que o governo britânico passa a considerar a ameaça da fatwa muçulmana baixa o suficiente para que ele possa ter a sua vida e o seu nome de volta (durante todo esse tempo, usara o nome falso de Joseph Anton, que dá nome a biografia narrada em terceira pessoa). Faz-se uma festa para comemorar a liberdade de Rushdie, e um dos policiais que o protegeu diz-lhe: “Pensamos que você não ia aguentar, 13 anos de isolamento, sigilo e silêncio. Poucos segurariam a pressão.” E Salman responde: “Acontece que sou um escritor.” Palmas para Rushdie.

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Dois livraços
A história dos caroços

Leticia Wierzchowski assina uma coluna quinzenal no blog da Intrínseca.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Seu próximo livro, ainda sem título definido, será publicado em junho pela Intrínseca.

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