Entrevistas

O que é preciso para se tornar um campeão?

30 / março / 2017

Adriano de Souza (Fonte)

Adriano de Souza nasceu em uma sexta-feira 13, num barraco de madeira, numa favela do litoral paulista. Ainda criança, sua vida mudou completamente quando descobriu a alegria de brincar com uma prancha de surfe nas ondas do Guarujá. Baixinho, malnutrido, criado na pobreza, Mineirinho, como ficou conhecido, conseguiu superar suas limitações, colecionar títulos dentro e fora do Brasil e conquistar o campeonato mundial do esporte.

A jornada de Adriano foi registrada em Como se tornar um campeão pela jornalista Márcia Vieira, que em mais de trinta anos de carreira teve passagens por veículos como Jornal dos Sports, O Estado de S. Paulo e O Globo. Em entrevista exclusiva, a autora – que lança o livro no dia 05 de maio em São Paulo – explica o interesse pelo esporte, o processo de escrita do livro e as expectativas com o grupo de brasileiros do surfe profissional, a Brazilian Storm. Confira:

1- O que a motivou a ir atrás da história de Adriano? Você já se interessava pelo esporte ou a história de superação dele que a convidou a pesquisar melhor sobre o mundo do surfe?

Comecei no jornalismo cobrindo esporte amador no Jornal dos Sports, no início dos anos 1980. Até então, não tinha interesse por nenhum outro esporte que não fosse futebol. 

À medida que fui conhecendo melhor o mundo do que na época se chamava esporte amador (surfe, natação, atletismo, basquete, remo…), fui me apaixonando. Até escrever o livro, sabia que Adriano era muito talentoso, um líder entre os surfistas brasileiros, mas sobretudo um grande batalhador, que tinha rompido barreiras para chegar à elite do surfe. Eu não tinha noção de que a história dele era muito mais do que isso.

Depois das primeiras conversas e de pesquisar muito sobre o surfe de elite, percebi que a trajetória dele, do Guarujá ao título no Havaí, é uma das mais impressionantes da história do esporte. Chegar aonde ele chegou, enfrentando carências e hostilidades pelo caminho, não é para qualquer um.

 2- Como foi o processo de escrever o livro de um atleta que está viajando todo o tempo? Você se encontrou pessoalmente com Adriano para escrever o livro? Como foi?

Nossa primeira conversa foi por Skype. Adriano, depois de dois meses de lua de mel na Indonésia e no Vietnã, estava na Austrália para competir nas três primeiras etapas do Circuito Mundial. A princípio, ele foi bem econômico nas respostas. Adriano é tímido, reservado, e parecia pouco à vontade em contar sua vida para alguém que não conhecia e, ainda por cima, via Skype, com doze horas de fuso horário entre nós.

Aos poucos, ele foi relaxando, ganhando confiança, me contando mais histórias, detalhando angústias e conquistas. Ficamos assim, pela internet, durante dois meses, conversando sempre entre os intervalos de treinos e competições, até ele chegar ao Brasil para a etapa do Rio do Circuito Mundial. Nós nos encontramos na casa dele, em Florianópolis, um superapartamento com vista para as ondas da praia do Campeche. Um lugar agradável, decorado com apreço pela mulher dele, Patrícia Eicke. O lugar mais legal da casa é a sala com todos os troféus que ele acumulou desde a infância. Estão lá também, arrumadas em gavetas, as camisetas de todas as competições de que participou desde a estreia na elite do surfe, em 2006. Foi na casa dele, ouvindo o barulho do mar entre goles de suco de uva, que a conversa fluiu de vez.

Depois, fomos juntos para o Guarujá, onde ele nasceu, e percorremos as ruas da comunidade Santo Antônio, sua “quebrada”, como gosta de dizer. Bastou Adriano pisar na favela para que dezenas de meninos e meninas surgissem aos gritos de “O campeão voltou”. Foi emocionante. Depois de conhecer Santo Antônio, seus moradores, e conversar com os pais e o irmão de Adriano, é que tive a dimensão do caminho que ele precisou percorrer até ser consagrado em Pipeline, no Havaí. Entendi por que chorou ao sair da água, em dezembro de 2015, com o título de campeão mundial. Como ele mesmo definiu: sua conquista foi algo monumental.

3- Antes dos títulos de Gabriel Medina e Adriano de Souza, o surfe não tinha tanto destaque na cobertura jornalística brasileira. Você acha que se mais pessoas conhecessem o cenário do surfe poderíamos ter mais jovens surfistas brasileiros no ranking dos melhores do mundo?

O Brasil já tinha tido outros surfistas entre os atletas de elite. O que aconteceu a partir da chegada de Adriano ao Circuito Mundial, com apenas dezenove anos, é que ele passou a ser visto como um competidor inflexível pelos rivais. Ele foi mostrando, conforme ia evoluindo, que tinha chances de um dia ser campeão. E provou para a garotada que era possível sobreviver e vencer num circuito dominado por americanos, havaianos e australianos.

Quando Gabriel Medina ganhou o título, em 2014, foi a confirmação de que o “time” brasileiro era muito mais do que apenas uma esperança da barulhenta torcida verde e amarela que invade a areia, até mesmo em praias australianas e havaianas. Em 2015, ano em que Adriano foi campeão mundial depois de dez anos lutando pelo título, o Brasil explodiu no cenário do surfe mundial: Adriano foi o primeiro brasileiro a vencer a etapa de Pipeline, no Havaí, a mais importante do circuito; Medina foi campeão da Tríplice Coroa (torneio disputado em três praias havaianas), outro título inédito para o surfe brasileiro; Caio Ibelli foi campeão do WQS (torneio classificatório para a elite); Ítalo Ferreira foi o estreante do ano no circuito; e o carioca Lucas Silveira foi campeão mundial júnior. Um ano de ouro.

 

4- Ao longo do livro, é mencionado que a conquista do título mundial não teve a cobertura que é comum a outros campeões mundiais. Por que você acha que isso aconteceu?

O mundo do surfe é dominado por americanos, havaianos e australianos. Em todos os sentidos. Quem organiza o campeonato mundial é a WSL (World Surf League), uma empresa americana. O maior campeão mundial de todos os tempos é americano, Kelly Slater (onze vezes campeão). O segundo maior é australiano, Mike Fanning (tricampeão). As maiores empresas patrocinadoras de surfwear são americanas e australianas. Adriano não tinha o perfil típico dos surfistas que dominavam o circuito: ele é baixo, de origem humilde, descendente de nordestinos, vindo de um país que, até a chegada dele ao circuito, não tinha um campeão mundial. Ele conquistou sua vaga na elite vencendo o torneio WQS. Uma senhora façanha. Esse torneio reúne cerca de mil surfistas de todas as nacionalidades.

Nos primeiros anos na elite, Adriano foi bem, mas não chegou a ameaçar a turma que dominava as ondas. Era mais um entre os 36 que disputavam o circuito. Quando começou a brigar de fato pelo título mundial e passou a se impor nas ondas, disputando com garra e comemorando suas conquistas com estardalhaço, o que não se fazia na época, foi mal recebido. Mas não se importou com isso. Continuou focado, tentando aprender com quem surfava melhor do que ele. Comprou briga, dentro d’água, com o fenômeno Kelly Slater. Enfim, incomodou. Quando conquistou o título mundial, em Pipeline, a grande torcida da mídia internacional especializada, composta por revistas e sites americanos e australianos, era por Mike Fanning. O australiano brigava pelo quarto título mundial. Meses antes, tinha sido atacado por um tubarão na etapa sul-africana. Na véspera, tinha perdido um irmão, e sua mãe estava na praia torcendo por ele. Fanning seria campeão mundial se Adriano não tivesse vencido sua bateria na semifinal e levado o título. Por isso, acredito, a má vontade da mídia internacional com Adriano. O editor de uma revista especializada chegou a fazer, mais tarde, uma espécie de mea-culpa, admitindo que todo o mundo foi injusto com Adriano.

 

5- Quais as suas expectativas sobre a performance de Adriano no campeonato de 2017?

São muito boas. O campeonato mundial é disputado em onze etapas ao longo do ano em praias com ondas muito diferentes. A briga pelo título é dura. Adriano fez uma excelente pré-temporada, em janeiro e fevereiro. Treinou direto no Havaí. Não parou nem no Natal. Ele está muito animado com o trabalho com o técnico, o Leandro Dora, o Grilo. Vai brigar pelo bicampeonato. No Brasil, a gente pode acompanhar as etapas pelo site da WSL e pela ESPN, na TV. E de 9 a 20 de maio acontece a etapa em Saquarema. É um grande momento para o surfe brasileiro. Os fãs devem lotar a praia.

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Comentários

Uma resposta para “O que é preciso para se tornar um campeão?

  1. AMEI! Vou comprar com certezaaaaa. Melhor escritora ❤

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