Bastidores, Destaque

A Guerra de Tim e Tim

23 / junho / 2011

Foto de Tim Hetherington do conflito no vale Korengal, Afeganistão.

 

Por Bruno Correia*

Há alguns meses, entramos em contato com Tim Hetherington, fotógrafo que acompanhou Sebastian Junger em algumas de suas incursões ao Afeganistão, para usarmos suas fotos na capa da nossa edição de Guerra. Tudo acertado, autorização cedida, solicitamos a ele o envio da fatura para o pagamento de sua comissão. Gentilmente, ele informou que estaria viajando por um mês, e que quando retornasse nos encaminharia a fatura.

Três semanas mais tarde, soubemos por jornais de todo o mundo que Tim havia sido morto na Líbia, atingido por um morteiro enquanto cobria os conflitos na cidade de Misurata. A notícia nos deixou perplexos: diariamente entramos em contato com fotógrafos, ilustradores e capistas para produzir a arte de nossos livros. Nunca esperamos que pessoas com quem falamos cotidianamente fossem vitimadas em combate. Ao mesmo tempo, Tim nunca deixaria transparecer em seus e-mails o risco de sua próxima — e infelizmente, derradeira — empreitada. Só soubemos que ele estava na Líbia cobrindo os embates entre as forças do presidente Khadafi e insurgentes rebeldes quando vimos a triste notícia.

Lendo Guerra, não pude deixar de lembrar de outro Tim, um piloto de caça australiano que há cinco anos veio de férias ao Rio de Janeiro e se apaixonou por minha melhor amiga. Em 2007, antes de partir para seis meses de combate no Afeganistão, Tim a pediu em casamento. No livro, Sebastian Junger menciona como se comporta o piloto de caça e seu oficial de radar diante do estresse da rotina no front. Segundo uma pesquisa feita durante a Guerra do Vietnã, em uma missão, o nível de estresse do piloto é muito mais alto que o de seu companheiro. Mas, fora de combate, o primeiro consegue “se desligar” da sua tensão, ao passo que o segundo convive diariamente com níveis mais altos de estresse — talvez por sua sobrevivência depender essencialmente da perícia de outro homem. Tim retornou são e salvo, e no começo de 2009 eles se casaram.

Toda a serenidade de Tim não condizia com o que se espera de um piloto de caça (ainda mais com tantos filmes mostrando-os como sujeitos enlouquecidos e viciados em adrenalina). De repente, o livro de Junger me ajudava a entender um pouco daquele homem tão simpático que tanto encantara a minha melhor amiga. Assim como as possíveis motivações que levaram Tim Hetherington para mais um conflito. Em seu relato franco, Junger explica o inegável fascínio que a guerra exerce sobre o homem, porque muitos falham ao retornar à vida cotidiana, e nos ajuda, ao menos, a conceber como funcionam homens como os “Tims”, de certa forma tão próximos do nosso convívio, ao enfrentar as banalidades da vida civil após a sua experiência em guerras.

* Bruno Correia é assistente de direitos autorais da Intrínseca.

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