Clarice Freire

Diga-se de passagem

10 / janeiro / 2017

 

Quando eu era criança, sonhava ser atriz.

Essa vontade durou até um pouco depois da infância, não pelo desejo da fama ou pela glória diante de todos — talvez até fosse secreta e inconscientemente. Eu era tão tímida que talvez desejasse ver a fama cuidando do trabalho de fazer amizades por mim, mas apenas por um grande motivo: eu queria ter a possibilidade de viver várias vidas numa só.

Uma atriz quase literalmente incorpora diversas pessoas ao longo da sua — curta demais, por que a vida é tão fugaz? — existência. E isso parecia a solução perfeita para o fato de que, sim, eu seria uma só, com uma vida só, com escolhas mutáveis e as assustadoramente definitivas.

Monótono, igual, previsível, eu achava.

Via os atores mirins, os da minha época: Macaulay Culkin, Elijah Wood, Mara Wilson, todos os Batutinhas ou os maravilhosos do Castelo Rá-Tim-Bum apareciam de repente com outras roupas, em outros filmes ou sendo entrevistados em programas de auditório com um novo jeito de falar, andar, olhar, outro cabelo… Eram outras pessoas. Tinha de fato algo de mágico ali, e, nossa, eu os invejava de todo o coração.

Invejava também as aventuras que viviam: florestas geladas, fugas com cachorros, magia, perigo — com a certeza, obviamente, de que tudo daria certo — e uma vida emocionante. Tudo aquilo, até certa idade, era real para mim. Quando entendi que era atuação, trabalho, luz, câmera, ação, eu achava que fingir já estava ok. Tudo bem, aceito. Confesso que me conformei rapidamente. Melhor isso do que a previsibilidade da vida normal, eu achava. Em outras palavras, melhor isso do que uma vida só.

Até fiz um tempo, maravilhoso, de teatro, que ajudou a me encontrar como gente, mas não segui em frente. A vida me levou por outros caminhos e fui para a plateia mesmo, que é um lugar brilhante. A plateia do teatro, do cinema ou a cadeira de casa, onde abrimos um bom livro e somos transportados para longe.

Gosto de ser plateia. Adoro ser leitora. Sempre gostei de ler. Assistir é bom.

Mas cá estou eu aqui, neste momento, escrevendo, não lendo.

De repente percebi que escrevo.

Hoje em dia, talvez, tanto quanto ou mais do que leio, sinceramente. Escrevo e escrevo e escrevo histórias, poesias, pensamentos, esta coluna…

…Escrevo a minha única vida.

Do dia para a noite você não é mais aquela criança sonhando com aventuras em florestas mágicas, mas uma bem crescida criatura vencendo a selva. Do mundo e da sua própria alma, diga-se de passagem.

Ei, você, me leu? Diga-se de passagem!

Estamos aqui de passagem.

Imaginemos agora uma estação de trem. Milhares de pessoas apressadas indo e vindo, entrando e saindo… O que guardam nas mãos e nos bolsos? Passagens. Nos aeroportos, milhares de passagens. No meu relógio mais velho que a fome, o tempo também está de passagem. E como passa depressa!

Não mais que do dia para a noite, eu me percebo vivendo, como previa, uma vida só. E normalmente minhas passagens são só de ida — poucos passos na vida real têm um retorno —; raro ser ida e volta. Mas as voltas existem. Claro, graças a Deus elas existem. Mas as voltas, a palavra já fala por si só, já foram a algum lugar. Então trazem o cheiro do vento, a marca do sol, a poeira nos pés, a memória de onde foi. A volta, afinal, foi a algum lugar, e nunca voltamos os mesmos quando vamos a algum lugar.

Gente, até as voltas já passaram.

Mas, reconheço, estar de passagem tem a sua maravilha: estamos magicamente em transformação.

Uma espécie de mutação constante que às vezes evolui e outras retrocede, verdade, mas é dinâmica, viva, nunca parada… Sempre e sempre

de passagem.

A vida até me deu hoje amigas atrizes. Brilhantes atrizes! Adoro assisti-las porque sei como são na vida real e isso tem um gosto bom; volto à minha infância. Acho fantástico observar aquela pessoa normal que almoça comigo segurando uma espada, travando batalhas com um amor proibido, vivendo outra vida. Acho o máximo.

Eu na plateia, elas em cena.

Quando a cena acaba, somos todos “povo 1”, “multidão 3” ou “transeuntes da rua 4” mesmo. Pela rua, em casa, vivendo a passagem da vida normal.

Elas e eu. E você, caro leitor.

Saí dos palcos, dei um jeito de escrever. O que me tira da “total plateia”, talvez?

Escrevo um papel e ao vento também. Todos os dias, quando acordo, escrevo sem papel o roteiro do dia, na verdade dos próximos segundos do dia, e eles normalmente não obedecem ao que está no script. Os atores da nossa “uma vida só” são demasiadamente livres, criativos e surpreendentes para se deixarem guiar por um roteiro, ainda que ele seja fantástico, porque vão dar um jeito de inventar um ainda mais mirabolante, inimaginável, surpreendente. E bota surpreendente nisso!

Nossa vida está de passagem; estamos passando, sim. Somos passageiros de um trem sem destino certo. O destino: mistério. O caminho: aventura, drama, romance e, por favor, grandes doses de fé e coragem.

As aventuras do meu hoje em dia superam — ô, como superam — a emoção daquelas histórias fantásticas do cinema.

Diga-se sempre: estou de passagem! Diga-se de passagem.

E tudo ganha vida própria. Muito mais de mil vidas numa só.

Acho que perdi a inveja dos meus queridos atores mirins.

Do fundo do meu coração.

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