testeEm A grande saída, o Nobel Angus Deaton coloca o progresso em perspectiva

Por Rennan Setti*

De Donald Trump ao Estado Islâmico e a Kim Jong-Un; da crise financeira global de 2008 à recessão brasileira; da morte de milhares de refugiados na travessia do Mediterrâneo aos acontecimentos recentes em Charlottesville. É extenso o compêndio do que há de lamentável no mundo atualmente e é isso que impede o senso comum de enxergar aquilo que o Nobel de Economia Angus Deaton conclui em seu livro A grande saída: vive-se melhor hoje do que em qualquer outro período da história. 

A expectativa de vida cresceu 50% desde 1900 e, como conta o economista a partir da história de sua própria família, crianças nascidas hoje na África subsaariana têm mais chance de completar cinco anos do que tinham as nascidas na Inglaterra em 1918. O percentual da população que vive com menos de US$ 1 por dia era de 42% há menos de 40 anos e, hoje, é de 14%. Embora a desigualdade esteja aumentando nos países desenvolvidos, ela cai em nível global.    

Professor da Universidade de Princeton, o autor escocês recebeu o Nobel de Economia em 2015 por suas contribuições para métodos de mensuração da qualidade de vida que vão além de dados agregados como a renda e Produto Interno Bruto (PIB). Em sua carreira, Deaton se dedicou a novas metodologias para medir dimensões mais prosaicas, mas não menos importantes, como a quantidade de calorias consumida, o acesso a serviços básicos, a infraestrutura dos domicílios etc. Em vez de embasar suas teorias exclusivamente em indicadores tradicionais, Deaton criou modelos de pesquisas domiciliares e de análise de dados digitais para complementá-los, proporcionando um retrato mais fiel das condições de vida.  

 

Muitas das conclusões de A grande saída são fruto dessa técnica empírica. A altura média da população é usada por Deaton para inferir o acesso à alimentação, por exemplo. O autor argumenta também que a maior oferta educacional foi mais importante que o avanço da renda para o recente salto de longevidade em países pobres. “Avanços na educação talvez sejam hoje os grandes responsáveis pela melhora na situação da saúde nos países de baixa renda”, explicou. É por isso que a expectativa de vida na Índia hoje é mais alta que na Escócia em 1945, apesar de a renda per capita dos indianos ser equivalente àquela da Grã-Bretanha no longínquo ano de 1860.  

Além da distopia que tem marcado o noticiário recente, há outra razão pela qual a maioria dos leitores de Deaton se surpreende ao ser informada de que vive-se hoje o melhor dos tempos: o grosso do progresso tem acontecido, obviamente, bem longe do mundo desenvolvido. O que baby boomers e enfants dos Trente Glorieuses experimentaram no pós-guerra é talvez parecido com o que as gerações X e Y estão gozando em Shenzen, Mumbai ou em Lagos. 

Embora um livro sobre o progresso inédito que se deu nos últimos séculos jamais soe como pessimista, Deaton dedica parte importante de A grande saída aos reveses desse processo. Sustenta, aliás, que seu objetivo primeiro é tratar “da eterna dança entre progresso e desigualdade, de como o progresso gera desigualdade e como a desigualdade pode às vezes ser útil”. Para Deaton, a história do progresso é também a história da desigualdade. 

Um país que cresceu quase 10% ao ano nas últimas três décadas, como a China, dificilmente conseguiria distribuir rapidamente e de maneira equânime as riquezas geradas. Isso é natural quando o crescimento é abundante e as oportunidades de mobilidade social representam um incentivo — vide a história americana no pós-guerra. O problema é que o avanço econômico minguou na maioria dos países ricos e tem desacelerado entre os emergentes. Como já observou Thomas Piketty em O capital no século XXI, menos crescimento tende a gerar mais desigualdade. Deaton chama a atenção para as repercussões dessa dinâmica no futuro do próprio progresso.  

“Crescimento econômico é o motor da fuga da pobreza e da penúria material. Mas, atualmente, ele é débil no mundo rico e vem diminuindo década a década. Em quase todos os lugares, a fragilidade do crescimento vem acompanhada de aumento da desigualdade”, escreveu o autor. “No caso dos Estados Unidos, os atuais contrastes de renda e riqueza são os maiores em mais de cem anos. Grandes concentrações de riqueza podem minar a democracia e o progresso, sufocando a destruição criativa que o torna possível. Tais desigualdades estimulam quem já conseguiu alcançar a saída a bloquear as rotas de fuga depois de passar por elas.” 

Isso preocupa porque, como A grande saída mostra, as melhorias nas condições de vida operadas desde o Iluminismo configuram uma exceção na história da humanidade. Durante milênios, elas permaneceram estacionadas. A verdade é que, colocado em perspectiva, esse momento poderia facilmente representar um estreito interregno caso algo interrompa sua dinâmica. 

Mas Deaton é crítico à ajuda humanitária internacional, uma das propostas mais recorrentes quando o assunto é reduzir a pobreza. Para o economista, em vez de levar à melhora das condições de vida, muitas vezes esse suporte serve para perpetuar regimes corruptos — estes sim, na sua opinião, a razão para que diversos países não tenham se beneficiado da onda de progresso do último século.

“Este é um dilema central da ajuda internacional: quando as ‘condições para o desenvolvimento’ estão presentes, a ajuda não é necessária; quando as condições locais são desfavoráveis ao desenvolvimento, a ajuda externa não é útil e irá prejudicar caso contribua para perpetuar tais condições”, escreveu. 

=> Leia um trecho de A grande saída 

*Rennan Setti é jornalista.

testeMichael Lewis, a não ficção que une Wall Street a Hollywood

Por Rennan Setti*

Ao longo de três décadas e 13 obras marcantes, Michael Lewis conquistou status de autor incontornável na não ficção americana. Isso graças a um talento raro para encontrar personagens, dramas e suspenses dignos de filmes em assuntos que, pela complexidade invulgar, a maioria dos autores desprezaria como complicados demais para contar com graça. O exemplo mais recente é O projeto desfazer, que Lewis acaba de lançar no Brasil. A obra reconstitui com estilo ao mesmo tempo rigoroso e comovente a colaboração entre os psicólogos israelenses Amos Tversky e Danny Kahneman, cujas ideias ganharam fama com o sucesso mundial de Rápido e devagar: duas formas de pensar

Os livros de Lewis têm o fôlego de roteiros instantâneos, e Hollywood já sabe disso. O primeiro filme veio em 2009, baseado em The Blind Side. Um sonho possível conta a história de um garoto negro, saído de um lar destruído que, graças ao apoio de uma família desconhecida, ascendeu ao apogeu do futebol americano. O filme proporcionou a Sandra Bullock um Oscar e a Lewis, a reputação de pé-quente nas telas. 

Mas, a despeito da narrativa cativante, Um sonho possível não era um clássico Lewis. O homem que mudou o jogo, de 2011, era. Inspirado em Moneyball e estrelado por Brad Pitt e Jonah Hill, o filme tinha os ingredientes mais preciosos ao autor: um assunto curioso e complicado e protagonistas que vão de encontro ao consenso. Lewis mostra como o time Oakland A’s formou um time matador de beisebol abdicando do instinto, que sempre dominou o esporte, em favor de um método heterodoxo: análise de dados. O filme foi indicado a seis Oscars.           

 Em 2015 viria a terceira transposição para o cinema da obra de Lewis. A grande aposta (baseado em A jogada do século) é uma espécie de cautionary tale das finanças, um testemunho sobre os malefícios de uma sociedade construída em torno da ganância, que recupera a trajetória de quatro sujeitos que ousaram se posicionar contra a euforia que transpirava no mercado às vésperas da crise hipotecária que provocaria o colapso de 2008. 

Aqui, Lewis está em seu terreno predileto: Wall Street. Nos anos 1980, egresso da prestigiosa London School of Economics (LSE), Lewis foi trabalhar como trader de títulos no mítico banco de investimentos Salomon Brothers. Mais do que dinheiro, a experiência proporcionou a ele um ponto privilegiado de observação dentro de uma indústria que mexia com o imaginário popular àquela época, como prova o sucesso de Wall Street, do cineasta Oliver Stone, e Fogueira das vaidades, de Tom Wolfe, ídolo máximo de Lewis. A partir do dia a dia no Salomon Brothers, o autor publicaria em 1989 O jogo da mentira, referência para quem quer mergulhar naquela exótica cultura de risco, cobiça e fortuna.

 Lewis retornaria ao universo financeiro em diversas ocasiões. Além de A jogada do século, outros títulos de destaque nessa seara são Bumerangue, uma autópsia das bolhas que o dinheiro barato alimentou pelo mundo nos anos 2000, e Panic, que reconstitui recentes episódios de pânico financeiro. Sua obra imediatamente anterior a Projeto desfazer foi Flash Boys: revolta em Wall Street. O tema principal é a ascensão de técnicas que permitem realizar milhares de transações na Bolsa na velocidade do milissegundo, a chamada alta frequência (HFT, na sigla em inglês). Poucos autores seriam capazes de transformar o HFT em algo palpitante. Mas Lewis conseguiu encontrar nesse terreno árido uma historia de contornos heroicos, onde um outsider se insurge contra o establishment de Wall Street e denuncia as trapaças por trás do novo modelo. 

 

 Um dos segredos para a eficácia do que Lewis escreve é o respeito a duas regras fundamentais do jornalismo, profissão que ele adotaria após a experiência no Salomon Brothers: clareza e, acima de tudo, gente.   

 “Como explicar CDS e CDO (dois complexos instrumentos financeiros) para minha mãe? Ela sempre foi meu parâmero: se minha mãe não pode entender o que eu estou dizendo, não tenho porque dizê-lo”, escreveu o autor na Vanity Fair, onde colabora com frequência. “Mas nunca é suficiente explicar coisas complicadas para o leitor. Primeiro, o leitor precisa querer saber sobre aquilo. Meu trabalho (em A jogada do século) era fazer com que ele quisesse muito saber sobre CDS e CDO. Os personagens maravilhosos que previram o colapso do sistema financeiro se tornaram a solução para esses dois problemas.”

*Rennan Setti é jornalista

testeNem tudo é o que parece ser

Por Flávio Izhaki*

Que tal tentar iniciar a conversa com um caso? Uma amiga telefona e conta que o bebê que está para nascer foi diagnosticado com síndrome de Down. Na mesma semana, enquanto você espera o Uber, o porteiro do seu prédio lhe mostra a foto do filho sorrindo e você percebe que ele também tem Down. De repente, você pode pensar que está todo mundo tendo filho com Down, então você também terá. Porém, como é uma doença genética e você não tem nenhuma ligação de sangue com aquelas duas pessoas (sua amiga e o porteiro), a chance de seu filho ter essa condição segue a mesma hoje do que era na semana anterior.

Um caso simples como esse poderia ter sido o início da observação que levou Daniel Kahneman e Amos Tversky a estudarem como a mente humana, supostamente racional, chega a conclusões que nem sempre são racionais. Segundo os estudos de Kahneman e Tversky, as pessoas muitas vezes apoiam suas decisões em uma narrativa quando seria natural supor que fariam isso amparados em dados e porcentagens.

Michael Lewis tem um jeito peculiar de escolher as histórias que vai contar. O leitor brasileiro que gostou de Moneyball (sobre as imperfeições no mercado de jogadores de beisebol) e Flash Boys (a revolução da velocidade no mercado de capitais), ambos publicados pela Intrínseca, pode pegar O projeto desfazer na livraria e perguntar sobre o que afinal se trata esse novo livro de título enigmático.

A teoria que intitula o livro fala de como, ao tentar refazer as situações que levaram a um fato, a nossa mente se engana ao pensar que uma situação específica pode ser mais impactante que outras, mesmo quando não é, e de como isso pode ser manipulado por uma narrativa. O título do livro não remete apenas à teoria, mas como de um encontro fortuito entre dois brilhantes cientistas nasceram teorias de economia comportamental e psicologia que impactariam o mundo em áreas tão díspares como medicina, política, economia, esporte e militar.

Desta vez a história quase veio até Lewis. Um artigo publicado depois de Moneyball falava sobre a teoria desses dois psicólogos israelenses e de como ela explicava o livro (apesar de Lewis não conhecê-la). Por coincidência, Danny Kahneman mora há alguns quilômetros da casa de Lewis, enquanto o filho de Tversky foi seu aluno na Universidade da Califórnia.

O que sustenta o arcabouço de O projeto desfazer, assim como nos livros anteriores de Lewis, é a magistral capacidade de dar empatia aos personagens transpostos da vida real. A nova obra fala das teorias desenvolvidas pelos cientistas, mas o que dá sabor ao livro é a estranha amizade entre dois gênios tão diferentes, o background de Israel dos anos 1960 e 1970 que estimulava novas descobertas, de preferência com implicações práticas, ou, nas palavras de Lewis em entrevistas, um pré Vale do Silício.

Danny Kahneman é um filho do Holocausto, introvertido, inseguro, casmurro, enquanto Amos Tversky é extrovertido, o centro das atenções de qualquer festa, atlético, paraquedista do Exército israelense. Intelectualmente, Danny sempre tinha a certeza de estar errado. Amos, a de estar certo.

Com a habilidade narrativa de Michael Lewis, mesmo num livro cuja a temática não é simples, a impressão que temos ao ler O projeto desfazer é de uma grande conversa de décadas entre melhores amigos, um bromance com risadas, tensão, discórdia, avanços, alegrias e decepções. Mas não foram amigos quaisquer, e sim cientistas inovadores que, de certa forma, mudaram o mundo.

Kahneman, um psicólogo, terminou recebendo o Prêmio Nobel de Economia, o que Tversky certamente teria alcançado também se não tivesse morrido prematuramente em 1996. Mas aqui cometo um erro bem típico e que os dois se regozijariam ao apontar: uma previsão é apenas um julgamento que envolve incertezas.

*Flávio Izhaki é autor de três romances. O mais recente, Tentativas de capturar o ar (Rocco), foi lançado em 2016.

testeOs diários da crise anunciada

Em seu novo livro, Míriam Leitão analisa a situação econômica do país

Para Míriam Leitão, a crise poderia ter sido evitada. A jornalista, que faz análises econômicas diariamente sobre o país, vinha alertando sobre as decisões do governo em suas colunas publicadas em O Globo nos últimos seis anos. Em seus textos, Míriam anunciava os riscos que o país estava correndo.

Agora os leitores poderão conferir esse material em A verdade é teimosa: diários da crise que adiou o futuro, livro que chega às livrarias a partir de 10 de fevereiro. Com uma criteriosa seleção de mais de cem colunas, a obra aborda temas como descontrole fiscal, inflação, crise política, a concessão da licença da hidrelétrica de Belo Monte, entre outros fatos que explicam como o país chegou à situação atual.  

Em entrevista ao blog, Míriam Leitão conta por que resolveu reunir o material e como, apesar da crise econômica, ainda devemos ter confiança no futuro. Leia:

Intrínseca: Você analisa diariamente as notícias sobre a economia do país em diferentes mídias. Por que você decidiu reunir as colunas em A verdade é teimosa? Qual foi o critério de seleção desse material?

Míriam: Fazer coluna diária é um trabalho desafiador. Quem escreve tem que ir além do noticiário. É preciso analisar, antecipar as tendências, dar a dimensão dos eventos. Essa é a pior crise da história recente do Brasil e, na coluna, eu fiz muitos alertas sobre os riscos que o país estava correndo. A ideia do livro nasceu de uma conversa minha com Luciana Villas Boas sobre as lições que essa crise traz. Ela poderia ter sido evitada e podemos prevenir outros erros como os que foram cometidos. O critério para tirar 118 colunas das 1.800 analisadas foi exatamente traçar um diário da crise.

Intrínseca: Qual foi o momento que você percebeu a dimensão da crise econômica do país? E por que você acredita que é importante voltar ao passado nesse livro?

Míriam: Em vários momentos. Em 2010 eu escrevi que o governo estava começando a fazer truques contábeis. Ao longo dos anos seguintes mostrei os riscos de alta da inflação, crise de energia, e descontrole fiscal. No começo de 2015, eu escrevi: “Vai ser longo o inverno”, falando da recessão. Estava começando. E ela já foi, até agora, um dos mais longos períodos recessivos da história econômica.

Intrínseca: Como a leitura de A verdade é teimosa  pode compreender melhor a realidade do país?

Míriam: O importante de um livro é ser relevante para o leitor. Por isso minha preocupação é que quem leia tenha uma visão mais ampla da sucessão recente dos eventos. O Brasil tem uma história muito intensa, e por isso é preciso às vezes parar e refletir um pouco. Meu sonho é que o livro seja esse momento de parar e entender como foi que entramos nesse momento tão difícil.

Intrínseca:  Na obra, você diz que “o pior da crise é adiar o futuro”. Você acredita que ainda é possível ter esperança nas análises apresentadas em História do futuro?

Míriam: Claro que sim. Por mais duro que seja este momento, o futuro não foi revogado. Foi adiado apenas. Podemos influenciar nele, podemos explorar melhor todas as nossas chances, podemos evitar novos atrasos. Minha obsessão nos últimos anos tem sido pensar o futuro, o mapa do caminho para realizar nosso projeto do país. Foi isso que fiz em História do futuro, e foi o que de novo fiz em A verdade é teimosa.

 

Eventos de lançamentos de A verdade é teimosa

Rio de Janeiro

Data: 15/02/2017 (quarta-feira)
Horário: 20h
Local: Livraria da Travessa Leblon
Míriam Leitão participa de um bate-papo com a jornalista Carolina Morand, editora assistente de país de O Globo, antes da sessão de autógrafos, às 19h. 
Confirme sua presença

São Paulo

Data: 22/02/2017
Horário: 19h
Local: Livraria Saraiva Higienópolis
Confirme sua presença

Curitiba
Data: 10/03/2017
Horário: 19h30
Local: Livrarias Curitiba ParkShopping Barigui 
Confirme sua presença

testeNovo livro de Míriam Leitão reúne crônicas sobre a situação econômica e política atual

Com 25 anos de colunismo diário em O Globo, Míriam Leitão está acostumada a ver além dos acontecimentos. Para a jornalista, a crise pela qual o Brasil passa hoje já estava anunciada havia muito tempo, pois o governo fechou os ouvidos a todos os alertas e a todas as críticas, enquanto fazia escolhas desastrosas.

Em seu novo livro, A verdade é teimosa, Míriam apresenta 118 textos produzidos desde 2010, quando falar em crise econômica parecia um verdadeiro atrevimento, até novembro de 2016, quando o governo Temer atravessava momentos de grande instabilidade política. Com uma linguagem clara, a obra examina os antecedentes que levaram à recessão, à desordem fiscal e à inflação, bem como aos momentos mais agudos da crise em si.

A verdade é teimosa: diários da crise que adiou o futuro será lançado em 10 de fevereiro e já está em pré-venda.

Em 2015, Míriam publicou História do futuro, livro que compila pesquisas, análises, entrevistas e depoimentos para apresentar, de forma acessível, tendências e perspectivas para os próximos anos.

testeO que gera a desigualdade?

Conheça os tópicos centrais de O capital no século XXI, obra de Thomas Piketty

Rennan da Rocha *

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[Fonte: Social Europe]

Há dois anos, O capital no século XXI emergia no Brasil como o mais improvável dos best-sellers. Lançado com pouco destaque na França em 2013, a obra de Thomas Piketty causou grande repercussão no ano seguinte graças à tradução para o inglês. Em poucos meses vieram edições em diversas línguas — como a publicada pela Intrínseca em novembro de 2014, traduzida pela economista Monica Baumgarten de Bolle —, o que transformou o texto em fenômeno global.

De uma hora para outra, todos pareciam estar lendo e discutindo a mais importante obra do professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Façanha notável para um tratado econômico de mais de 600 páginas que discorre sobre o aumento da desigualdade global e cujo título faz referência direta a Karl Marx. Além das virtudes de um texto didático e elegante, o sucesso da obra de Piketty se deve sobretudo à situação do mundo que o lia: deprimido pelo colapso financeiro de 2008, chacoalhado por movimentos como o Occupy Wall Street e escandalizado pelo poder e pela riqueza detidos pelo 1% mais rico da população. Como afirmou o Nobel de Economia Paul Krugman na New York Review of Books, “O capital no século XXI mudará tanto a forma como pensamos a sociedade quanto como praticamos economia.”

Confira alguns dos tópicos centrais sobre esse divisor de águas no debate do pensamento econômico contemporâneo.
 

Do que fala O capital no século XXI?

O livro reconstitui a evolução da distribuição de renda e de riqueza nos últimos duzentos anos, sobretudo em países desenvolvidos, onde há mais dados disponíveis, como Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha. A obra não menciona o Brasil, pois Piketty e seus colaboradores não conseguiram convencer a Receita Federal a divulgar dados anônimos sobre os contribuintes daqui.

A partir dessa análise, o autor conclui que a desigualdade tem crescido em ritmo acelerado nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os 10% mais ricos abocanharam praticamente metade da renda distribuída no país entre 2000 e 2010, contra uma parcela abaixo de 35% na década de 1970. Mas Piketty ressalta que não se trata apenas de um fenômeno de desigualdade salarial, exposta pelos bônus nababescos de banqueiros e CEOs na chamada “Corporate America”. O avanço da renda extraída do capital é muito mais acelerado do que o dos salários, e essa riqueza está sendo distribuída de forma cada vez mais desigual. Na França, por exemplo, 70% da riqueza disponível hoje foi herdada, em oposição a menos de 50% em 1970.  

 

Como a pesquisa para o livro foi feita? 

O principal diferencial da obra é o método de investigação usado para entender como se dava a distribuição de riquezas séculos atrás. Piketty e seus colaboradores, economistas como Anthony Atkinson e Emmanuel Saez, foram pioneiros na combinação de informações de declarações de imposto de renda com outros tipos de dados para estudar a desigualdade. A utilização de informações tributárias permitiu a Piketty analisar a concentração de riquezas nas mãos de um número muito restrito de pessoas (o 1% ou até o 0,1% mais rico a população, por exemplo) que acabava ignorado em pesquisas tradicionais.

Como cereja do bolo, O capital no século XXI também recupera no cânone literário vestígios de uma desigualdade ancestral. “Os romances de Jane Austen e de Honoré de Balzac nos oferecem um retrato impressionante da distribuição da riqueza no Reino Unido e na França de 1790 a 1830. Os dois escritores possuíam um conhecimento íntimo da hierarquia da riqueza em suas sociedades”, observa o autor. 

 

O que gera a desigualdade?

A análise histórica dos dados permitiu a Piketty desenvolver a teoria que é central em seu livro. Segundo ele, a acumulação de riquezas é resultado da relação entre a taxa de remuneração do capital (como o lucro obtido por uma empresa ou o aluguel de um imóvel) e o crescimento econômico. Quando o retorno do capital é maior do que, digamos, a expansão do PIB, a riqueza herdada cresce mais rápido que o surgimento de patrimônio novo, pronto para ir para as mãos de outras pessoas.

“Basta então aos herdeiros poupar uma parte limitada da renda de seu capital para que ele cresça mais rápido do que a economia como um todo. Sob essas condições, é quase inevitável que a fortuna herdada supere a riqueza constituída durante uma vida de trabalho e que a concentração do capital atinja níveis muito altos, potencialmente incompatíveis com os valores meritocráticos e os princípios de justiça social que estão na base de nossa sociedade democrática moderna”, explica o livro, que resume essa dinâmica em outro trecho: “Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora o futuro.”

A análise de Piketty apresenta que, desde 1700, o retorno sobre capital tem sido de 4% ou 5% — ou seja, quem investe R$100 costuma lucrar de R$4 a R$5 em um ano. Durante os séculos XVIII e XIX, esse ritmo foi muito maior do que o crescimento econômico. Por isso, esses períodos foram tão marcados pela desigualdade, como mostra o estilo de vida dos personagens de Jane Austen. A industrialização proporcionou maior crescimento produtivo e de renda para os trabalhadores, mas não foi capaz de reequilibrar a equação da desigualdade.

A situação melhora, ironicamente, com as duas guerras mundiais e a Grande Depressão, que, além de estimular a produção, aniquilaram uma parcela significativa da riqueza que estava pronta para ser herdada. Pense, por exemplo, no destino que os imóveis da Berlim nazista teria. A reconstrução europeia no pós-guerra e a adoção de medidas fiscais extremas para financiar esse esforço proporcionaram os chamados Trinta Gloriosos. Nesse ciclo inédito de prosperidade, a geração de novas riquezas foi maior do que o retorno sobre o capital já existente. Por isso, a desigualdade diminuiu no período de 1945 a 1975, argumenta Piketty.     

 

Por que a desigualdade está aumentando hoje?

De acordo com a teoria de Piketty, um rápido crescimento é essencial para frear uma acumulação desigual de riquezas. O problema é que o mundo enfrenta hoje um período de baixo crescimento, não só por causa da crise recente mas também por razões como a estagnação populacional e a ausência de novos saltos tecnológico de produtividade semelhantes aos proporcionados por adventos como a eletricidade ou a linha de montagem. O resultado disso, segundo Piketty, é a volta a um capitalismo patrimonial, com níveis de desigualdade próximos daqueles da Belle Époque europeia e no qual a meritocracia é suplantada, pouco a pouco, por uma dinastia de poucos herdeiros. 

 

O que Piketty propõe para resolver esse problema?

A teoria do economista francês implica uma ideia indigesta (e daí a polêmica envolvendo o livro) para os defensores da famosa “mão invisível” dos mercados: nos últimos séculos, o capitalismo liberal estimulou, salvo em poucos períodos excepcionais, uma concentração desigual de riquezas. A manutenção das democracias, das classes médias e do bem-estar social depende, então, de intervenções que corrijam esse processo. A principal proposta de Piketty é a criação de um imposto global e progressivo sobre capital, a ser implementado por vários países em um esforço coordenado. Ele propõe que as alíquotas iriam de 0,1% a, no máximo, 10% (para fortunas bilionárias, por exemplo). 

“Com ele, é possível evitar a espiral desigualadora sem fim e ao mesmo tempo preservar as forças da concorrência e os incentivos para que novas acumulações primitivas se produzam sem cessar”, concluiu o economista. 

Alguns anos após o lançamento de O capital no século XXI, o argumento de Piketty ganha novo impulso no momento em que um herdeiro bilionário, que observa o mundo do alto do 58º andar de um arranha-céu na Fifth Avenue, se instala no posto que deveria representar o ápice da democracia.    

 

Rennan da Rocha é jornalista.

testePalavras para entender a complexidade…

“Por que os livros de física são carregados de equações matemáticas, enquanto os de biologia são cheios de palavras?” Essa foi a pergunta instigante que encontrei certa vez em resenha do jornal britânico The Guardian sobre uma obra que muito influenciou minha visão sobre economia, crises e a política econômica relatadas em Como matar a borboleta-azul. O livro chama-se Ubiquity: Why Catastrophes Happen e foi escrito por Mark Buchanan, ele próprio físico e jornalista. As catástrofes abordadas por ele não se limitam aos fenômenos naturais, mas estendem-se à sociologia — o que move grandes protestos que derrubam regimes? —, à história — como entender a eclosão da Primeira Guerra Mundial a partir de um assassinato? — e, é claro, às crises econômicas.

A física clássica pode ser descrita por meio de equações porque seus princípios são simples e o comportamento de seus objetos de estudo — objetos inanimados, átomos, partículas, planetas e estrelas — é, de modo geral, previsível, mapeável por equações. Já a biologia funciona de outro modo, exibindo grau de complexidade bem mais elevado do que a física. Para explicá-la, modelos matemáticos não bastam — é preciso recorrer às palavras. A economia, apesar da resistência dos economistas, está mais para a biologia do que para a física. A matemática não basta, menos ainda os jargões. Por isso é preciso escolher as palavras com o mesmo cuidado que qualquer escritor o faz para narrar uma boa história, seja ela de que gênero for.

Os últimos anos foram demasiado complexos. Havia uma mudança muito grande em curso no quadro internacional que sobreveio da crise de 2008. Ao mesmo tempo, havia uma visão marcada pela interferência exagerada no funcionamento do delicado ecossistema econômico. Como matar a borboleta-azul, conforme tenho insistido em entrevistas e artigos, não é sobre a pessoa Dilma Rousseff, é sobre sua gestão econômica. Fosse Dilma ou Dilmo, fosse PT ou Partido XYZ, tivessem as escolhas sido as mesmas, o resultado não teria sido diferente: a morte do crescimento, o desaparecimento da rara e graciosa borboleta-azul.

Em vídeos que faremos sobre os principais erros das políticas da ex-presidente, discorrerei sobre cada ponto que marcou seu governo, tão repleto de idiossincrasias que só mesmo por meio das palavras é possível entender como o Brasil chegou à situação dramática em que está. Entre esses erros, falarei sobre a destruição da política monetária e, sobretudo, da política fiscal. O desmonte institucional promovido pelas políticas da ex-governante trouxe-nos à presente discussão sobre a controvertida Proposta de Emenda Constitucional que cria um limite para o aumento dos gastos públicos — a PEC dos Gastos tão falada nos jornais. O tema é complexo. Para compreendê-lo, nada melhor do que as palavras, em especial as mais simples. Parafraseando o eterno Guimarães Rosa, tão citado por Dilma, a simplicidade tem muita força, força enorme.

testeA economista Monica de Bolle analisa o mergulho brasileiro na crise

Rennan da Rocha*

debolle_preview-54Foto: Leo Aversa

O título já dá o tom do novo livro da economista Monica Baumgarten de Bolle. Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma é uma história de fôlego jornalístico contada ao sabor da sucessão dos fatos na qual recursos da narrativa, como metáforas e fábulas, têm ascendência sobre a análise econômica. É uma escolha, claro. Aos 44 anos, a professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington, prefere falar para além do círculo de colegas economistas, profissão que, admite, sofre de certa crise existencial desde o colapso financeiro de 2008 e é dada hoje à pirotecnia técnica. Monica optou por escrever para o leitor que não faz ideia do que significa “quantitative easing” (ela explica no livro, a propósito), mas que se pergunta cotidianamente por que, em apenas cinco anos, o Brasil deixou de ser um farol emergente para submergir em recessão traumática. É desse tombo surpreendente que trata o livro.

A narrativa começa quando Dilma Rousseff assume a Presidência, em 2011, e termina quando sofre impeachment, em 2016. Para a autora, o calor de fatos tão recentes, em vez de impor a necessidade de mais tempo e distanciamento, inspirou a missão de esclarecer desentendimentos “que ainda são fonte de rancores e de visões apaixonadas”.

“Por esses motivos, ela (a história) fascina. Eu sabia que, ao publicá-la, correria o risco de ser rotulada de golpista, ou de ultradireita, ou de neoliberal, ou de tantas outras coisas que tenho dificuldade de entender e definir”, conta Monica.  “Entendo que, para alguns, essa história é ferida aberta, e que eu estou colocando o dedo nessa ferida. Para esses leitores, em especial, quero dizer que esse livro não é um tratado político anti-PT, nem é a favor de qualquer partido ou posicionamento ideológico. Eu teria escrito fosse Dilma petista ou não”, esclarece na entrevista a seguir.

 

capa_comomataraborboletaazul_webSeu livro conta como a ex-presidente Dilma Rousseff chegou ao poder disposta a fazer tudo de um modo diferente para alcançar resultados também inauditos: civilizar os juros, erradicar a pobreza etc. A história sobre a morte da borboleta-azul fala justamente disto: ideias mirabolantes, aparentemente bem-intencionadas, que resultam em desastre. Depois de mergulhar nessa trajetória, que motivos você aponta como os principais para a debacle dos anos Dilma? 

Há duas maneiras de refletir sobre o desastre econômico da gestão Dilma, complementares e não substitutas. A primeira é que Dilma, ao contrário de seu antecessor, enfrentou ambiente internacional absolutamente hostil. Tudo o que havia ajudado o Brasil ao longo dos anos Lula — matérias-primas em alta, China pujante, comércio global galopante, forte impulso do crescimento mundial — mudara.

Quando assumiu a Presidência, os preços das matérias-primas começavam a resfolegar em razão da perda de tração da China; os países afetados pela crise de 2008 davam sinais alarmantes; o crescimento mundial estava na berlinda. Diante desse quadro, Dilma mirou alto demais. Tentou o impossível, que era manter a economia brasileira crescendo e gerando empregos, no mesmo ritmo dos anos anteriores, sem adequá-la à nova realidade. A outra reflexão é que Dilma realmente tinha ideias diferentes sobre como promover o desenvolvimento do Brasil. E algumas de suas ideias já haviam sido tentadas no passado com resultados desastrosos. Exemplo: a ideia de que para crescer é preciso tolerar um pouco mais de inflação. A inflação ascendente foi para nós como a grama que cresceu, dizimando as formigas que protegiam os ovos da borboleta. A inflação, a grama. As formigas, os trabalhadores. A inflação, a queda da renda dos trabalhadores, a morte do crescimento.

 

Seu livro também usa, como apoio, alguns textos contemporâneos aos fatos, como posts e artigos seus publicados em jornais. Ao contrário de outras crises, em que economistas e a própria imprensa são acusados de falhar em prevê-las, essa parece ter sido documentada como um folhetim, não?

Por isso trata-se de uma grande crônica. Comecei a escrever com regularidade para jornais e para meu blog na segunda metade de 2010. Durante todo o governo Dilma, fui fazendo artigos, anotações, paralelos com a literatura, com filmes e músicas. Isso permitia que juntasse meus interesses pessoais com os profissionais — aliás, a grande liberdade da escrita. Sempre trabalhei com crises. Minha tese de doutorado foi sobre crises; minha experiência no FMI [Fundo Monetário Internacional] foi em resolvê-las — a da Argentina e a do Uruguai; hoje leciono sobre crises na Johns Hopkins. Crises são fascinantes, têm suspense, clímax, ambiente, personagens interessantes. São, enfim, trama para ninguém botar defeito.

A ideia de escrever um livro sobre os anos Dilma que trouxesse essa essência das crises vem, portanto, de muito tempo. Esse livro começou a ser elaborado em 2014, mas naquele ano eu já havia juntado tanto material de minhas análises que não foi difícil transformá-lo em uma narrativa com tom jornalístico.

Vejo essa forma de contar a história dos anos Dilma como o ponto forte do livro, que é sobre economia, mas sobre economia como coisa da vida, de todos os dias.


Trata-se também de um livro publicado no calor dos fatos. Por que contar essa história enquanto ela ainda está “quente”?   

Exatamente porque ela ainda pulsa, ainda provoca muitos desentendimentos, ainda é fonte de rancores e de visões apaixonadas. Por esses motivos, fascina. Eu sabia que, ao publicá-la, correria o risco de ser rotulada de golpista, ou de ultradireita, ou de neoliberal, ou de tantas outras coisas que tenho dificuldade de entender e definir. Hoje moro em Washington, mas escrevi a maior parte do livro enquanto morava no Brasil. Vivi as angústias e frustrações de cada momento, vivi a deterioração do debate entre as pessoas, a rixa entre “direita” e “esquerda”, que turva visões, dilacera corações, acaba com longas amizades.

Entendo que, para alguns, essa história é ferida aberta, e que eu estou colocando o dedo nessa ferida. Para esses leitores, em especial, quero dizer que esse livro não é um tratado político anti-PT, nem é a favor de qualquer partido ou posicionamento ideológico. Eu teria escrito fosse Dilma petista ou não. Digo a esses leitores: eu não votei em Dilma, mas um dia já votei no PT. Agora, que venham as pedradas do outro lado, como já as tomei quando traduzi o livro de Thomas Piketty!

 

Há alguns dias você escreveu sobre os “vitupérios internáuticos” que tem recebido por causa do livro. Por que nos anos Dilma o Brasil parece ter passado por um processo apressado de polarização? 

Vemos isso por toda parte. Aqui nos Estados Unidos os vitupérios internáuticos proliferam com a campanha sórdida de Donald Trump. Já fui atacada aqui por apoiar a candidata democrata. Na verdade, já fui atacada por achar Obama um exemplo de líder e de ser humano em um mundo que carece de gente extraordinária. Incomodo-me muito com a facilidade que algumas pessoas têm de atacar as outras sem conhecê-las, sem saber de seu histórico, do que as fez formar certas opiniões. Eu, por exemplo, acredito que o Estado tem um papel a cumprir, mas não pode querer tomar conta de tudo, como fez o governo Dilma. Ao mesmo tempo, também defendo políticas sociais que ajudem a quebrar o ciclo nefando da desigualdade de renda.

Acho que no Brasil, como no mundo, perdemos a capacidade de enxergar o que há de bom naqueles que pensam diferente de nós. Em minhas redes, converso com pessoas que acham que houve um golpe no Brasil, que preferem lembrar-se do Lula que moveu esperanças, ao mesmo tempo que falo com pessoas que vão votar em Trump porque acham Hillary Clinton muito pior. Hoje, esse tipo de postura, a busca por um meio-termo, ganhou conotação para lá de negativa. Trata-se do tal do “isentão”. É triste.

Ninguém cresce intelectualmente sem trocar ideias, refugiando-se em suas tribos. O mundo está tribal, o Brasil não é exceção.

 

Como se deu o seu processo de apuração e escrita? No meio dele você se mudou para Washington. Esse afastamento do Brasil no auge do drama ajudou a olhar a situação mais friamente?  

O livro cobre toda a era Dilma, de 2011 até o impeachment, que chamei de “impeachment de coalizão” pela forma inusitada que tomou. Portanto, vivi a era Dilma quase na sua totalidade. Saí do Brasil em meados de 2014, antes das eleições, quando já havia começado a escrever o livro. Por um momento, em 2015, quase desisti de escrevê-lo, tão profundamente perturbada estava com os acontecimentos e com as pedras que as pessoas atiravam umas nas outras. Mas já tinha dedicado tanto tempo a ele que acabei decidindo seguir em frente depois de uma interrupção de quase um ano. A distância ajudou a escrever sobre o desfecho da era Dilma com olhar mais clínico, menos movido pelas emoções do momento. Confesso que senti tristeza quando Dilma foi reeleita, pois já estava claro para mim que a economia acabaria mal. Mas também confesso ter sentido desalento no seu afastamento definitivo. O trauma e as feridas são muitas para essa nossa democracia ainda tão jovem.

 

Uma das pimentas sobre a derrocada econômica do governo Dilma é o fato de ela própria ser economista. Essa aparente contradição a espanta?  

Não. A Economia com “E” maiúsculo não é uma ciência exata. Às vezes me pergunto se é mesmo ciência, se meu PhD vale alguma coisa. Crises deveriam tornar os economistas mais humildes, capazes de enxergar as limitações de seus modelos. Alguns, como eu, estão passando por um certo tipo de crise existencial, sobretudo depois de 2008. Outros seguem a insistir que tudo o que aprendemos é imutável, que há regras que, se forem descumpridas, criarão problemas. Até certo ponto isso é verdade, mas só até certo ponto. A economia é analítica, rigorosa, possuiu instrumental matemático e quantitativo valioso. Contudo, é, antes de mais nada, ciência social, sujeita a subjetividades e contradições. A base da economia, como de qualquer ciência social, somos nós, as pessoas. Nós, as pessoas, temos viés, somos por vezes irracionais, nos deixamos levar por emoções e instintos equivocados. A economia tal qual é ensinada hoje perdeu essa essência humanista. Por todas essas razões, acho perfeitamente razoável que Dilma economista pense completamente diferente da Monica economista, ou nem tanto assim.

 

Lá fora, existe uma tradição de livros de economia voltados para o público em geral, consolidada por autores como Milton Friedman, Paul Krugman, Joseph Stiglitz e, mais recentemente, o fenômeno Thomas Piketty. Por que o país de economistas de texto tão brilhante como o de um Celso Furtado ainda publica tão pouco sobre o assunto para leigos? 

Não sei, é uma lacuna terrível, porque ajuda a enraizar percepções equivocadas sobre a profissão, sobre os economistas. Os autores americanos que você citou foram ou são todos vencedores do Nobel de Economia (que não é Nobel de verdade). Talvez isso tenha lhes dado o aval pessoal e a envergadura para tratar da economia como ela é, fugindo do excesso de pirotecnia que hoje predomina na profissão. É um pouco assim: como todos têm o selo de grandes acadêmicos, podem descer do pedestal. O erro é achar que existe pedestal. Não são muitos os que não enxergam pedestal algum. Eu jamais o vi, mas sou mulher numa profissão predominantemente masculina, o que ajuda, talvez, a ver a economia como ela é.


>> Leia um trecho de Como matar a borboleta-zul

 

*Rennan da Rocha é jornalista.

testePor que borboleta-azul?

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Esta é a primeira de uma série de colunas sobre Como matar a borboleta-azul. O livro trata da era Dilma, mas não consigo referir-me a ele de outra forma. Para mim, trata-se da borboleta, a linda borboleta-azul, que não resistiu à pesada interferência humana no frágil e complexo ecossistema do sul da Inglaterra.

Na década de 1970, os coelhos infestavam as plantações do país europeu e os homens resolveram matá-los — não todos, mas alguns. A população dos animais caiu, a grama que os bichinhos mantinham baixa cresceu. Na grama baixa vivia uma formiga especial, responsável por carregar os ovos da borboleta-azul para os formigueiros e cuidar das larvas até que se tornassem adultas. Com a relva alta, as formigas especiais foram sumindo. Com elas, foi-se a proteção, até que um dia não havia mais borboletas.

Os homens não queriam matar o belo inseto, mas acabaram por fazê-lo ao insistir em controlar os coelhos. Da mesma forma, Dilma não queria matar o crescimento da economia brasileira, mas acabou por fazê-lo ao adotar medidas que desarrumaram o país.

O governo Dilma foi marcado por tentativas e mais tentativas, espécie de hiperatividade econômica, cujo objetivo era manter a economia aquecida, os empregos abundantes e a renda em alta. A cada nova interferência, eu pensava na borboleta-azul. Cheguei a usá-la como metáfora num artigo escrito em 2012 que tratava do aumento de impostos sobre produtos importados que o governo anunciara na ocasião.

Quando vi a lista de produtos, fiquei impactada com o grau de detalhamento, a ingerência levada às últimas consequências, o micróbio da pulga da orelha do coelho. Espironolactona. Na lista do governo havia Espironolactona. Evidentemente, eu não sabia o que era a substância nem o motivo pelo qual o governo deveria taxá-la. Hoje sei que se trata de um diurético. Continuo sem entender, contudo, por que o governo Dilma, com tantos problemas para resolver, achou que devia dar atenção especial ao produto.

O que sei é que a forma como Dilma atuou para ajudar o Brasil a seu modo levou à destruição de outro ecossistema frágil e complexo: a economia brasileira. É esse mistério que o livro procura desvendar em bom português, fugindo do insondável economês. Torço para que leitores e leitoras o considerem útil para a compreensão da tragédia brasileira.

testeA economista Monica de Bolle revela os bastidores da era Dilma

Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma chega às livrarias a partir de 3 de outubro

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Conta-se que, na década de 1970, atormentados por uma superpopulação de coelhos, os ingleses adotaram uma política tão bem-intencionada quanto equivocada, que culminou com a extinção da borboleta-azul no sul do país. O triste fim da bela borboleta é a metáfora escolhida pela economista Monica Baumgarten de Bolle para descrever a desconstrução do Brasil durante os anos de Dilma Rousseff (2011-2016). Depois de o Plano Real reduzir a inflação a patamares suportáveis e permitir a implantação de um conjunto de políticas sociais mais inclusivas, a presidente chegou ao poder determinada a reformular tudo. Na prática, sua gestão levou a economia brasileira a uma situação catastrófica cujos efeitos se farão sentir por muito tempo.

Em texto fluente, Monica de Bolle acompanha erros e desacertos da presidente, ano a ano, passo a passo, desvendando cada um de seus desatinos. Porém, no lugar de gráficos e tabelas, o leitor encontra drama, uma história de suspense e terror, com vilãs, vilões e pouquíssimos heróis, narrada com pitadas de surrealismo e saborosas citações a filmes e obras da literatura. A dura realidade ganha contornos humanos e compreensíveis mesmo para quem não tem nenhuma familiaridade com o chamado economês.

Tradutora de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, no Brasil, Monica nasceu no Rio de Janeiro e vive em Washington D.C. Trabalhou no FMI, foi professora da PUC-Rio, atuou como diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças e como sócia-diretora da Galanto MBB Consultoria. Atualmente é professora da School for Advanced International Studies da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics.

Leia um trecho do livro:

Como matar a borboleta-azul

Artigo publicado em O Globo A Mais em setembro de 2012

 

Final dos anos 1970, sul da Inglaterra. Uma infestação inédita de coelhos ameaçava os prados verdejantes e as plantações das fazendas da região, levando os produtores a declarar que uma crise ambiental estava prestes a ocorrer e a pedir socorro ao governo. Para evitar um massacre possivelmente infrutífero de coelhos, já que a taxa de reprodução dos animais é quase inigualável na natureza, as autoridades encontraram uma solução “brilhante”: inocularam os bichinhos com o vírus da mixomatose, uma doença que ataca sobretudo os coelhos, deixando-os letárgicos, mais suscetíveis aos seus predadores naturais, menos inclinados a se reproduzir. Inicialmente, o experimento foi um sucesso. A população de coelhos caiu vertiginosamente, preservando as plantações e evitando a temida catástrofe. Contudo, a estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções, como diz o famoso aforismo.

Com menos coelhos a mordiscar a vegetação, ervas daninhas proliferaram e a grama cresceu mais do que o normal. O crescimento da grama acabou aniquilando a população de um tipo de formiga que só sobrevivia alimentando-se da grama mais baixa. Infelizmente, essa formiga tinha laços estreitos com a borboleta-azul que ilustra este artigo, carregando seus ovos para o formigueiro e cuidando de suas larvas até que se tornassem lagartas adultas. Sem a proteção das formigas, os ovos da borboleta-azul ficaram expostos aos predadores. Um dia, a borboleta-azul sumiu para sempre do sul da Inglaterra.

A história verídica da borboleta-azul inglesa, a Maculinea arion, é um exemplo das consequências indesejáveis provocadas pelas supostas boas intenções. A boa intenção do governo brasileiro é proteger os produtos confeccionados no país da concorrência daqueles que vêm de fora, imaginando que, como os coelhos ingleses, possam causar um desastre ambiental na indústria nacional, já fragilizada por outros fatores. Para isso, inoculam os importados com a variante local da mixomatose: as tarifas de importação. Na semana passada, as autoridades divulgaram uma lista de cem produtos que ficariam sujeitos a impostos mais elevados até o fim de setembro. O ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse também que a negociação de acordos bilaterais de livre comércio, como os que estavam em andamento com o Canadá e a União Europeia, terá de aguardar até que o setor industrial doméstico possa ser consultado.

Na lista de produtos cujas tarifas serão elevadas estão as famosas batatas, pneus, autopeças, produtos siderúrgicos, materiais de construção, plásticos, utensílios de cozinha, e por aí vai. Da lista consta também a Espironolactona, um diurético especial que previne a absorção de sal pelo organismo, ao mesmo tempo que preserva os níveis de

potássio normalmente expelidos na urina. Controlar a absorção de sal é fundamental para os hipertensos e as pessoas com problemas cardiovasculares. Preservar os níveis de potássio no organismo também é essencial para os doentes do coração, pois a deficiência do mineral pode causar arritmias cardíacas, além de provocar fraqueza muscular e fadiga. Ou seja, o aumento da tarifa de importação da Espironolactona pode ter o efeito perverso de levar a um aumento dos preços dos medicamentos que a utilizam como princípio ativo, quem sabe fazendo com que os doentes e seus médicos a substituam por remédios menos

eficazes no tratamento de suas patologias.

Há uma vasta literatura que documenta os efeitos adversos das medidas protecionistas sobre a atividade econômica. De modo geral, essas medidas privam a economia das transferências tecnológicas possibilitadas pela abertura do comércio, transferências que aumentam a produtividade e enaltecem a vitalidade econômica. A tarifa de importação sobre a Espironolactona é a metáfora perfeita para os efeitos adversos do protecionismo supostamente bem-intencionado. Ao suprimir a oferta desse componente químico, as medidas protecionistas podem acabar gerando na economia um estado de fadiga crônica e fraqueza muscular perene, a letargia da mixomatose.

Mata-se a borboleta-azul do crescimento. Sobra a lagarta vermelha, que, na melhor das hipóteses, se transforma apenas numa mariposa cinza.