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As memórias afetivas de Neil Gaiman

3 / novembro / 2016

Por Mário Feijó*

Neil Gaiman

Neil Gaiman (Fonte)

Neil Gaiman é desconcertante, às vezes incômodo. Quem o acompanha desde os anos 1980 sabe disso. Dos quadrinhos para os livros, da fantasia adulta para a literatura infantil, umas poesias aqui, uns roteiros e contos ali, lá vai Gaiman escrevendo sobre a vida, que é imensa e complicada e não dá nenhum alerta antes de nos ferir. De vez em quando, ele reúne algum material disperso, geralmente contos, e procura seu editor. Assim ganhamos Fumaça e espelhos e, depois, Coisas frágeis. Mas Alerta de risco, publicado em agosto deste ano pela Intrínseca, é melhor. E não só porque nessa antologia Gaiman resolveu mostrar toda a sua versatilidade literária… Cara, tem Doctor Who e Sherlock Holmes!
Todos têm histórias guardadas na memória. Nascemos e crescemos imersos em narrativas mesmo antes de sermos alfabetizados ou de conquistarmos autonomia como leitores. Com o tempo, fazemos releituras, reinterpretamos, permitimos dúvidas e perguntas inconvenientes sobre os personagens que conhecemos tão bem, sobre os universos que amamos. Ou seja, nossas narrativas fundamentais se transformam constantemente, desde a infância até a velhice, e essas transformações podem nos enriquecer de múltiplas formas ­– mas são perturbadoras. Assim como nossas lembranças de família.

Nesta nova antologia, o que o criador de Sandman e Coraline faz é compartilhar lembranças afetivas de suas leituras, usando o estilo precioso e preciso que tanto gosto de elogiar. Na introdução do livro, ele explica a origem de cada texto, de onde veio cada inspiração. Como ele mesmo resume, autores moram em casas construídas por outros autores.

Jack Vance, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Conan Doyle… A lista de influências é ótima. Como estamos falando de Neil Gaiman, claro que os contos de fada estão lá. Malévola, Branca de Neve e Bela Adormecida habitam o mesmo mundo, em reinos vizinhos. Assim sendo, as personagens podem ultrapassar as montanhas e se encontrar. Os eventos que começam em “Respeitando as formalidades” continuam nas páginas seguintes, em “A Bela e a Adormecida”. No primeiro conto, temos o ponto de vista de Malévola sobre a ofensa recebida da família de Aurora. Esqueça que ela é uma bruxa, ou fada má; pense nela como uma de suas tias. Leia com atenção e carinho, pois isso poderá lhe poupar muitos aborrecimentos um dia desses. Lembre-se das pequenas formalidades nos batizados, casamentos, divórcios e funerais.

No conto seguinte, que se passa muito tempo depois, a maldição do sono iniciada por Malévola está se espalhando para além das fronteiras, ameaçando o reino de Branca de Neve. Por ter sobrevivido a um feitiço semelhante, ela goza de imunidade. Como boa heroína, vai com seus melhores anões cumprir o dever de uma rainha e resolver um mistério. Não se assuste com os sonâmbulos envoltos em teias de aranha; zumbis são bem piores. Essa história, aliás, está disponível em edição ilustrada por Chris Riddell. O mesmo ocorre com A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, com ilustrações de Eddie Campbell.

Ah, “Um calendário de contos” também faz parte desta seleção. Anos atrás, a BlackBerry convocou artistas para desenvolverem projetos multimídias em parceria com os clientes da empresa. Gaiman entrou no jogo, propondo ideias para microcontos, um para cada mês, a partir das quais os fãs elaboravam frases, que eram retomadas por Gaiman para a construção de sua narrativa. Trabalho colaborativo. Um resultado bastante interessante. E badaladíssimo nos estudos de comunicação e cultura, considerado um marco no uso das mídias sociais para a criação artística.

capa_alertaderisco_webAo mesmo tempo que faz das memórias afetivas sua base de trabalho nesta antologia, o autor não perde a oportunidade para explorar lembranças falhas, imperfeitas ou incompletas. São aquelas histórias guardadas no passado de cada um, ou porque eram segredos ou porque não houve a oportunidade certa para contar. Pode acontecer com seu pai, vide “História de aventura”. Descobrir um pai diferente daquele que você julgava conhecer mudaria sua perspectiva da vida? Nada assustador, veja bem. Ele continuaria a ser o cara legal de sempre, entretanto… Dá para imaginar que o sujeito mais pacato de todos foi um Indiana Jones? Não são os pterodátilos, os astecas ou a garota alemã (que não era alemã) que perturbam o narrador: o impacto é você descobrir que não conhecia o próprio pai, que jamais desconfiou da verdade. De repente, sua vida é uma bolha de ilusões. Os outros sabiam, você não. Uma típica sacanagem de família.

Quanto aos segredos, quanto um garoto pode revelar de verdade sobre sua primeira namorada?  Cassandra é apaixonante, um sonho. Boa demais para ser real? O único jeito de saber é lendo “Detalhes de Cassandra”. Aliás, esta é a prova de que há enredos perfeitos para narrativas curtas.

Quando estiver com Cassandra, lembre que cada um de nós percebe a realidade ao redor de maneira diferente (pois cada um possui uma vivência individual, única e exclusiva). Ainda assim, no entanto, nos esforçamos para construir uma realidade coletiva onde possamos habitar juntos ― quem sabe até ter certa sensação de bem-estar ou alguém a quem amar, alguém que possa corresponder ao nosso amor de preferência. A realidade em que estamos inseridos, portanto, é uma criação coletiva de nossas imaginações, linguagens e narrativas. Criação que começa a ser construída na primeira infância. Ou seja, sacanagens de família importam.

Família sacana é a do Shadow, protagonista do último conto da antologia e também do clássico Deuses americanos (que foi relançado em outubro deste ano, em edição preferida do autor). Se você ainda não leu o romance que mudou a trajetória de Gaiman, tudo bem. “Cão negro” tem unidade de ação, é completo em si mesmo, com início, meio e fim. Aposto que Conan Doyle e Edgar Allan Poe apreciariam, pelo equilíbrio entre mistério, terror e morte. Allan Moore, Stephen King e Clive Barker também. É a única trama inédita da antologia, escrita especialmente para fechar o livro.

Se você ainda não leu Deuses americanos, leia assim que puder. Foi uma revolução em termos de literatura fantástica e quebra de paradigmas. Para os leitores de Sandman, foi a chance de reencontrar o labirinto infinito de mitologias onde todas as divindades coexistem simultaneamente. Para quem descobriu Gaiman nesta obra, Odin e Loki ganharam muito mais significado do que a Marvel pode proporcionar. Pois é, até as famílias de Asgard são sacanas.

É por causa de “Cão negro” que sugiro, ao terminar “Alerta de risco”, aproveitar o embalo e ler (ou reler) “O barril de amontillado”, de Poe. Todo bom escritor remete a outro; estão sempre interligados de alguma maneira. Daí Gaiman fazer questão de Shadow citar Watson ao examinar as pegadas de um gigantesco cão de caça.

Tenho endereço certo em Londres: Baker Street, 221B. Assim sendo, cometi o pecado de não ler a antologia na sequência concebida pelos editores, fui direto para “Caso de morte e mel”, a versão Gaiman para Sherlock Holmes. Foi inevitável imaginar o hilário diálogo entre Mycroft e Sherlock interpretado pelos atores Mark Gatiss e Benedict Cumberbatch. Foi gratificante embarcar na pergunta fundamental: por que Holmes dedicou sua velhice à apicultura? Por que mel seria algo tão importante? Aqui cabe meu próprio alerta: quem leu O último adeus de Sherlock Holmes (His last bow) conhece o desfecho dado por Doyle para a vida de desafios de seu detetive. Gaiman, portanto, começa de onde o cânone parou. Entretanto, aqueles que leram apenas as primeiras aventuras, ou as mais famosas, talvez se surpreendam com as premissas usadas em “Caso de morte e mel”. Desnecessário. Deixem para se surpreender no final.

Gaiman nos bastidores da série britânica Doctor Who (Fonte)

Quanto ao nosso longevo Doutor Who, este é o décimo primeiro, aquele que foi interpretado por Matt Smith. O autor faz questão de definir em qual momento exato da cronologia do Senhor do Tempo seu conto é ambientado. Como fã desde menino da série da BBC e, mais tarde, um de seus roteiristas, Neil estava em casa, na boa — e se divertindo —, ao escrever “Hora nenhuma”. Embarque na TARDIS, pois é hora de salvar o continuum. Mesmo quem não é britânico ou fã de ficção científica vai curtir a viagem.

Sim, Gaiman é desconcertante, por mexer tanto em memórias e famílias; é incômodo quando perturba nossos afetos, questiona o que sabemos sobre as pessoas que amamos – vivas ou mortas. Mesmo assim, ele nos faz querer confiar, querer acreditar. Viver não é mera existência, embora alguns precisem estar no limite, ou diante do sobrenatural, para entender isso. A vida pede sentido e propósito, o que garante bastante complicação para qualquer um de nós. Para isso, é preciso escolher o que lembrar ou o que esquecer. Eis um dilema fundamental, que fica cada vez mais evidente ao longo da jornada. A literatura de Gaiman pode ser excelente companheira e conselheira, mas não espere encontrar nela um lugar seguro.

 

* Mário Feijó é doutor em Letras e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, onde ministra a disciplina complementar “Gaiman: do terror ao infantil”.

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