Clarice Freire

Eu vou usar óculos

25 / janeiro / 2017

Meu pai usa óculos. Como uma porção de coisas faz parte do show de Cazuza, os óculos fazem parte do charme do meu pai. Ele fica com aquele jeito sou-inteligente-porém-desleixado-que-você-respeita.

Minha mãe, míope. Não tenho nenhuma lembrança dela sem suas lentes enfeitando o momento da leitura. As grandes armações também estão nas fotos antigas, em preto e branco, nas quais ela aparece riponga — claro, de óculos. O modelo vai mudando com o passar dos anos, mas ele está sempre lá.

Minha irmã mais nova usa óculos. Como é pianista, fica sempre com aquele ar de superioridade quando os põe para, veja bem, ler partituras.

Não sei ler partituras.

Mal aprendi a ler uma cifra quando tentei, sozinha, aprender violão.

Os oito anos que me separam da minha irmã e que deveriam me trazer sabedoria se apagam quando ela põe aquele ar intelectual no rosto.

Todos os meus avós usam óculos. Amigos, amigas, Harry, todos.

Menos eu.

E eu nunca soube lidar muito bem com essa fatalidade.

Na infância desejamos coisas estranhas, de fato. Quebrar o braço para usar gesso e tê-lo assinado pelos coleguinhas: sinal de popularidade.

Tem também o desejo de usar aparelho. Essa vontade nunca entendi e até hoje não compreendo, mas me lembro de pegar tiras de papel alumínio, enrolar, colocar na frente dos dentes e passar horas diante do espelho admirando o resultado.

Todos esses desejos foram a típica vontade que “dá e passa”. Realmente, tudo passou, menos meu gosto pelos óculos. Nunca me conformei com o fato de não precisar deles e achava que deveria haver algum engano aí.

Quantas oftalmologistas já marquei! E em todas as consultas eu cogitava mentir sobre as letrinhas miúdas que enxergava sem um pingo de dificuldade. Mas meus escrúpulos me permitiam, no máximo, hesitar antes de dar a resposta certa, por uma questão de dignidade por estar ali tomando o tempo da moça.

Minha vista sempre foi perfeita. Impecável. E assim segui adiante.

Até semana passada.

Nos últimos meses sentia dores de cabeça, olhos queimando, doendo e dificuldade para ver coisas miúdas. Marco a oftalmologista e ela me diz: “Você precisa de óculos.”

Realização.

Envio mensagens para os grupos com minha frase tão esperada para ser escrita “Vou usar óculos” e saio em busca deles. Confesso, foi difícil. Ao contrário dos óculos de sol, esses precisam ficar o tempo todo no rosto, ou seja, viram praticamente uma parte de você.

Depois de uns dias em busca de qual seria finalmente o meu, vejo, de repente, ainda mais pessoas usando as lentes corretoras de mundo ao meu redor. Parece que os míopes se multiplicaram, e se antes eu achava que todos precisavam de óculos, esse número dobrou — claro, porque passei a prestar mais atenção.

Lembrei-me, então, de uma criança de uns cinco anos que conheci numa biblioteca de uma comunidade carente a que fui, no Recife, como escritora convidada. Ela me perguntou:

— O que é preciso para ser poeta?

Fiquei pensando no que responder para que ela compreendesse:

— Você precisa usar os óculos mágicos do poeta.

— Óculos mágicos?

— Sim. Primeiro você imagina que ele existe, e magicamente ele vai existir em seus olhos. Quando você coloca esses óculos, não enxerga mais com os olhos, mas com o coração.

— Como assim?

— O coração é a casa do amor no corpo. Quando você se lembrar de usar esses óculos, vai ver o mundo diferente. Vai ver a poesia que está escondida nas pessoas, nas coisas, porque ela está em todos os lugares, mas a gente não enxerga.

Saí de lá pensando nesses tais óculos, depois me esqueci deles. Afinal, eles foram apenas uma pequena metáfora para crianças. Acontece que esses dias, passando por tantas óticas, eles me voltaram à lembrança.

Tantos míopes de sentido no mundo, meu Deus! Todos, todos precisam de óculos. Inclusive eu.

Deixamos de enxergar a poesia das coisas, de usar a propriedade fundamental das lentes para a vida: corrigir as falhas no mundo.

Uma vez, lendo um livro do Jostein Gaarder, vi a frase: “Tudo o que precisamos para ser bons filósofos é a capacidade de nos maravilharmos com as coisas.” Ele explica que crianças são capazes de se impressionar com o fato de que estamos agora, neste momento, flutuando no espaço, e nós, velhos — por dentro, na minha opinião —, nos acostumamos com o extraordinário.

Em outras palavras: precisamos usar óculos porque estamos ficando cegos, ceguetas, não somos capazes de ver o que eu disse para aquela criança — a poesia escondida nas coisas. Ou a injustiça gritante em outras, o que consegue ser ainda mais sério.

Às vezes acho que a vista das pessoas é monotemática: si mesmo, si mesmo, si mesmo. Existe alguma doença que nos deixa “monovisionários”?

Sim. Creio que sim.

Andamos olhando para baixo: nossos celulares, nossos próprios passos, nosso umbigo. Ninguém se lembra de olhar o céu ou se sustenta nos olhos de alguém sem desviar-se.

Um amigo estava numa livraria dia desses e percebeu que dezenas de livros falam sobre se lembrar de respirar, parar, ouvir.

O essencial, o básico, virou desconhecimento, ficou invisível, embaçado e turvo. Estamos no escuro?

Voltando aos filósofos da história, eles eram filósofos porque simplesmente observavam. Observavam a natureza, os astros, as pessoas e os mistérios da vida.

Precisados estamos de oftalmologistas que receitem colírios de maravilhamento três vezes ao dia, lentes — não descartáveis — de empatia e que, por favor, alguém apague todo o cinza que estão nos obrigando a enxergar. Quem sabe alguma lente especial não devolva nossas cores, descolore as dores e pinte de novos amores nossa cegueira.

Não sei vocês, mas…

Eu vou usar óculos.

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