Tudo junto e misturado, por Leticia Wierzchowski

22 / março / 2013

Coluna publicada no jornal Zero Hora, em 21 de março de 2013.

É claro que o Facebook, o Instagram e outras redes sociais facilitam a nossa comunicação com amigos queridos, os de perto e os de longe, e que, até mesmo, ajudam a fazer e a solidificar novas amizades. Dicas culturais e um desabafo eventual, o Facebook é maravilhoso para isso. Acompanhar alguns momentos da viagem de um bom amigo, ver o sobrinho crescendo, longe, longe: salve o Instagram. Mas como todo espaço de troca humana que se preze, certas bizarrices, grandes e pequenas, vêm à tona nas redes sociais.

Que me perdoem os meus amigos queridos que fazem isso a toda hora, mas não é fácil a gente ter assunto para crônicas sem, eventualmente, pisar no dedinho de alguém. De qualquer modo, queria dizer aqui que fico meio constrangida quando alguém publica coisas como “Amo você”, ou “Meu amor, fulano de tal, eu te adoro.” Cá entre nós, dizer que se ama alguém foi, desde sempre, um ato absolutamente privado. O amor que dedicamos ao outro só interessa, em última instância, ao objeto do nosso amor. É claro que amar uma pessoa é maravilhoso, e às vezes dá gosto gritar aos quatro ventos que a gente ama, mas se a pessoa em questão está do nosso lado, vale ainda aquele jeitinho antiquado de olhar nos olhos e dizer à meia voz, “te amo”.

Mais difícil ainda para mim é quando encontro posts do tipo “meu tio morreu”, ou “perdi meu amigo”. Triste, é claro. Mas eu fico ainda mais constrangida. Tratando-se de um anúncio fúnebre, o que é que a gente pode fazer? “Curtir” isso? O simples fato de que não existe na tela uma opção do tipo “Meus sentimentos” ou “Minha solidariedade” parece já indicar que o Facebook não foi feito exatamente para esse tipo de situação. Nesses casos, acho mais sensato o uso do bom e velho e-mail, ou ainda a mensagem “inbox” para comunicar o fato aos amigos de verdade. Porém, estamos num mundo onde todos falam as maiores intimidades ao celular ao lado de desconhecidos no ônibus, em mesas de restaurante ou salas de cinema antes que o filme comece e, como disse o meu filho de quatro anos: “Um pedaço de coisa se junta na outra, e tudo junto e misturado é que forma o mundo”. Estamos juntos e misturados de uma vez por todas e, quando não se pode fugir para um refúgio seguro (um bom livro, talvez), o jeito mesmo é respirar fundo e “curtir”.

Confira outras colunas de Leticia Wierzchowski:
Dois livraços
A história dos caroços
Um verão indiano

Leticia Wierzchowski assina uma coluna quinzenal no blog da Intrínseca.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Seu próximo livro, ainda sem título definido, será publicado em junho pela Intrínseca.

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