O guardanapo de vidro

img_20161109_135141

Na semana passada, fui convidado para fazer uma intervenção na vitrine da livraria Martins Fontes. Localizada na Avenida Paulista, talvez a calçada mais movimentada de São Paulo, a livraria tem uma imensa janela de vidro, onde volta e meia algum artista é convidado a deixar sua inspiração fluir. Fui o sortudo da vez.

Como nunca havia feito um desenho nessa proporção — até então meu território criativo não passava do limite de 9cm x 13cm dos meus guardanapos —, fiquei bastante inseguro para aceitar esse desafio. Mas aceitei. Tudo tem que começar em algum momento. A bem da verdade, as fronteiras da sensibilidade são ilimitadas. E inimitadas. Afinal, cada um tem sua forma de sentir. Cada um tem sua forma de se encaixar no mundo e de querer dialogar com ele. Encontrei a minha.

Escolhi um desenho que respeitasse algumas regras:

1) Simplicidade: a arte deveria seguir o universo que criei para o personagem Antônio. Ou seja, deveria manter o casamento da palavra com o traço. Por isso, além de escolher um desenho já presente no meu novo livro, Ilustre Poesia, resolvi também colocar um verso inédito para levar um pouco de poesia aos pedestres que estão sempre na correria entre uma reunião e um almoço de negócio.

2) Visibilidade: a arte deveria ser grande o bastante para chamar a atenção e poder ser vista de dentro da livraria, mas sem ofuscar o conteúdo da vitrine: os livros.  Quis algo que mantivesse a transparência. Esta deveria ser a relação do autor com o leitor: ser sempre transparente.

Enquanto ganhava coragem para começar minha arte, bati papo com alguns leitores que me reconheceram durante o processo e respondi a uma minientrevista para o mestrado de uma leitora. A pedido dela, levei alguns originais dos guardanapos para ela poder ter uma noção de como são feitos realmente. Enfim, mais do que um dia de criação, foi uma oportunidade de estar em contato ao vivo com meus leitores.

Em poucas horas, terminei minha intervenção. Agora, à minha frente, um imenso guardanapo de vidro se faz vivo. Dois rostos desconhecidos, vestidos de mar, se dão as mãos e esperam sua visita. Então, querido leitor, querida leitora, se você passar pelo número 509 da Avenida Paulista, faça um autor feliz: tire uma foto e coloque a hashtag #ilustrepoesianapaulista. Estamos combinados?

SOBRE POEMAS E GIRAFAS

colunavisitaescola

A convite da coordenadora pedagógica Camila Asato, visitei a escola EMEB Vital Brasil, em São Bernardo do Campo, São Paulo, com um desafio para lá de fascinante: falar de poesia para uma plateia que ainda não sabe o que é poesia. Melhor dizendo: falar de poesia para uma plateia que ainda não sabe que sabe o que é poesia.

Minha dúvida, ao preparar essa oficina, era saber como prender a atenção dessa audiência – pequena em tamanho físico, mas infinita em medida de alma – já que a minha poesia envolve a dobradinha grafia-sonoridade e, muitas vezes, faz brincadeiras com palavras que possibilitam incontáveis caminhos interpretativos. São muitas exigências para uma criança ainda em processo de alfabetização.

A simplicidade criativa sempre norteou os meus caminhos poéticos, ilustrativos. Sempre busquei soluções mais acessíveis – não fáceis – na hora de criar o meu universo. Longe da preguiça de ir além, é que, pra mim, ser simples é o meu além. A simplicidade é o destino dos meus traços e das minhas letras. Quero que todos possam ter a capacidade de fazer o máximo com o mínimo de custo e material. No caso da oficina, foi disponibilizado a cada um dos 50 alunos um filtro de café e uma caneta preta. Com isso, essas crianças conseguiram filtrar seus sonhos, suas ideias, seus silêncios… Enfim: soltar a imaginação.

Aí me lembrei da minha história. Quando tinha a idade deles, a poesia me assustava. Era um daqueles monstros que vivia embaixo da cama. Nossos pais, na verdade, nos contam histórias antes de dormir para afastar esses monstrinhos. Monstrinhos não gostam de delicadeza. A literatura é uma delicadeza. Sempre que você se sentir inseguro, mergulhe na sua origem. É a única forma de não trair a sua originalidade criativa.

Desde pequeno, eu ficava admirado com as girafas. Um animal que muitos viam apenas em zoológico, eu tive a oportunidade de ver em liberdade no Parque Nacional de Iaundê, em Camarões (África). No reino dos animais, o leão pode até ser rei, mas a girafa é poeta. Suas manchas são reservas de tinta que o pescoço, esse lápis amarelo e gigantesco, usa para rabiscar e viver com cabeça mergulhada nas nuvens: o mundo da inspiração. Sua língua, a ponta, aponta para as folhas dos galhos mais altos. Uma árvore é uma coletânea de poemas à espera da nossa sensibilidade. Suas folhas alimentam o mundo. A girafa, assim como poeta, se alimenta não só DO que escreve, mas também NO que escreve.

Yasmim que, por coincidência, vestia uma blusinha rosa com uma girafa estampada, poderia ser um livro de humor a la Luis Fernando Veríssimo. Eduardo, com seu talento raro, me fez pensar em uma publicação ilustrada com capa dura, quem sabe um novo Maurício de Sousa. A ternura de Carlinha me lembra uma crônica do Rubem Braga. Ou um poema do Manoel de Barros. O pequeno Murilo, curioso que só, tem tudo para ser um conto inédito do Murakami. Econômico nas palavras, um haicai cairia bem ao Pedrinho – meu xará no nome e na timidez. Todos representavam de alguma forma um gênero literário. E é isso que somos. Alguns são romances, outros são poemas, versos livres, crônicas ou contos. Outros são silêncios. Precisamos dessa pluralidade de conexões para que a linguagem se mantenha viva, jovem e terna. Logo: eterna!

O aluno mais velho naquela sala devia ter, no máximo, 6 anos. Alguns, ainda mais jovens – se é que se pode ser mais jovem que um ser humaninho de 6 anos – já tinham imaginação de sobra para soltar frases maduras. Outros, mais ambientados com as letrinhas do alfabeto, já sabiam escrever o próprio nome com aquela caligrafia tremida, fofa e inconfundível: a tipografia da infância.  Eu queria poder escrever feito criança para sempre!

Não lembro quando escrevi Pedro pela primeira vez, mas meus desenhos mais antigos revelam que eu já carregava em mim um traço mais puxado para o mundo das artes. Assinava a letra E do meu nome com dezenas de perninhas. Naquele momento, a letra deixava de ser comum e passava a ser também ilustração. Uma escadinha que, naquele momento, inconscientemente, me levava ao aprendizado. A minha poesia começou naquele instante.

Entrar no universo dessas crianças me fez ganhar tudo o que eu achava ter perdido ao longo do tempo, quando comecei a ter responsabilidade de gente grande, como dizem. Estar ao lado desses pequenos me fez crer, me fez ser, me fez crescer. Me fez ser de novo um menino, com a cabeça cheia de imaginação. Me fez crer que, no fundo, são elas que falavam de poesia comigo. Deixei de ser falante, passei a ser ouvinte. A linguagem da ingenuidade é a poesia em estado vivo. A ausência de preconceito impulsiona a liberdade criativa. A inexistência de fronteiras para se expressar proporciona o contato com o infinito. Para elas, o papel não rasga, quebra. Quando mostrei o mar, eles viram a neve, a montanha, a lua. As crianças chegam ao espaço muito mais rápido do que o mais avançado satélite da Nasa. Talvez elas ainda não saibam o que seja poesia. A gente nunca sabe o que a gente é. Mas afirmo: elas são poesia. Elas são poesia. Elas são poesia.