Monica de Bolle

As entranhas do populismo econômico

21 / dezembro / 2016

Quando comecei a escrever Como matar a borboleta-azul, não imaginava que o livro e as reflexões que lá estão serviriam como referência para entender a onda de populismo que se alastra mundo afora. A era Dilma ficará para sempre marcada como mais uma tentativa fracassada do “populismo econômico” na América Latina, mas não apenas isso. Servirá, por exemplo, para compreender as consequências e alertar para os perigos do populismo econômico que pode vir a ser característica da era Trump. Populismo econômico, afinal, não é invencionice latino-americana, tampouco está restrito a “de esquerda” ou “de direita”.

Em livro clássico publicado em 1991, os renomados economistas Rudiger Dornbusch e Sebastian Edwards desenvolveram o conceito do populismo econômico baseado nas experiências latino-americanas dos anos 1980. O livro, intitulado The Macroeconomics of Populism in Latin America, é uma coletânea de artigos que retratam casos de diversos países, porém conta com uma apresentação primorosa dos autores, em que definem com clareza os princípios das políticas populistas.

 

Características:

  1. Condições iniciais – O populismo econômico surge de insatisfação generalizada da população com os rumos da economia. Na raiz desse sentimento está a desigualdade da distribuição de renda, que cria atritos políticos e socioeconômicos, induzindo à ideia de que é possível fazer melhor com medidas radicalmente diferentes.
  2. Sem amarras – No populismo econômico não há restrições: o governo pode gastar o que for preciso para melhorar a vida das pessoas. O argumento é que, ao induzir o crescimento, não há o que temer. Déficits não explodirão, a inflação não sairá do controle e o governo não haverá de quebrar.
  3. Políticas econômicas – Todas têm por objetivo reativar a economia, reestruturá-la e distribuir renda. Tudo pelo emprego, tudo pelos salários, ainda que se tenha de intervir no funcionamento dos mercados — essa é a reestruturação resultante.

 

Fases:

  1. Glória e reivindicação – Uma vez posto em prática, o populismo econômico gera crescimento, empregos e renda, glorificando seus proponentes e destituindo seus opositores.
  2. Sinais de alerta – As políticas começam a dar sinais de desgaste. O crescimento cai, a inflação sobe, a população começa a ficar inquieta com os efeitos percebidos no cotidiano: a queda na qualidade de vida. Nessa fase, o governo normalmente redobra a aposta no populismo econômico.
  3. Desarranjo – Os desarranjos da segunda fase ficam mais evidentes. Déficits fora de controle e a alta contínua da inflação levam o governo a adotar medidas cada vez mais disparatadas, piorando os desequilíbrios.
  4. Colapso – A economia entra em recessão, o emprego encolhe, os salários caem, déficits e dívidas explodem. Aumenta a turbulência política, muitas vezes resultando na queda de governos.
  5. Ajuste – O colapso requer doloroso processo de ajuste, em que as perdas ficam evidentes, a desigualdade de renda aumenta devido aos desarranjos anteriores e a insatisfação popular cresce continuamente. O agravamento das tensões políticas e sociais pode desaguar no recrudescimento das condições que levaram ao populismo econômico. Ou seja, é comum que o populismo econômico clame por mais populismo econômico, reiniciando o ciclo.

 

Como matar a borboleta-azul está estruturado exatamente dessa forma, e não por acaso. A lição é que a redistribuição de renda populista se dá mais para aqueles que têm poder político e econômico do que para os realmente necessitados. Foi assim no Brasil, poderá vir a ser assim nos Estados Unidos de Trump.

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Comentários

2 Respostas para “As entranhas do populismo econômico

  1. O populismo é a prova de estagnação evolutiva de vocês seres humanos que não curtem o universo!

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