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O que nos resta quando eliminamos o ego

11 / outubro / 2017

Por André Sequeira*

Messi e Guardiola (fonte)

Ryan Holiday foi um prodígio desde os tempos de colégio. Após abandonar a faculdade aos 19 anos, foi disputado por diversos mentores, e o sucesso veio rápido e sem muito esforço. Ele se tornou o executivo mais jovem de uma agência de talentos e trabalhou com bandas de rock de renome mundial. Além disso, virou estrategista de uma das maiores marcas de moda do mundo e, aos 25 anos, publicou seu primeiro livro. Porém, tudo começou a sair dos trilhos e seu mundo ideal, a ruir. Nesse momento, ele precisou repensar toda sua vida e entender como alguém que estava por cima terminou como um sobrevivente saindo dos escombros de múltiplas explosões. Devido a pesquisas realizadas sobre o ego e seus efeitos, Ryan, pela primeira vez, conseguiu colocar as experiências dolorosas da época de uma forma que não conseguia compreender antes. O resultado de todo o estudo é O ego é seu inimigo.

Segundo o dicionário, o ego é o que caracteriza a personalidade de cada indivíduo. Segundo a teoria freudiana, ele exerce função de controle sobre o comportamento das pessoas. É um mediador entre as outras instâncias psíquicas, o id e o superego.

De forma geral, popularmente o ego é sinônimo de personalidade forte e ruim. Quem nunca ouviu “aquela pessoa tem um ego enorme, um dia vai se dar mal”? É justamente esse caminho que Ryan Holiday opta por seguir na obra O ego é seu inimigo. No livro, ele não analisa o ego pelo viés freudiano, mas como uma crença doentia dos indivíduos na própria importância, na necessidade de ser sempre “melhor do que”, “mais do que” e de ser reconhecido por todos. Segundo ele, esses são os principais objetivos do ego.

Ryan Holiday

Vivemos num mundo que nos encoraja a acreditar em nossa singularidade acima de tudo e somos estimulados a nos considerarmos protagonistas de nossas vidas. Um exemplo são os membros da geração Z, que desde cedo são educados por pais e professores como especiais e únicos, aqueles que podem tudo. Resultado: não aprendem a lidar com o sofrimento e o fracasso. Desde a infância até a adolescência, consideram-se imbatíveis e superpoderosos.

Holiday argumenta que a situação que temos atualmente é consequência das manifestações narcisistas ao longo de gerações e que, para mudar tal quadro, é necessário que se esqueça o ego e se viva o que resta — ou seja, a realidade. Para provar esse argumento, ele utiliza exemplos de pessoas reconhecidas em suas profissões e, também, daqueles que sucumbiram ao ego e foram derrotados.

William Tecumseh Sherman foi um dos mais importantes generais do Exército dos Estados Unidos. Lutou na Guerra Civil Americana e, por escassez de lideranças, tornou-se conselheiro militar de Abraham Lincoln. Com o tempo, ganhou a confiança do presidente e recebeu diversas propostas de promoção. Estranhamente, Sherman repetia que só aceitaria se nunca tivesse que assumir o cargo mais alto na hierarquia militar. Ele conhecia bem as próprias limitações e esse papel secundário lhe caía melhor. Como descobriu isso? Em um episódio, perdeu a compostura e falou de maneira imprudente com jornalistas. Com isso, foi retirado prontamente do comando da operação.

Abraham Lincoln, William Tecumseh Sherman e outros generais americanos.

Segundo Holiday, “é fácil se envolver emocionalmente e se encantar com o próprio trabalho […] O que é raro não é o talento […] mas a humildade, a diligência e o autoconhecimento.”

Quando temos êxito profissional, o ego começa a brincar com nossa mente e a enfraquecer o ímpeto de vencer. Isso aconteceu, recentemente, com o time de futebol do Barcelona, que, de 2008 a 2012, esteve sob o comando de Pep Guardiola. Nesse período, a equipe conquistou dezessete títulos, sendo dois Mundiais e duas Ligas dos Campeões da Europa. Como o técnico conseguiu motivar, por tantos anos, um elenco com grandes estrelas do esporte, entre as quais, Lionel Messi, considerado um dos melhores jogadores de todos os tempos? Lembre-se: o ego tentará de todas as maneiras colocar na cabeça dos atletas “sou especial”, “sou o melhor”, “as regras não se aplicam a mim”.

Guardiola mostrou aos atletas que o sucesso é intoxicante e que requer sobriedade contínua. Tanto os atletas quanto o próprio treinador precisavam aprender que não passamos de um grão de areia em um universo gigantesco, que não devemos nos deixar levar pela fama e pelo dinheiro, mas pensar sempre em manter uma organização e um sistema em que o foco seja o trabalho, a equipe. Caso o pensamento esteja em si mesmo, não em algo maior — como os torcedores e o clube, neste caso —, o ego nos dominará e o fracasso chegará de modo retumbante. Além disso, com humildade para ser aprendiz e entender que sempre podemos nos aprimorar, o sucesso alcançado será, certamente, mais duradouro.

O ego, muitas vezes, causa quedas e nos impede de dar a volta por cima. Diante disso, Ryan Holiday afirma que os problemas precisam ser enfrentados como se doenças estivessem sendo curadas. Além disso, após a retomada do sucesso, é necessário olharmos para o precipício de onde saímos e percebermos a escalada realizada naquelas paredes. Esse é o sinal definitivo de que temos força para enfrentar qualquer obstáculo que, porventura, venha a surgir.

 

*André Sequeira é jornalista há quinze anos e viciado em esporte, literatura e cinema.

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