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Como a Uber e o Airbnb mudaram as cidades por dentro

31 / outubro / 2017

Personificada nos principais executivos da Uber e do Airbnb, a nova geração de empresas de tecnologia exige que a realidade siga suas próprias regras, como conta o jornalista Brad Stone em seu As upstarts.

Por Alexandre Matias*

 

Há duas mudanças fundamentais na atual safra de novas empresas de tecnologia que prometem “mudar o mundo” na segunda década do século XXI. A Uber e o Airbnb são os principais exemplos dessa nova tendência, que o jornalista Brad Stone, veterano na cobertura do jornalismo de tecnologia nos Estados Unidos e autor de A loja de tudo — livro que conta a história da ascensão de outro titã da tecnologia, Jeff Bezos, fundador da Amazon —, chama de “upstarts”, em oposição às já tradicionais “startups”, em sua obra As upstarts, lançada este ano no Brasil.

A primeira dessas mudanças é o fato de que o impacto dessas empresas digitais recai diretamente sobre a realidade fora da internet. São marcas criadas em torno de aplicativos para smartphones e sites, mas cujo foco reside em suas aplicações no mundo offline. Ambas as empresas partem do pressuposto da economia do compartilhamento e foram fundadas com base em ideias simples, porém difíceis de serem executadas como um negócio — pelo menos até antes do advento da internet no século passado e de sua popularização em massa no início deste século. Se você tem um quarto vazio em casa ou um imóvel, por que não sublocá-los para hóspedes temporários? Se você tem um carro, teoricamente tem uma fonte de renda que pode lhe permitir ganhar dinheiro transportando passageiros.

Essa é a primeira forma de impacto dessas novas empresas em nossa realidade fora da internet. De repente, as redes de hotéis e cooperativas de táxis passaram a ter um concorrente inusitado: uma rede de senhorios e motoristas que organizou-se ao redor de um aplicativo na internet. Mas esse não é o principal choque causado por essas novas empresas. O termo escolhido por Stone para batizá-las  — e para batizar seu livro — é uma ótima amostra da nova abordagem escolhida por esses novos bilionários e suas empresas criadas da noite para o dia.

 

Sem o devido respeito

Para deixar claro logo de cara qual é o enfoque do livro, Brad Stone recorre ao termo “upstart”, que diz respeito não só à chegada de novatos inovadores nos negócios, mas também aos próprios novatos. A dualidade do termo “upstart” cai como uma luva para definir o novo padrão detectado por Stone, que usa as duas definições do Merriam-Webster’s Learner’s Dictionary: a primeira define upstart como “pessoa, negócio etc. que recentemente obteve sucesso” e a segunda fala de “pessoa que iniciou há pouco uma atividade, fez sucesso etc. e não demonstra o devido respeito para com pessoas mais velhas e experientes ou para com as maneiras tradicionais de se fazer as coisas”.

Assim, o livro fala sobre como as principais personalidades por trás da criação e do estabelecimento dessas empresas (Travis Kalanick, ex-CEO da Uber, afastado do cargo em junho deste ano após denúncias de assédio dentro da empresa, e Brian Chesky, do Airbnb) são radicalmente diferentes dos gênios que tornaram o Vale do Silício o que ele é hoje. Ao contrário de nomes como Bill Gates (que fundou a Microsoft), Larry Page e Sergey Brin (fundadores do Google) e Mark Zuckerberg (o pai do Facebook), Kalanick e Chesky não são nerds tímidos que aparentam não ter vida social. Eles se impõem em qualquer conversa e sabem conduzir reuniões e negócios como poucos. Se aproximam mais da figura de Steve Jobs como marqueteiros de si mesmos, porém têm uma abordagem bem mais agressiva justamente por enfrentarem concorrentes fora da vida digital.

Brad Stone também define as empresas que analisa como killer companies — “empresas matadoras”. E o assassinato aqui não é apenas uma frase de efeito. Tanto a Uber e o Airbnb quanto as outras startups descritas no livro (concorrentes diretas das duas, como a Lyft, a Sidecar e o Pad Pass) são empresas que querem exterminar ramos inteiros de negócios, como o de táxis e hotéis. Os gigantes da tecnologia que vieram antes — Google, Facebook, Apple e Microsoft — não tinham concorrentes diretos, pois estavam inventando novos ambientes digitais; “para que serve isso?” era uma pergunta recorrente para todas suas invenções. A Uber e o Airbnb competem contra lógicas de negócios seculares, que existem muito antes da invenção dos primeiros computadores. Sua função é clara.

 

Travis e Brian

E é aí que entram as personalidades de seus principais executivos que ajudaram a erguer essas empresas. Pois ao lidar com o mundo fora da internet, a Uber e o Airbnb tiveram que bater de frente com legisladores, sindicatos, prefeituras, governos e associações empresariais que determinavam regras para seus negócios muito antes da criação da internet. Se tivessem sido executivos comedidos ou com dificuldade para se expressar como os CEOs digitais que abriram caminho para eles, talvez seus negócios não tivessem se imposto de forma tão agressiva ou fossem apenas modismos passageiros.

Os principais exemplos de Stone são personalidades complexas e complementares: Travis tendo agido quase como um vilão de forma arrogante e truculenta para conseguir estabelecer sua empresa; Brian, por outro lado, persuasivo e convincente o suficiente para mexer em estruturas jurídicas sem necessariamente ser agressivo. Os dois pavimentaram o caminho para as próximas upstarts, que certamente abalarão ainda mais nosso convívio social. Se antes havia uma expectativa de que governos e prefeituras transformassem nossas cidades em smart-cities, conectando-as de forma inteligente à internet, a realidade é que foram empresas privadas que estabeleceram o novo padrão de conexão entre a urbe e a rede. “Mudar o mundo” talvez seja uma frase de efeito gasta, mas a Uber e o Airbnb já mudaram completamente a paisagem das grandes cidades pelo planeta. O que não é pouca coisa.

*Alexandre Matias, 42 anos, é jornalista e cobre cultura e tecnologia há mais de duas décadas, centralizando sua produção no site www.trabalhosujo.com.br.

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