Relatos do Inferno

Uma pintora russa retrata a agonia de sua cidade

26 / dezembro / 2012

Entre 1939 e 1945, mais de setenta milhões de pessoas morreram em consequência do maior conflito da Terra. Em Inferno, Max Hastings — um dos maiores historiadores militares do mundo, agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem do Império Britânico pelo conjunto de sua obra e vencedor do Pritzker Military Library Literature Award —, reúne o testemunho de pessoas comuns que vivenciaram, direta e indiretamente, a Segunda Guerra Mundial.

O que viram as testemunhas de batalhas, ataques aéreos, massacres e afundamentos de navios? Por quais provações, medos e incertezas passaram civis, soldados e militares de alto escalão? Nesta nova seção do blog, Relatos do Inferno, destacaremos algumas das histórias narradas por Hastings, testemunhos capazes de revelar ao leitor do século XXI como foi viver, lutar e morrer em um mundo em guerra.

Um homem faminto com um pedaço de pão em Leningrado em 1941 Foto: Akg Images

Um homem faminto com um pedaço de pão em Leningrado em 1941
Foto: Akg Images

Uma pintora russa retrata a agonia de sua cidade

Elena Martilla, dezoito anos, vivia na Leningrado sitiada em que vinte mil pessoas morriam por dia.

“Numa academia de artes, o velho professor Yan Shabolsky chamou sua aluna mais brilhante, Elena Martilla, de dezoito anos. “Lena” disse ele, “as coisas estão ficando muito ruins. Não espero sobreviver. Mas alguém precisa registrar o que está acontecendo. Você faz retratos, portanto faça retratos do povo de Leningrado sob o cerco — retratos honestos, mostrando como sofrem nessas circunstâncias diabólicas. Precisamos preservar isso para a humanidade. As gerações vindouras precisam ser alertadas sobre o horror absoluto da guerra.”

Elena Martilla passou a percorrer as ruas, fazendo esboços tão rápidos quanto o frio e a fraqueza lhe permitiam de rostos esticados, exaustos, encovados e vazios em consequência de uma escala de privações que nenhuma outra civilização da Europa moderna havia conhecido. Ela notou que muitos adultos reagiam fechando-se emocionalmente, tornando-se passivos e retraídos, parecendo sonambúlicos. As crianças, porém, ficavam estranhamente alertas: um menino fez, aos seus amedrontados companheiros adultos num abrigo, um comentário vívido e espirituoso sobre um ataque da Luftwaffe. Escreveu ela: “Era como se aquele menino houvesse envelhecido cinquenta anos em cinquenta dias — seu rosto parecia tão velho, e, através desse envelhecimento forçado, senti que lhe roubaram a inocência da infância. Era assustador ouvir sua curiosidade natural presa à medonha maquinaria da guerra (…) Examinei seu rosto com mais atenção e vi nele uma peculiar sabedoria. O que vislumbrei, naquele momento, me chocou: percebi que uma criança podia parecer um sábio ancião. Na agonia que sofríamos, algo extraordinário havia, por um instante, adquirido vida.”

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Comentários

Uma resposta para “Uma pintora russa retrata a agonia de sua cidade

  1. O relato da artista russa me lembrou as crianças negras, as crianças do Nordeste Brasileiro, alguns adolescentes em São Paulo, as crianças da guerra da Síria e as crianças do Afeganistão na primeira invasão do Estados Unidos. O rosto de adulto num corpo de criança, o cabelo extremamente seco, a expressão facial que não demonstra nada como s estivesse cansado de expressar o sofrimento.

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