testeEm A grande saída, o Nobel Angus Deaton coloca o progresso em perspectiva

Por Rennan Setti*

De Donald Trump ao Estado Islâmico e a Kim Jong-Un; da crise financeira global de 2008 à recessão brasileira; da morte de milhares de refugiados na travessia do Mediterrâneo aos acontecimentos recentes em Charlottesville. É extenso o compêndio do que há de lamentável no mundo atualmente e é isso que impede o senso comum de enxergar aquilo que o Nobel de Economia Angus Deaton conclui em seu livro A grande saída: vive-se melhor hoje do que em qualquer outro período da história. 

A expectativa de vida cresceu 50% desde 1900 e, como conta o economista a partir da história de sua própria família, crianças nascidas hoje na África subsaariana têm mais chance de completar cinco anos do que tinham as nascidas na Inglaterra em 1918. O percentual da população que vive com menos de US$ 1 por dia era de 42% há menos de 40 anos e, hoje, é de 14%. Embora a desigualdade esteja aumentando nos países desenvolvidos, ela cai em nível global.    

Professor da Universidade de Princeton, o autor escocês recebeu o Nobel de Economia em 2015 por suas contribuições para métodos de mensuração da qualidade de vida que vão além de dados agregados como a renda e Produto Interno Bruto (PIB). Em sua carreira, Deaton se dedicou a novas metodologias para medir dimensões mais prosaicas, mas não menos importantes, como a quantidade de calorias consumida, o acesso a serviços básicos, a infraestrutura dos domicílios etc. Em vez de embasar suas teorias exclusivamente em indicadores tradicionais, Deaton criou modelos de pesquisas domiciliares e de análise de dados digitais para complementá-los, proporcionando um retrato mais fiel das condições de vida.  

 

Muitas das conclusões de A grande saída são fruto dessa técnica empírica. A altura média da população é usada por Deaton para inferir o acesso à alimentação, por exemplo. O autor argumenta também que a maior oferta educacional foi mais importante que o avanço da renda para o recente salto de longevidade em países pobres. “Avanços na educação talvez sejam hoje os grandes responsáveis pela melhora na situação da saúde nos países de baixa renda”, explicou. É por isso que a expectativa de vida na Índia hoje é mais alta que na Escócia em 1945, apesar de a renda per capita dos indianos ser equivalente àquela da Grã-Bretanha no longínquo ano de 1860.  

Além da distopia que tem marcado o noticiário recente, há outra razão pela qual a maioria dos leitores de Deaton se surpreende ao ser informada de que vive-se hoje o melhor dos tempos: o grosso do progresso tem acontecido, obviamente, bem longe do mundo desenvolvido. O que baby boomers e enfants dos Trente Glorieuses experimentaram no pós-guerra é talvez parecido com o que as gerações X e Y estão gozando em Shenzen, Mumbai ou em Lagos. 

Embora um livro sobre o progresso inédito que se deu nos últimos séculos jamais soe como pessimista, Deaton dedica parte importante de A grande saída aos reveses desse processo. Sustenta, aliás, que seu objetivo primeiro é tratar “da eterna dança entre progresso e desigualdade, de como o progresso gera desigualdade e como a desigualdade pode às vezes ser útil”. Para Deaton, a história do progresso é também a história da desigualdade. 

Um país que cresceu quase 10% ao ano nas últimas três décadas, como a China, dificilmente conseguiria distribuir rapidamente e de maneira equânime as riquezas geradas. Isso é natural quando o crescimento é abundante e as oportunidades de mobilidade social representam um incentivo — vide a história americana no pós-guerra. O problema é que o avanço econômico minguou na maioria dos países ricos e tem desacelerado entre os emergentes. Como já observou Thomas Piketty em O capital no século XXI, menos crescimento tende a gerar mais desigualdade. Deaton chama a atenção para as repercussões dessa dinâmica no futuro do próprio progresso.  

“Crescimento econômico é o motor da fuga da pobreza e da penúria material. Mas, atualmente, ele é débil no mundo rico e vem diminuindo década a década. Em quase todos os lugares, a fragilidade do crescimento vem acompanhada de aumento da desigualdade”, escreveu o autor. “No caso dos Estados Unidos, os atuais contrastes de renda e riqueza são os maiores em mais de cem anos. Grandes concentrações de riqueza podem minar a democracia e o progresso, sufocando a destruição criativa que o torna possível. Tais desigualdades estimulam quem já conseguiu alcançar a saída a bloquear as rotas de fuga depois de passar por elas.” 

Isso preocupa porque, como A grande saída mostra, as melhorias nas condições de vida operadas desde o Iluminismo configuram uma exceção na história da humanidade. Durante milênios, elas permaneceram estacionadas. A verdade é que, colocado em perspectiva, esse momento poderia facilmente representar um estreito interregno caso algo interrompa sua dinâmica. 

Mas Deaton é crítico à ajuda humanitária internacional, uma das propostas mais recorrentes quando o assunto é reduzir a pobreza. Para o economista, em vez de levar à melhora das condições de vida, muitas vezes esse suporte serve para perpetuar regimes corruptos — estes sim, na sua opinião, a razão para que diversos países não tenham se beneficiado da onda de progresso do último século.

“Este é um dilema central da ajuda internacional: quando as ‘condições para o desenvolvimento’ estão presentes, a ajuda não é necessária; quando as condições locais são desfavoráveis ao desenvolvimento, a ajuda externa não é útil e irá prejudicar caso contribua para perpetuar tais condições”, escreveu. 

=> Leia um trecho de A grande saída 

*Rennan Setti é jornalista.

testeLançamentos de agosto

 

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

Meu livro. Eu que escrevi, de Duny — Duny é uma celebridade de alcance mundial, rainha das grosserias e desbocada. Estrela da websérie Girls in the House, criada por Raony Phillips, Duny lança uma autobiografia recheada de ironia, lacres e histórias divertidas sobre a sua busca desesperada pela fama. [Leia +]

 

Os 27 crushes de Molly, de Becky AlbertalliDa mesma autora de Simon vs. a agenda Homo Sapiens, o livro conta a história de Molly, uma garota que já viveu muitas paixões, mas só dentro da própria cabeça. Aos 17 anos, ela acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que Molly precisa ser mais corajosa, a garota não consegue suportar a ideia de levar um fora. Então, age com muito cuidado. Para ela, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. [Leia +]

 

Hoje vai ser diferente, de Maria Semple A vida de Eleanor está uma bagunça, e ela sabe que a culpa é toda dela. Só que hoje ela vai ser uma pessoa melhor e vai fazer diferente. Mas antes mesmo de começar, a vida já lhe dá uma rasteira, e a força a abandonar suas humildes ambições e acordar para um novo e inesperado futuro. Uma história hilária e otimista sobre uma mulher que acorda determinada a ser a melhor versão dela mesma. [Leia +]

O livro vai ser adaptado como minissérie para a HBO com Julia Roberts no papel principal.

 

 

Fantasma, de Jason ReynoldsFantasma é um garoto que sempre soube que correr era o seu forte, mas nunca levou a atividade muito a sério. Até que, certo dia, ele disputa uma corrida contra um dos melhores atletas de uma equipe que está treinando na pista de atletismo do parque. E vence. O treinador quer ele entre para a equipe de qualquer jeito. O problema é que Fantasma tem muita raiva dentro de si e também um passado que tenta desesperadamente deixar para trás.

Finalista do National Book Award de 2016, um dos prêmios literários de maior relevância no mercado, Fantasma aborda com leveza temas como bullying, representatividade, invisibilidade social e racismo. [Leia +]

 

O curso do amor, de Alain de BottonRabih e Kirsten se conhecem e logo se apaixonam. Eles se casam, têm filhos. A sociedade nos faz acreditar que esse é o fim da história, quando, na verdade, é apenas o começo. Em seu retorno à ficção, o filósofo Alain de Botton discute, através da história de Rabin e Kirsten, as complexidades de um relacionamento amoroso duradouro. Um livro extremamente provocativo e verdadeiro para todos que acreditam no amor.  [Leia +]

 

Por trás dos seus olhos, de Sarah PinboroughLouise é mãe solteira, trabalha como secretária e está presa à rotina. Em uma rara saída à noite, ela conhece um homem no bar e se deixa envolver. Embora ele se vá logo depois de um beijo, Louise fica muito animada por ter encontrado alguém.

Ela só não esperava que seu novo e casadíssimo chefe seria o homem do bar. Apesar de ele fazer questão de logo esclarecer que o beijo foi um equívoco, os dois passam a ter um caso. Em uma terrível sequência de erros, Louise acaba ficando amiga da esposa do amante. E, se você acha que sabe para onde esta história vai, pense de novo, porque Por trás de seus olhos não se parece com nenhum livro que já tenha passado por suas mãos. [Leia +]

 

A grande saída, de Angus Deaton Vencedor do Prêmio Nobel de Economia, o economista Angus Deaton, um dos maiores especialistas em estudos sobre pobreza, apresenta um estudo que analisa por que as desigualdades ainda são tão presentes no cenário global e examina os padrões históricos e atuais por trás das nações ricas e com boas condições de saúde. [Leia +]