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Making Of: A cena do chuveiro

1 / março / 2013

Alfred Hitchcock e Janet Leigh durante as filmagens

“Uma pessoa nunca está tão indefesa quanto no chuveiro. Nua, num espaço apertado, sentimo-nos totalmente sós. Uma súbita intrusão assim é um grande choque.” A partir dessa ideia Robert Bloch criou a cena que se tornaria célebre nas mãos do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Discípulo e apadrinhado do conceituado escritor de terror H.P. Lovecraft, Bloch se inspirou em um crime real para escrever Psicose, romance publicado em 1959 e vencedor do prêmio Edgar do Mystery Writers of America (Associação dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos).

Capa do romance de Robert Bloch, assinada pelo artista gráfico Tony Palladino. O inconfundível logotipo também foi usado para o cartaz do filme de Hitchcock.

Depois de 46 longa-metragens e três temporadas de sucesso na televisão, com o programa da CBS Alfred Hitchcock Presents, Hitchcock estava em guarda contra a ameaça de se repetir. “Estilo é autoplágio”, alardeava. Em sua incansável busca por material realmente novo, o diretor que dispunha de vistosos recursos de produção, locações de cartões-postal e grandes estrelas, jogou tudo para o alto quando descobriu o livro Psicose. Atraído pelo inesperado assassinato no chuveiro e pela esperteza de Bloch em empregar o recurso de travestismo, o cineasta recusou o veredito da Paramount, que considerava o original de Bloch “Impossível para o cinema” e decidiu financiar o projeto com seus próprios recursos. Como único produtor, abriu mão de seu salário de 250 mil dólares em troca de 60% da propriedade dos negativos.

O filme independente de Hitchcock contou com um orçamento de 800 mil dólares, o equivalente a três vezes o custo de um episódio para TV. O projeto de Psicose previa apenas 36 dias de filmagem e, para realizá-lo, o diretor teve que deixar de trabalhar com muitos de seus colaboradores de longa data e usar a equipe de seu programa de TV. No set, filmava-se muito mais do que o habitual para um diretor de primeiro escalão: de quatorze a dezoito cenas por dia.

Conforme Stephen Rebello relatou no livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, Hitchcock nunca passava de três ou quatro tomadas de cada cena, pois acreditava que a espontaneidade diminuía e a cena tomaria um rumo diferente. A exceção foi a sequência do chuveiro, que levou sete dias para ser filmada, com setenta posições de câmera para 45 segundos de filme. Para realizar esta sequência, Hitchcock pediu ao inovador designer gráfico Saul Bass que desenvolvesse storyboards.

Frames dos bastidores de Psicose, com Saul Bass, Alfred Hitchcock, and Janet Leigh, 1960. © Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Frames dos bastidores de Psicose, com Saul Bass, Alfred Hitchcock e Janet Leigh (1960).                            © Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Aos 39 anos, Bass já havia causado alvoroço ao criar ousadas sequências de abertura para Carmen Jones, O homem do braço de ouro e O pecado mora ao lado. O designer também assina as sequências de abertura para Um corpo que cai, Intriga internacional  e do próprio Psicose.

Pôster de Saul Bass e Art Goodman (ilustrador), para Um corpo que cai (1958). © Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Pôster de Saul Bass e Art Goodman (ilustrador), para Um corpo que cai (1958).
© Copyright Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Com grau de violência e nudez potencialmente censuráveis, Hitchcock decretou: “Vou filmar e cortar em movimentos rápidos, de modo que o público não tenha ideia do que está acontecendo.” A partir desse conceito, Bass criou uma abordagem de videoclipe, com uma saraivada de ângulos oblíquos, planos americanos e close-ups.

Para a filmagem foi construído um cenário com quatro paredes, cada uma delas era destacável para que as câmeras pudessem ser posicionadas de acordo com os ângulos exatos propostos pelo storyboard. Em entrevista concedida a Stephen Rebello para Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, Saul Bass explica:

“O ponto de vista básico da coisa é sustentado por uma série de imagens repetitivas nas quais existe muito movimento, mas pouca atividade. Afinal, tudo que acontece é apenas uma mulher tomando banho, sendo atacada e caindo lentamente para o fundo da banheira. Em vez disso [filmamos] séries de movimentos repetitivos: ‘Ela toma banho, toma banho, toma banho. É atacada-atacada-atacada-atacada-atacada. Ela cai-cai-cai. É atacada-atacada-atacada-atacada. Cai-cai-cai.’ Em outras palavras, o movimento era muito limitado, e a quantidade de ação para chegar a ele, muito intensa. Foi o que eu sugeri a Hitchcock. Não acho que aquela foi uma cena típica de Hitchcock, no sentido habitual da palavra, porque ele nunca tinha usado antes aquele tipo de corte rápido. Pelos padrões modernos, não achamos que ela representa um corte em staccato, pois já estamos tão acostumados com as edições frenéticas. Mas, naquela época, fazer — sei lá, dois, três minutos, quanto quer que dure a cena — com quarenta ou sessenta cortes, quantos fossem, era uma ideia muito nova do ponto de vista estilístico. Como um profissional das sequências de abertura, para mim era muito natural usar aquela técnica de montagem com cortes rápidos para criar o que resultou numa visão de assassinato impressionista, e não linear.”


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