Bastidores

As obsessões que mudaram o mundo

11 / maio / 2017

Por Nina Lua*

Xícara de porcelana da primeira fábrica do Ocidente, c. 1815

Nós costumamos encarar a história da humanidade como uma sucessão de grandes acontecimentos e marcos importantes. Mas e se pensássemos que, na verdade, o mundo de hoje é consequência de atos e decisões de indivíduos como nós, com interesses, gostos e sentimentos únicos? É isso que Edmund de Waal faz em O caminho da porcelana. Assim como no best-seller A lebre com olhos de âmbar, o autor parte de um assunto aparentemente restrito para falar de algo bem maior: como a obsessão das pessoas pela arte, pela riqueza e pelo poder engendrou transformações através de séculos e continentes.

De Waal começa por sua própria história. Além de escritor, ele é artista plástico. Teve a primeira experiência com cerâmica aos cinco anos, quando acompanhou o pai a uma aula de artes. Ali nasceu seu primeiro pote e a obsessão de uma vida inteira. Essa tigela era de argila marrom, do tipo com que costumamos brincar na infância, mas foi pintada de branco. A história de De Waal com o branco teve uma reviravolta na adolescência, quando ele descobriu a porcelana. Seguiram-se vários anos de tentativas (na maioria frustradas) de produzir peças que fossem capazes de gerar dinheiro para que ele se sustentasse e, ao mesmo tempo, trazer satisfação, um sentido para a vida, um senso de propósito. De Waal define melhor do que ninguém essa busca: “Guardo comigo cada ajuste emocional pelo qual passei enquanto aprendia a fazer algo que eu fosse capaz de amar.”

Detalhe da exposição breathturn, de Edmund de Waal, 2013

O amor — ou a obsessão — do autor com a porcelana o leva a uma jornada para explorar a história desse material tão precioso. A viagem começa na China, onde a porcelana foi criada há um milênio, e se estende por lugares como a Itália, a França, a Alemanha, a Inglaterra e os Estados Unidos. Ao longo do caminho, De Waal encontra histórias que ilustram o melhor e o pior da humanidade. Por exemplo, na China, o imperador Yongle, que reinou entre 1402 e 1424, ascendeu ao poder usurpando o trono do sobrinho e assassinando toda a corte, em um verdadeiro banho de sangue. Para se purificar, e acreditando que o branco faria com que as almas daqueles que tinha matado subissem mais depressa aos céus, ele encomendou uma quantidade abissal de porcelana, erguendo um pagode gigantesco feito do material.

Xilogravura chinesa mostrando a preparação de moldes de porcelana, 1815

Praticamente todos os grandes comandantes do mundo encararam a porcelana como um símbolo de status. Luís XIV, Mao Tsé-Tung, Stálin — todos usaram a porcelana para atestar seu poder. Na Alemanha nazista, prisioneiros de um campo de concentração eram obrigados a fabricar pequenos objetos de porcelana para que os líderes do partido presenteassem uns aos outros — soldadinhos, cervos, coelhinhos, cachorrinhos.

WARSZAWA. SKLEP Z PORCELANA FIRMY "SS-PORZELLAN-MANYFAKTUR ALLACH" W MONACHIUM. ADM SYG II-7131 NR. NEG. R 16319

Loja de porcelana Allach, que vendia peças produzidas por prisioneiros de um campo de concentração, 1941

A história da porcelana acompanha os fluxos do poder, mas também tem a ver com a genialidade de indivíduos. Durante séculos, apenas a China sabia o segredo para a fabricação do material. Mas tudo mudou na Alemanha do século XVII. Certo dia, surgiram rumores de que um jovem aprendiz de boticário, Johann Friedrich Böttger,  tinha conseguido criar ouro a partir de outras substâncias. Fascinado pelo boato e com a intenção de encher os cofres, o rei aprisiona o rapaz e ordena que ele repita a façanha. Anos se passam sem qualquer sucesso, até que, junto com um matemático chamado Ehrenfried Walther von Tschirnhaus, Böttger consegue criar não ouro, mas porcelana. É o suficiente para o rei.

E assim surge a primeira fábrica de porcelana no Ocidente. De Waal vai à Alemanha e vê uma das primeiras peças criadas pela dupla de alquimistas. Com ela nas mãos, resume o sentido de seu caminho da porcelana: “Assim é o mundo. Pode ser explicado, mas continua sendo extraordinário. Em minhas mãos, há uma xícara branca. É modesta, mas este é meu momento alquímico, o instante no qual, pela primeira vez, tenho clareza sobre como uma ideia se concretiza.”

 

Ficou fascinado pela jornada inusitada de De Waal e quer mergulhar em seu relato sobre como a paixão e a obsessão mudaram vidas e transformaram o mundo? Então leia O caminho da porcelana, lançamento de maio da Intrínseca.

 

* Nina Lua é editora assistente de livros estrangeiros da Intrínseca.

 

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Comentários

2 Respostas para “As obsessões que mudaram o mundo

  1. Adorei saber mais sobre a porcelana.

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