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O medo que fica à espreita

3 / agosto / 2017

Por Ilana Goldfeld*

Ilustração: Verena Antunes

Stalker. Para quem trabalha com traduções, existem algumas palavras que você bate o olho e pensa: “Hmm, vai ser difícil passar isso para o português.” Stalker é uma delas.

Não que a prática seja desconhecida aqui no Brasil. Atire a primeira pedra quem nunca “stalkeou” alguém no Facebook, Instagram, Twitter ou até no falecido Orkut. Sim, amigos, esta prática já se infiltrou no nosso cotidiano. Mas todos os exemplos dados são do mundo virtual. Na vida real, quando se trata de ser um stalker (ou “perseguidor”), as coisas podem assumir outro tom…

Eu sei onde você está mostra o que é sentir isso na pele. É uma obra de ficção que faz o leitor agradecer aos céus por essa história ter sido inventada (e, se você souber de algo que indique o contrário, por favor, não me diga).

Clarissa tem um perseguidor, Rafe. Os dois trabalham no mesmo lugar, o Departamento de Literatura Inglesa da Universidade de Bath, o que significa que ela não tem muito como fugir dele. E não é por falta de tentativa. Então, quando ela é chamada para participar de um júri, tendo que se afastar do emprego por um tempo, fica animadíssima com a perspectiva de alguns dias de paz.

Porém, não é apenas no trabalho que eles se veem. Rafe parece segui-la em todos os lugares. Sabe aquela música: “Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver/ Alguém que você gostaria que / estivesse sempre com você / Na rua, na chuva, na fazenda / ou numa casinha de sapê”? Então, imagina o contrário. Tudo o que ela quer é distância dele e está determinada a conseguir isso, ainda que, às vezes, esse objetivo pareça impossível de ser alcançado.

Muitos autores escrevem livros como aranhas tecem teias: estabelecem um ponto inicial e a partir dele desenrolam fios (no caso dos escritores, narrativos). Claire Kendal faz diferente: sua trama já começa com Clarissa e o leitor, juntos, presos na teia de Rafe. Esta história começa pela metade. Logo de cara, nas primeiras páginas, dá para notar quão desesperadora é a situação. Aos poucos, flashbacks e as anotações que Clarissa faz numa espécie de diário em que relata como é ser perseguida revelam como tudo começou e se desenvolveu. Pensamentos, emoções, traumas: nada deixa de ser registrado. A agonia e o nervosismo criam o clima do suspense psicológico.

O jogo de gato e rato construído pela autora está presente até no título Eu sei onde você está. O original em inglês é The Book of You porque faz referência ao diário que Clarissa passa a escrever enquanto é alvo da obsessão de Rafe. A tradução literal, O livro sobre você, não funcionaria muito bem — o leitor poderia, a princípio, até achar que se trata de um guia de autoajuda, oferecendo determinado número de passos para alcançar o autoconhecimento. Gosto de Eu sei onde você está porque acho que funciona em relação aos dois personagens: Rafe parece sempre saber onde Clarissa está, o que faz com que, consequentemente, o oposto também seja verdade — ela sabe que ele está vigiando, à espreita. A protagonista pode estar completamente sozinha, mas o medo se infiltra em seus ossos a ponto de ela passar a ver seu perseguidor, ele estando lá ou não.

Na história, enquanto tem que lidar com seus problemas, Clarissa se vê às voltas com o caso do qual é jurada. A vítima é uma mulher, Carlotta Lockyer, e o banco dos réus é ocupado por cinco homens acusados de, entre outras coisas, agredi-la. Quanto mais envolvida fica com o julgamento, mais ela passa a se identificar com a moça. Ao se deparar com violência na vida alheia, ela tem uma nova perspectiva com a qual era obrigada a lidar em seu dia a dia. E mais decidida fica a não se deixar dominar pelo medo.

Um dos maiores triunfos do livro é conseguir fazer com que o leitor se sinta como Clarissa. Até certo ponto, os temores dela viram um pouco os seus. Para ilustrar isso, compartilho um episódio pessoal (e um tanto constrangedor): considero a madrugada um momento excelente para trabalhar: tudo é silencioso e não há tantas distrações — leia-se mensagens de grupos no WhatsApp —, então consigo me concentrar melhor. Eis que eram três horas da manhã e eu me encontrava absorta no drama da vida da nossa protagonista. Dei uma parada rápida no texto, só para ir à cozinha beber água. Voltando para o quarto, vejo um rosto na janela. Dou um salto olímpico de três metros e derramo o líquido por tudo que é lado. Milésimos de segundos depois, percebo que era meu próprio reflexo no vidro. É este o nível de tensão provocado por Eu sei onde você está. É capaz de deixar você com medo da própria sombra — ou, no caso, do próprio reflexo.

Meu conselho? Se for ler de madrugada, feche as cortinas. Mas aviso: existe grande chance de você não se sentir seguro para abri-las na manhã seguinte.

>> Leia um trecho de Eu sei onde você está

 

Ilana Goldfeld gosta tanto de ler que entrou na Faculdade de Comunicação para fazer Publicidade, mas se formou em Produção Editorial. Como se isso não bastasse, acabou indo fazer mestrado em Literatura. Trabalha para o mercado editorial há mais de cinco anos.

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