Bastidores

Férias com Linbaba

20 / dezembro / 2011

Fachada do Leopold Café & Bar, em Bombaim, na Índia. Foto por Luca Marella, retirada de http://www.flickr.com/groups/shantaramforum

Por Livia Almeida*

O volume chegou as minhas mãos duas semanas antes das férias, embalado por notícias encorajadoras e, ao mesmo tempo, um tanto preocupantes. Shantaram, de Gregory David Roberts, tem fãs no mundo inteiro, gente que se apaixonou pela trama surpreendente que passeia pela Índia, o Paquistão e o Afeganistão e foi  inspirada — por incrível que pareça — na história real do autor. Um livraço! Com o que mais poderia sonhar uma tradutora? Um grande livro, mas também um livro bem grande, de 936 páginas em letrinha miúda, 730 gramas, com prazos inadiáveis. Shantaram determinava que, naquele ano, as férias seriam de muito trabalho.

Fiz as malas e viajei com Linbaba – o protagonista de Shantaram –  para um resort na Bahia a 40 quilômetros de Salvador, onde montei um escritório num chalé entre coqueiros. Entre passeios por Vilas do Atlântico e um mergulho na praia de Busca Vida (nome arretado de bom), comecei a explorar as imagens, os cheiros, os sons, as texturas de Bombaim, a cidade-ilha que encanta nosso narrador sem nome verdadeiro e sem pátria. As descrições eram tão ricas que me davam a sensação de conhecer aqueles lugares: o Café Leopold, o hotel Taj Mahal, a Porta da Índia, Colaba, a estação de Victoria, a praia de Chowpatty e, é claro, a favela em que Linbaba vai morar e instala um posto de saúde informal.

A quinzena de sol na Bahia foi apenas o começo de uma estreita convivência de seis meses com a cidade e seus habitantes. Com o passar do tempo, todos viraram meus velhos e queridos amigos, com seus tiques e manias. (Amigos de carne e osso chegaram a afirmar que eu sofria de uma versão da síndrome de Estocolmo, como refém dos personagens). Linbaba me fez sofrer de várias formas; uma das mais cruéis, talvez, tenha sido me obrigando a destrinchar o funcionamento detalhado de um rifle AK-47. Mas também me fez passear por uma praia linda em Goa, no sul da Índia, explorar cavernas em montanhas no Afeganistão e descobrir a diferença entre um sári e um salwar kameez.

Despedir-me de Linbaba, Prabaker, Abdullah Taheri, Johnny Cigar, Karla Saaranen, Khaled Ansari e Abdel Khader Khan não foi moleza. Senti o afastamento, a falta de notícias. Não se trata de um comportamento abilolado exclusivamente meu. Em conversas com outros tradutores, descobri ser bem comum a sensação de “saudades” de personagens de uma obra envolvente, quando o trabalho termina. No meu caso, porém, minha história com Shantaram teve um final duplamente feliz. Para começar, descobri que o autor Gregory David Roberts já prepara uma continuação das aventuras de Linbaba. Melhor, um ano depois, entrei para a equipe da Intrínseca e recebi a incumbência de cuidar da edição do livro, que passou pelos cuidados carinhosos de uma equipe afiada de colaboradores. Uma maratona com final feliz, que poderia muito bem ser resumida por uma frase do livro: Boa arma, bom cavalo, bom amigo, boa batalha.

*Livia Almeida é Editora de Não Ficção da Intrínseca.

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