Zózimo e a história do Rio

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A Intrínseca acaba de lançar a biografia do jornalista Zózimo Barrozo do Amaral. Para quem não sabe, Zózimo foi um dos maiores colunistas do jornalismo brasileiro. Atuou entre 1969 e 1997 nos dois principais jornais cariocas da época, Jornal do Brasil e O Globo, e mudou a forma de fazer colunismo social, usando notas curtas e incluindo a política, entre outros temas, no conteúdo.

O livro Enquanto houver champanhe, há esperança, maravilhosamente bem escrito pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, recupera, além da vida do colunista, um longo período da história do Rio de Janeiro. Não se trata de um relato formal e cronológico dos fatos, mas de um sensível olhar sobre as mudanças de comportamento dos cariocas e, de certa forma, dos próprios brasileiros ao longo das últimas décadas.

Mesmo tendo como foco o cotidiano nas redações da grande imprensa nacional, a biografia de Zózimo consegue captar como a vida na cidade foi se transformando, desde o reinado inquestionável do café-society e das famílias ricas e tradicionais (Guinle, Monteiro Aranha, Marinho etc.) até os dias de hoje, com o domínio das celebridades de prestígio muito questionável, como jogadores de futebol, estrelas de reality show e todo tipo de arrivista.

Imagino que a Intrínseca, isto é, o publisher Jorge Oakim, tenha consciência da relevância editorial da história do Rio de Janeiro. Pois nos últimos meses foram lançados pelos menos dois livros, Os Guinle e essa biografia de Zózimo, que resgatam as mudanças no estilo de vida e na cultura dos cariocas ao longo do século XX. A curiosidade sobre a vida no Rio de Janeiro não se restringe aos estudiosos e ao público local. Em todo o país, e mesmo no exterior, há um enorme interesse sobre o passado recente da capital cultural do Brasil.

Polêmicas de Carnaval

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Detalhe do carnaval da Beija-flor de 1989 (Fonte)

O ano ainda nem acabou e já existe uma enorme expectativa em torno do próximo Carnaval no Rio de Janeiro. O motivo é simples: como o novo prefeito, Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, não conseguiu convencer que acredita mesmo que o Estado seja laico, organizará a mais importante festa da cidade sem nenhuma interferência de caráter religioso.

É bem verdade que desde que o Carnaval carioca foi pensado como um produto da indústria turística, no início da década de 1930, o evento sempre foi marcado pela discórdia. Em Os Guinle eu conto como Octávio Guinle, na qualidade de colaborador da prefeitura e de proprietário de dois hotéis, o Copacabana Palace e o Palace, foi criticado ao mandar fechar a principal avenida da cidade, a Rio Branco, para dar maior visibilidade à festa momesca.

Ao longo dos últimos 80 anos, não faltaram debates acalorados sobre o assunto Carnaval. Em 1940, o periódico O Jornal publicou várias matérias alertando sobre seus efeitos nefastos na saúde dos foliões. Segundo o iminente neurologista e professor Austregésilo, o Carnaval “depaupera e deixa o corpo indefeso para a luta contra as moléstias”.

No final daquela década, a imprensa criticava a Comissão de Carnaval da prefeitura encarregada de julgar os melhores sambas e as melhores marchinhas e defendia que o julgamento pertencia ao povo. Em 1952, as autoridades da cidade se prepararam, pois acreditavam que ao longo dos quatro dias de folia haveria “grandes massacres”. Quase acertaram: o badalado Baile dos Artistas acabou em enorme pancadaria.

Quando o desfile das escolas de samba se cristalizou como auge do Carnaval no Rio, as polêmicas foram ainda mais intensas. Durante anos discutiu-se o local ideal dos desfiles no Centro: seria na avenida Presidente Vargas, na avenida Rio Branco ou na avenida Antonio Carlos?

Quando, enfim, fundaram o Sambódromo para abrigar os desfiles, em 1984, a discussão em torno do local acabou. Mas surgiram outras: em 1989, por conta do primeiro nu frontal da passista Enoli Lara; em 1998, porque a bela Luma de Oliveira usou uma coleira com o nome do marido, o empresário Eike Batista. Nos últimos anos foram os blocos de rua que passaram a dar o tom das reclamações acaloradas: atrapalham o trânsito, sujam a cidade, são violentos etc.

Caso no Carnaval de 2017 surja alguma crítica ao novo alcaide por questões religiosas, nem estas serão inéditas. Vale lembrar que em 1989 o enredo da Beija-Flor (“Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”) foi vítima de censura por parte da Igreja católica. A Arquidiocese, por meio de uma liminar da Justiça, proibiu a reprodução do Cristo Redentor em um dos carros que iam compor o desfile do carnavalesco Joãosinho Trinta. A alegoria entrou na passarela mesmo assim, mas coberta por um plástico preto e uma faixa com os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós”.

 

No Fla-Flu, “é o ai, Jesus”

Como todos sabem, o Fluminense questionou na Justiça o resultado do último Fla x Flu, ocorrido no dia 13 de outubro, quando o Flamengo venceu o jogo por 2 a 1. O caso gerou intenso debate, já que nos últimos anos o Fluminense tem lançado mão dos tribunais para rever derrotas esportivas. E sempre com sucesso. Dessa vez alegam que o juiz resolveu não validar um determinado gol por influência do delegado da partida, algo proibido pelas leis do futebol.

Como rubro-negro, não tenho o Fluminense como o maior rival. O futebol do Clube de Regatas do Flamengo nasceu de uma briga, em 1911, com os jogadores do Fluminense. Liderada pelo capitão Alberto Borgerth, metade do time participou da criação do Departamento Terrestre do Flamengo. Assim nasceu o Mengo.

Como autor de Os Guinle, estudei muito a história do Fluminense. Até fui ao clube para realizar uma fase da pesquisa. A família Guinle, em especial Arnaldo, foi fundamental para a construção do Fluminense Football Club. Logo, conheço mais a história do Flu que a do Fla.

Todo tricolor deveria saber sobre que bases morais o seu clube foi fundado. O escritor Coelho Netto, um dos grandes ideólogos do Fluminense, escreveu: “O Fluminense foi o verdadeiro guia e modelo de todos os clubes cariocas. A ele se deve o desenvolvimento do foot-ball no Rio de Janeiro. É uma sociedade que vem trabalhando pelo aprimoramento moral e cultural da mocidade.”

Exemplos da tradição do clube: em 1905, num jogo contra o Paulistano, a torcida tricolor se comportou com o gol do adversário gritando “Bravo! Bravíssimo!” Segundo Arnaldo Guinle, o “sportmen [torcedor] tricolor era sinônimo de cavalheirismo e fair-play”. E Arnaldo disse mais: o “equilíbrio moral e democrático – é a alma do Fluminense Foot-ball Club”.

Em um dos versos do primeiro hino do clube se dizia: “Adestra a força e doma o impulso.” O Fluminense precisa se reencontrar com a sua história. Tentar ganhar um jogo no tribunal valendo-se de um gol irregular é simplesmente romper com os postulados de criação da agremiação. Todo sócio do clube deveria ter isso em mente na hora de votar nas próximas eleições do Fluminense Foot-ball Club.