Resenha de Puros, de Julianna Baggott

Resenhado por Deivison Amorim, em 03/09/2012, blog Eu Tenho Livros

Posso definir a história como: silenciosamente cruel. E foi isso o que eu mais gostei em Puros. A narrativa é escura, um pouco sufocante, mas flui muito bem. É complicado descrever esse tipo escrita. É perturbador, mas também é belo. Dá pra entender?

Pressia tem 15 anos e é uma sobrevivente das Explosões – um holocausto nuclear global que transformou a vida de todos. Ela tem uma boneca onde deveria existir uma mão, queimaduras, cicatrizes e uma vida marcada por perdas. Mas a jovem não é a única. Quando as Explosões vieram, os seres humanos foram fundidos com qualquer material mais próximo a eles, seja areia, prédio, árvore, outro ser humano, animais… enfim, qualquer coisa. Essas deformidades físicas são tão horrendas quanto o interior, cujas almas sofreram com as mortes, a miséria e a dor.

Mas há aqueles que não foram afetados pelas Explosões, eles são os Puros. Estes formam o seleto grupo de privilegiados, protegidos, que vivem no Domo. Mas a maculada cúpula tem seus segredos… Enquanto os miseráveis fora da redoma tentam sobreviver um dia após o outro, aqueles dentro da cúpula ficam assistindo e esperam com um plano próprio.

A construção da estória pode parecer meio confusa no começo, mas ao longo da trama vamos conhecendo melhor os personagens e suas lembranças. Este é um ponto interessante sobre este livro: as lembranças, elas são tudo que os personagens têm. Ao fim do livro eu entendi um sentimento que o personagem Bradwell concordaria: há horrores que não podemos nos dar ao luxo de esquecer. Todos têm cicatrizes, e isso significa que sobrevivemos ao desastre.

O que Baggott faz é construir um mundo sinistro, mantendo uma sensação de desconforto (no bom sentido) enquanto o leitor mergulha mais fundo na história. A autora apresenta uma atmosfera muito singular, diferente de tudo que eu já li antes: a empatia e o horror estão unidos em uma fusão bizarra (com o perdão do trocadilho). Essa sensação de inquietação é o que prende o leitor até a última página.

Quem acompanha o blog deve saber que eu não gosto de livros com pontos de vista múltiplos, no entanto, devo fazer uma exceção aqui. Também fiquei impressionado com o desenvolvimento de todos os personagens, com destaque para El Capitán e Bradwell, meus preferidos. Fica evidente a tenacidade de cada um deles, as batalhas internas que cada um tem que lidar, mas acima de tudo o crescimento de cada personagem, e nesse quesito o destaque vai para Partridge e Pressia.

Infelizmente, nem tudo são flores. Devo dizer que fiquei bem decepcionado com a falta de detalhamento sobre a cúpula em si – como funciona, qual a rotina das pessoas, etc – e também sobre como as fusões aconteceram. Por exemplo: Por que as pessoas se fundiram com o asfalto e não com as roupas? O nível de fusão era maior em alguns do que em outros? As pessoas podem morrer de infecção devido ao ferro incrustado no pescoço? De onde vem a água? São perguntas básicas e que me acompanharam durante toda a leitura, e eu esperava que fossem respondidas até o final do livro… só que não. Agora vamos aguardar os próximos livros da serie. Sim, é uma trilogia. O segundo da série é Fuse (Fusão, em tradução livre).

Em suma, Puros é um livro muito incomum. Muitas vezes os personagens são assustadoramente parecidos com nós mesmos; por vezes, eles são tão estranhos e repulsivos que dá vontade de jogar o livro longe. Os eventos são complexos, tristes e assustadores, mas também podem ser bonitos e comoventes. Julianna Baggott construiu uma história – que não está tão longe da nossa realidade – encantadora e peculiar. Não acredito que vá agradar a todos, mas a estranheza da história me conquistou. Altamente recomendado. Espero que você leia e possa visualizar os cenários que Julianna Baggott nos presenteia.

Leia também:

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2 respostas a Resenha de Puros, de Julianna Baggott

  1. Maria disse:

    Adorei o livros
    Um ótimo romance
    e aventura
    adooooroooo!!!!!

  2. Gostei muito desse livro, a forma coma a autora descreve estes seres fundidos, porém há um “q” de sublime e grotesco ao mesmo tempo. Muito bem construído.

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