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Tony & Susan: o clássico perdido

19 / dezembro / 2016

Por João Lourenço*

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Amy Adams em Animais Noturnos

No mundo da ficção, nada me dá mais prazer do que desvendar a obra de um autor desconhecido. O sentimento de descoberta é contagiante: atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por um autor de quem ninguém (ou quase ninguém) ouviu falar e, em seguida, saiu recomendando a obra para os amigos. 

Em um tempo em que todos parecem consumir as mesmas informações, nada supera a sensação de encontrar um clássico perdido — um livro para chamar de seu. E foi essa a experiência que tive com Austin Wright, autor de Tony & Susan.

Há alguns anos, uma amiga me deu de presente o livro. O título chamou atenção, mas foi o retrato do autor na orelha que me fisgou. Curioso em saber quem era aquele homem de aparência séria e olhar distante, fui atrás de mais informações antes de começar a leitura. Para minha decepção, não encontrei nada muito interessante ao digitar Austin Wright nos sites de pesquisa. Nenhuma aparição na TV ou perfil nas redes sociais —  nem entrevista em revistas literárias. Aceitei que a melhor forma de tentar desvendar o mistério em volta do autor seria por meio da leitura de Tony & Susan, e é desafiador explicar a trama de um livro cheio de reviravoltas sem estragar o elemento surpresa. Mas vamos lá. 

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Antes de mais nada, Tony & Susan é um livro dentro de outro livro. Após mais de 20 anos sem comunicação, Susan recebe um pacote misterioso do ex-marido. Trata-se de Animais noturnos, manuscrito do primeiro romance de Edward. Ele deseja a sincera opinião de Susan, que sempre fora a sua melhor crítica.

Conduzidos por Susan, somos convidados a ler o manuscrito. Já nas primeiras páginas, ela é atraída pela vida de Tony Hastings, professor de matemática que atravessa o país de carro com a mulher e a filha. Seguindo para a casa de verão, Tony cai em uma armadilha e é obrigado a parar o carro em uma estrada escura e deserta. Ao acompanhar o terror vivido por Tony e sua família, Susan (e nós, leitores) mergulha em uma história de violência, vingança e redenção.

A leitura de Animais noturnos obriga Susan a encarar o passado obscuro que deixou para trás. Tony & Susan é um constante lembrete de que a vida que conhecemos pode desaparecer em um piscar de olhos. 

Estruturado com maestria, a obra intercala os capítulos entre a vida pacata e suburbana de Susan e a sombria trajetória de Tony. Além de nos fazer percorrer as dúvidas e arrependimentos do seu passado, Susan também é uma “guia de leitura”. É por meio da visão dela que o leitor embarca na narrativa de Animais noturnos, mas o mais legal é que as observações de Susan não influenciam a nossa própria leitura. Ao contrário: apenas nos deixam mais atentos e curiosos. Em Tony & Susan, até os personagens secundários possuem ricos detalhes, e cada um deles poderia render outro livro. É uma obra que mistura gêneros e emoções distintas. 

Tony & Susan se destaca por apresentar pessoas, medos e situações próximos da realidade — o que torna tudo ainda mais assustador.

imagem-cena-copiaCena de Animais Noturnos

Ao terminar a leitura, fiquei ainda mais curioso sobre a vida do autor. Elena Ferrante que me perdoe, mas preciso de certa proximidade com os autores que admiro. Mas, novamente, não obtive muito sucesso. Tudo que há sobre Austin Wright são suposições e pequenos dados biográficos.

Wright nasceu em 1922 e se dedicou à carreira acadêmica. Por mais de 20 anos, foi professor de literatura americana na Universidade de Cincinnatti — sua especialidade era William Faulkner. Tony & Susan é o quarto livro de Austin. Ele escreveu sete romances, além de diversos artigos de crítica literária. Foi reverenciado por pessoas como George Plimpton (fundador e editor da revista Paris Review), e, devido aos quebra-cabeças da narrativa e invenções linguísticas do autor, alguns críticos americanos o comparavam à James Joyce. 

Na época do lançamento de Tony & Susan, em 1993, o escritor Saul Bellow disse: “Brilhantemente escrito. A última coisa que você espera em uma história de sangue e vingança.” Embora sejam admirados por crítica e público, os livros de Austin Wright ficaram perdidos no tempo. Ele recebeu propostas de grandes editoras, mas optou em publicar por editoras pequenas.

Até recentemente era raro encontrar um exemplar de Tony & Susan. O título ganhou reedição americana e inglesa em 2010, vendeu bem e atraiu novos leitores, como o estilista e diretor Tom Ford. Os direitos para a adaptação cinematográfica de Tony & Susan foram adquiridos em um leilão por 20 milhões de dólares. O longa, intitulado Animais Noturnos, tem estreia no Brasil em 29 de dezembro. No elenco, os atores Jake Gyllenhaal e Amy Adams interpretam Tony e Susan. O filme já está fazendo sucesso: levou o prêmio da crítica em Veneza e foi comparado aos thrillers de Alfred Hitchcock.  

Às vésperas da estreia do filme, Tony & Susan está sendo reeditado ao redor do mundo — e, em alguns lugares, lançado pela primeira vez. Mas Austin Wright não vai ter a chance de presenciar o seu sucesso. O autor morreu em 2003 de causa desconhecida. 

Austin Wright sempre foi obcecado pela conexão entre o real e o fictício, e nada melhor do que Tony & Susan para nos ensinar que nós somos coautores dos livros que lemos.

  

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

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Comentários

Uma resposta para “Tony & Susan: o clássico perdido

  1. Livro maeavilhoso, tenso, sem ser monótono, amei

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