Bastidores, Listas

Por onde e por que ler Neil Gaiman?

12 / maio / 2017

Por Daniel Lameira*

Deuses, crianças e adultos buscando se entender. Para isso vão ao inferno, visitam mundos paralelos, atravessam portas misteriosas. Em cada história de Gaiman, acompanhamos personagens cativantes que partem em jornadas mágicas, muitas vezes para, no fim, descobrir que a resposta estava o tempo todo dentro de si.

Como se fossem artefatos mágicos, os livros do simpático inglês descabelado desapareceram durante anos das livrarias e das mãos dos leitores brasileiros. Um dos maiores autores do mundo acabou se tornando, em nossas terras, conhecido apenas por um nicho, e não pelo grande público. Isso começou a mudar nos últimos anos. Agora, com grande parte de sua obra de volta às prateleiras e uma série de TV estreando, vamos viver em 2017 o ano de Neil Gaiman.

Com dezenas de livros e opções, alguém que ainda não se aventurou nesse universo pode se perguntar qual o melhor caminho a trilhar. Estou aqui para tentar ajudar nessa encruzilhada. Mas antes, uma questão: por que deveríamos ler Neil Gaiman?

Por que ler Gaiman?

Vejo duas palavras entrelaçadas como resposta: mágico e humano. É a relação de ambas que traz, em diversas camadas, a beleza de Gaiman. O resultado é que, ao terminar qualquer obra do autor, vejo a nossa realidade, as pessoas e suas atitudes, com mais magia. E isso acontece não como um escapismo; o fantástico ajuda a enxergar melhor o real.

Gaiman tem essa habilidade rara de se encontrar em outros escritores. Seja o leitor que enveredou pelos lindos caminhos dos clássicos da fantasia, o leitor de quadrinhos, ou o que se emocionou com romances, até o leitor que prefere não ficção ou títulos premiados, todos encontram em Gaiman um ponto de equilíbrio. Talvez isso seja explicado em parte por suas inspirações, que passam pelos fantasiosos Tolkien, Pratchett, Douglas Adams, Lovecraft, Alan Moore, mas também por Jorge Luis Borges, G. K. Chesterton e Bulgákov.

Além de transitar tranquilamente por áreas como criação, romances, quadrinhos, infantis, contos, ensaios, biografias, Gaiman também dirigiu filmes, e se posiciona no cenário cultural de forma exemplar. Ele expôs suas opiniões diversas vezes sobre grandes temas da atualidade: refugiados, política, feminismo. E também é presente nas discussões literárias desde como a fantasia é vista injustamente como uma literatura menor, passando pelas polêmicas envolvendo fascistas em premiações e até defendendo o George R. R. Martin da fúria dos leitores que exigem o próximo livro.

Se não é o bastante, talvez você divida comigo a empolgação de ver um autor no auge da sua criação em atividade. Um escritor que será lembrado na posteridade como um dos gênios e influenciadores culturais de nosso tempo, e que nos ensina a ver mais camadas além da realidade material.

 

Por onde começar ou continuar a ler?

Deuses americanos

Este é o momento certo para você ler esse que é considerado o maior romance de Gaiman. Só porque a nossa edição linda tem trechos inéditos e muito mais? Também, mas principalmente porque enfim a série American Gods acaba de estrear! Está sendo considerada a próxima grande sensação da TV, e essa primeira temporada deve cobrir apenas um terço do romance.

 

Na história, Shadow Moon, dias antes de terminar sua sentença e sair da cadeia, descobre que sua esposa acaba de falecer. Sem rumo, ele começa a encontrar personagens misteriosos e parte em uma road trip fantástica pelos Estados Unidos, tornando-se peça essencial em uma guerra entre deuses.

A mitologia criada para esse livro é excelente: os deuses que estão guerreando se dividem entre deuses antigos (gregos, egípcios, hindus, nórdicos etc.) e novos (como a mídia, a tecnologia e o dinheiro). Mas, mais do que o épico, é nos elementos pequenos, a cada encontro, cada local pelo qual o protagonista passa – os seus encontros com esses seres mitológicos agora personificados – que a escrita de Gaiman cresce e mostra por que é única.

 

O oceano no fim do caminho

Se você quer algo introspectivo e belo, O oceano no fim do caminho talvez seja a pedida certa. Esse romance recente do autor é uma pequena joia.

No início, a ideia era que fosse uma novela, mas o texto foi ganhando substância e se tornou um pequeno romance de duzentas páginas. Gaiman o escreveu enquanto passava um tempo distante de sua esposa, Amanda Palmer, e foi colocando elementos que ela gostaria de ler. Como ela não é muito fã de fantasia, os aspectos fantásticos aqui ficam um pouco atenuados. Tem um lado autobiográfico interessantíssimo: o narrador do livro é um adulto que, em um funeral, começa a relembrar sua infância, diversos episódios reais, e sua relação com umas vizinhas estranhas e fantásticas.

 

Sandman

Minha cabeça realmente explodiu quando li Sandman. Já tinha lido diversas outras graphic novels de renome, de Cavaleiro das Trevas e Watchmen a Will Eisner e Spiegelman, mas acho que a história de Morpheus – forma antropomórfica do Sonho – se libertando de sua prisão e reencontrando seus irmãos (Morte, Destino, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio) é incomparável.

Aqui também, muito mais do que os grandes arcos, os pontos altos são as pequenas histórias e como esses seres transcendentais e poderosíssimos se relacionam e influenciam os seres humanos, desde o mais desconhecido até Shakespeare.

 

Belas maldições

Gaiman era um grande amigo e admirador desse autor que é ainda menos conhecido por aqui, mas que é um dos mais importantes autores de fantasia: Terry Pratchett, criador da série que mais me fez rir na vida, Discworld. Juntos, eles escreveram esse que é o mais sarcástico e irônico livro desta lista. Perfeito para os fãs de Douglas Adams, por exemplo.

No livro, um demônio e um anjo percebem que nem o céu nem o inferno são tão legais para se passar o tempo todo e se juntam para evitar o Apocalipse. Uma dica: quando ler, tente identificar quais capítulos foram escritos por Gaiman e quais são os do Terry Pratchett.

 

Bônus track

Mitologia nórdica: Assista esse vídeo incrível do próprio Gaiman apresentando o seu mais recente livro.

Lugar nenhum: Primeiro romance do autor, passado em uma Londres subterrânea. Também é uma ótima porta de entrada.

Para os pequenos: Coraline, João & Maria e Livro do Cemitério.

E para os menores ainda: Cabelo Doido, Os lobos dentro das paredes e O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados.

E para aqueles que precisam de um pouco de inspiração: Faça boa arte, o discurso de Gaiman aos graduandos da University of the Arts que se transformou nesse livrinho – idealizado pelo designer gráfico Chip Kidd –, traz suas ideias sobre criatividade, bravura e força, encorajando os novos pintores, músicos, escritores e sonhadores a pensar de forma inovadora.

Me obrigaram a encerrar este texto, senão ele se estenderia infinitamente. Eu aprendi a amar literatura com diversos autores e me apaixonei por muitos outros no caminho: R. L. Stevenson me fez navegar os mares de uma literatura empolgante pela primeira vez, J. K. Rowling mudou os rumos da minha vida, Tolkien e Terry Pratchett expandiram o que eu achava possível fazer em livros até então… Depois me empolguei com livros de Brandon Sanderson, Susanna Clarke, Philip Pullman, Ursula K. Le Guin e George R. R. Martin. Mas Gaiman sempre me surpreende com sua leveza e profundidade, por conseguir andar pelos campos mais etéreos da nossa mente, mas falar, ao mesmo tempo, do que há de mais humano dentro de nós.

 

*Daniel Lameira é editor de aquisições da Intrínseca. Ficou muito feliz por ter atendido Gaiman quando trabalhava em uma livraria, mas triste por não ter o livro que ele pediu.

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Comentários

Uma resposta para “Por onde e por que ler Neil Gaiman?

  1. Muito bom o texto, mas sou suspeito, acompanho a trabalho do Mr. Gaiman desde do início, li todo material dele q foi publicado em terras tupiniquins… Só diria q faltou um
    parágrafo falando sobre Caçadores de Sonho, a
    maravilhosa parceria com o mestre Yoshitaka Amano (acho q é assim q escreve!). Parabéns!

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