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Uma conversa com Matthew Quick, autor de O lado bom da vida

24 / janeiro / 2013

Matthew Quick por Alicia Bessette

Aos 30 anos, Matthew Quick era um respeitado professor de inglês em South Jersey que incentivava seus alunos a acreditar no próprio potencial e no poder da literatura — até o dia que se sentiu um hipócrita. Infeliz, ele largou o emprego e vendeu a casa para se dedicar ao sonho de escrever.

Após três anos lidando com uma severa depressão, criou O lado bom da vida, romance que se tornou um sucesso imediato, cuja adaptação cinematográfica chega às telas brasileiras em 1° de fevereiro. Dirigido e roteirizado por David O. Russell (O vencedor), o filme é estrelado por Bradley Cooper (Se beber não case), Jennifer Lawrence (Jogos vorazes) e Robert De Niro e concorre a oitos Oscars.

Leia mais: Jennifer Lawrence recebeu o Oscar de melhor atriz por sua atuação em O lado bom da vida

Em O lado bom da vida, Pat Peoples não suporta finais tristes. Recém-saído de uma temporada em um hospital psiquiátrico, o ex-professor de história de 30 e poucos anos volta a morar com os pais e tenta reconstruir sua vida. No entanto, ele não se lembra de quanto tempo e nem por que ficou internado e suas únicas certezas são: entrar em forma e ser gentil para reconquistar sua ex-mulher Nikki e se manter bem longe de seu inimigo número um, Kenny G.

Confira abaixo alguns trechos da entrevista concedida por Matthew Quick ao East Valley Tribune. Na conversa, traduzida por Alexandre Raposo — responsável também pela tradução da edição brasileira do romance —, Quick fala sobre a adaptação cinematográfica de seu romance, sua luta contra a depressão e de sua relação com os inesquecíveis personagens Pat Peoples e Tiffany.

Ao ler o seu romance e assistir à adaptação cinematográfica, percebi grandes diferenças entre os dois. Houve alguma mudança da qual você tenha gostado particularmente ou que achou que de algum modo beneficiou a história original?

Como sabe, sou um grande fã do filme, realmente gostei, mas… Coisas que acho que tornariam o filme melhor? Começo por dizer que, seis anos depois, ainda estou completamente feliz com O lado bom da vida como livro. O trabalho de David foi o de fazer a história funcionar da melhor maneira possível na tela, dadas as circunstâncias. Um exemplo disso foi a inclusão de De Niro no elenco. De Niro e Bradley Cooper têm um relacionamento fora da tela; David me disse que é uma situação quase de pai e filho, o que, segundo ele, é uma dádiva para um diretor. E imediatamente se dispôs a inverter os papéis.

No livro, Pat de fato deseja ter um relacionamento com o pai mas este é emocionalmente incapaz de fazê-lo. Já no filme, você vê De Niro querendo que Pat volte, sob o pretexto de que os Eagles ganharão caso ele esteja por lá. Você tem a sensação de que o pai realmente quer fazer parte da vida do filho, de modo que David inverteu um pouco os papéis. David e De Niro, sendo pais, podem se identificar com isso, de forma que provavelmente temos um melhor desempenho desses atores do que se tivéssemos mantido como no original. Como diretor, cabe a David se perguntar: “Como posso obter o melhor desempenho desses atores?” Então acho que foi uma jogada muito inteligente da parte dele. Não acho que isso faça com que o filme seja melhor que o livro, mas acredito que a inversão foi boa para a adaptação.

O livro se passa em Nova Jersey, no lado Nova Jersey da Filadélfia, em South Jersey, o que dá um sabor diferente ao livro. As pessoas de South Jersey, naquela cidade de Collingswood, que é uma cidade real, consideram-se cidadãos da Filadélfia, apesar de viverem em Jersey. David situou a história no outro lado da Filadélfia, nos subúrbios da Pensilvânia, portanto, o filme tem outro sabor, certo? Acho que ele fez um ótimo trabalho ao captar isso, mas obviamente não foram as experiências que eu tive por ser criado em Philly e em South Jersey, daí que o filme tem um clima muito diferente daquele que criei no livro. Mais uma vez, ele fez um ótimo trabalho a esse respeito. Não acredito que isso faça com que o filme seja melhor do que o livro, mas, considerando a situação em que se encontrava — porque estavam filmando na Pensilvânia, onde eles tinham autorização para filmar —, ele fez um grande trabalho.

Cena de O lado bom da vida, com Bradley Cooper e Jennifer Lawrence.

Embora você já tenha dito que lutou contra a depressão enquanto escrevia O lado bom da vida, como você tentou se colocar na pele de Pat? Você fez algum tipo de pesquisa ou falou com pessoas que têm grave transtorno bipolar?

Sim, quer dizer, conheço pessoas com transtorno bipolar e eu mesmo tenho minhas mudanças de humor. Nunca fui diagnosticado como bipolar, embora minha esposa diga que sou bipolar. Não é um caso tão grave quanto o de Pat, mas entendo de mudanças de humor. Tendo trabalhado com pessoas que possuem problemas mentais e me considerado alheio a esse grupo, estou sempre falando sobre como nós demonizamos as coisas. Dizemos: “Ah, as pessoas com problemas mentais estão relegadas a esta outra posição”, mas sempre me apresso em lembrar que os meus maiores heróis são pessoas dessa comunidade.

Kurt Vonnegut é um herói para mim. Ele sofria de uma terrível depressão e tentou se matar. Ernest Hemingway é um herói para mim, e todos nós sabemos o que aconteceu com Ernest, e quanto ele lutou. Não creio que seja segredo o fato de que, quando um escritor começa uma história, o personagem é a normalidade. Então ele chega ao clímax, há a resolução e, depois, ele volta a baixar. Então, na próxima história que contamos, temos alguém que é a normalidade, em seguida, essa pessoa sobe, chega ao clímax, e depois sobe e desce, sobe e desce. Esse é o ritmo do transtorno bipolar, e não é de surpreender que muitos de nossos romancistas, pessoas que criam e são grandes contadoras de histórias, lidem contra a depressão e episódios depressivos.

Pat, como qualquer outro personagem, sobe e desce ao longo da narrativa, e eu, que passo por crises de depressão e oscilações de humor, acho que é por isso que sempre me relaciono de modo tão intenso com as histórias. Também sou muito sensível. No bairro em que cresci, um bairro operário, essas não são características para serem exibidas, não são características que sejam valorizadas, de modo que as escondi por um longo tempo em minha vida. Eu fingia que não era quem eu era e, quando escrevia poesia na escola, escondia e não falava sobre isso abertamente.

Quando fiquei adulto, foi quase como um processo de revelação, como se o Matt Quick que você conhece da sua rua também tivesse todos esses sentimentos e ideias. Foi engraçado, porque tenho amigos que possuem problemas mentais. Quando O lado bom da vida foi publicado, um amigo diagnosticado como esquizofrênico veio a mim e perguntou: “Como você sabe dessas coisas? Isto é realmente autêntico.” E eu disse: “Bem, eu também tenho os meus problemas.” Foi muito esclarecedor ter essas conversas.

Acho que quando as pessoas leem o meu livro, elas pensam: “Tudo bem, este cara sabe sobre o que está falando.” O outro lado da moeda são as pessoas que leem o livro e dizem: “Não acredito que Pat Peoples seja um personagem realista, nunca conheci alguém como ele.” Isso é muito decepcionante para mim. Não tanto por elas não terem se identificado com o livro, mas por não terem se permitido ter experiências com pessoas com problemas mentais, como se não estivessem dispostas a acreditar que tais pessoas existam de fato. Pode ser algo muito polarizado.

Você poderia falar sobre a Tiffany? Foi um personagem inspirado em alguém que você conhece?

É engraçado. As pessoas me perguntam todo o tempo: “Será que você conhece alguém que precisa dormir com todo mundo no escritório?” Minha resposta entediada é: “Não.” Acho que Tiffany representa na verdade aquela qualidade explosiva que força alguém a olhar dentro de si mesmo. Pat é delirante, especialmente no livro. Ele é muito mais delirante no livro. Ele não quer encarar a realidade. Tiffany é aquela que agarra a cabeça de Pat e faz com que ele olhe diretamente no espelho para alguém que ele não quer ver.

Minha esposa não tem nada a ver com a Tiffany; ela não é alta, não é do tipo que chega em um lugar e assume comando, mas, cá entre nós, Alicia e eu temos uma grande dívida de gratidão e amor um para com o outro. Quando eu tinha meus 20 anos, ela percebeu que eu não era tão bom quanto poderia ser e que havia desistido de meus sonhos. Ela me fez olhar para isso. Perto de meu trigésimo aniversário, tivemos longas conversas sobre o que eu queria da vida, se estávamos onde queríamos estar.

Quando nos conhecemos — ela tinha 17, eu 19 anos — tivemos todos esses sonhos, mas acabamos no subúrbio, levando uma vida tranquila, mas que não era a vida que queríamos. Ela me fez cair na real. Eu tinha um trabalho, era um professor muito querido na melhor escola de South Jersey, e poderia ter ficado lá para sempre. Ela realmente me fez encarar o fato de que eu não estava feliz, que estava deprimido, que estava bebendo muito à noite, porque estava tentando me automedicar. Ela me dizia: “Você tem que encarar isso.”

Em um bairro operário, você não fala sobre essas coisas. Na maior parte da vida não usei muito a palavra “depressão” e acho que minha esposa realmente me forçou a ver que eu não estava feliz, que estava deprimido, que tinha problemas de ansiedade e que realmente não vivia como queria. Isso foi uma coisa difícil de admitir aos 20 anos. Acho que, metaforicamente, em um nível inconsciente, tal experiência provavelmente inspirou a Tiffany.

Com apenas 22 anos, Jennifer Lawrence também recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz por sua atuação como Tiffany.

No livro, Pat fica muito transtornado sempre que ouve “Songbird”, de Kenny G. Existe alguma música de que você não goste ou que lhe irrite profundamente?

Não sei. Realmente gosto de vários tipos de música. Contarei uma história engraçada sobre isso. No filme, a música que irrita Pat é “My Cherie Amour”, de Stevie Wonder. No livro, logo no início, também era “My Cherie Amour”. Davi não tinha conhecimento disso, e ficou realmente surpreso ao saber. Não conseguimos os direitos de “My Cherie Amour”, uma vez que era preciso pagar para obter permissão para usar a letra no livro.

Descobrimos esse fato no meio do processo e tínhamos apenas duas semanas para fazer a alteração. Então, minha esposa disse: “Se precisamos obter permissão para usar uma letra, terá de ser uma canção sem letra.” Então eu disse: “Bem, qual música funcionaria?” E ela: “Não seria hilário se fosse Kenny G? Se ele ficasse transtornado com Kenny G?” Achei que seria muito engraçado. Mas as cenas do filme são bastante diferentes das do livro. Embora sejam horríveis, são cômicas e estranhas, uma vez que “My Cherie Amour” é uma música muito mais triste e muito mais trágica. Foi assim que a mudança aconteceu.

Sobre canções que odeio, realmente não sei o que dizer. Tento não odiar coisa alguma se for possível. Quando eu era jovem, costumava ser muito esnobe sobre música, filmes e tudo o mais, porém, ao ficar mais velho — falando parece que tenho um milhão de anos —, minha filosofia é a de que quanto mais coisas você gostar, mais feliz será. Eu não “odeio” nada.

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Comentários

4 Respostas para “Uma conversa com Matthew Quick, autor de O lado bom da vida

  1. Nem sei o que falar, estou tão emocionada, que só quero te agradecer. Li o livro batendo o meu próprio record, e infelizmente nunca tive o dom da leitura, pois éramos muito pobres. Não vi o filme, mas tem muito a ver com a minha história, de 14 anos pra cá… chorei muito quando acabou!!! Tive depressão, profunda, mesmo, mas com tantos medicamentos e terapia não precisei de ficar no lugar ruim, também não tenho uma mãe para me cuidar nem um pai que não me olha nem um irmão rico que paga minhas entradas para jogos. Só tenho EU e Jesus, que me sustenta a cada dia!!! Muito obrigada MATTHEW , por me proporcionar essa leitura. Temos que continuar a vida, cada um com sua história, e a minha é uma bagagem bem pesada e levíssima também. Abraços. Simone – Niterói – Rio de Janeiro.

  2. Ola !!
    Meu nome è Jovana tenho 15 anos, queria agradecer por ter feito esse livro tão bom,venho através desse comentário para dizer que amei o livro, mas desejaria de saber se ira ter continuação pois no livro pode perceber que não conta o final de Pat e Tiffany o que eu queria saber!! Entre outras perguntas que gostaria de fazer, agradeço des de ja e gostaria muito de conversa através de emails com Matthey para tirar todas minhas duvidas sobre o final do livro..
    Obgd pela atençao
    Com carinho Jovana :)’

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