Bastidores

Um filme para ler

1 / julho / 2011

Por Daniele Machado*

Livros que viram filmes são um tema que provoca arrepios em alguns leitores. Aquela história de que você tanto gosta, os pequenos detalhes e os diálogos que o ajudaram a construir imagens e sensações tão particulares, de repente estão ali: enormes, em cores e totalmente desvirtuados pela criatividade de outra pessoa. Quando mais nova, confesso, eu fazia listas, e uma das mais preciosas era a de “Livros a que não devo assistir de novo”. Essa fase das listas passou, e o conservadorismo também. Atualmente, já consigo assimilar o livro, o filme, a peça etc. como experiências diferentes, e me permito a opção de gostar de tudo, às vezes mais, às vezes menos, mas sem nenhum pudor.

Por isso, na última terça-feira, foi com animação que cheguei à pré-estreia de Os Pinguins do Papai, o simpático filme que estará hoje nas salas de cinema do país, livremente inspirado no livro Os pinguins do Sr. Popper — um homem comum, com mulher e filhos comuns, que, sem mais nem menos, recebe pelo correio uma remessa extraordinária: um pinguim de verdade.

Os oitenta anos que separam a adaptação cinematográfica e a primeira edição do livro justificam as licenças mostradas na tela: o pintor de paredes da década de 30 é agora um ambicioso corretor de imóveis e a família Popper não divide mais a mesma casa — pai e filhos convivem em finais de semana alternados —, mas o charme e a diversão da história continuam lá, encantadoramente personificados em oito pinguins tão expressivos e cheios de personalidade que dá mesmo vontade de, como Jim Carrey, abrir a porta de casa e topar com um engradado refrigerado vindo do Polo Sul.

O texto original nasceu pelas mãos do casal Richard e Florence Atwater. Ele, que faleceu antes de ver o livro publicado, ficou fascinado pelos pinguins após assistir ao então recente documentário With Byrd at the South Pole, que cobria a expedição antártica realizada entre 1928 e 1930 pelo notável Almirante Byrd, um dos mais famosos exploradores dos Estados Unidos. Ela, depois da avaliação e da recusa de algumas editoras, foi aos poucos reescrevendo trechos do manuscrito original do marido, até que, em 1938, o livro teve sua primeira edição publicada pela editora americana Little Brown, e até hoje nunca parou de ser reimpresso.

Diz-se que foi com uma ajudinha dela que os pinguins do pintor Popper ganharam tamanho charme e personalidade. Eu me arrisco a dizer que, com a ajudinha desse filme, você vai ampliar sua lista dos “Livros a que devo assistir várias e várias vezes”.

*Danielle Machado é editora dos livros infantojuvenis e cross-over da Intrínseca.

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