Pedro Gabriel

[O LIVRO MAIS DESGASTADO DA MINHA ESTANTE]

18 / outubro / 2016

leminski

O livro mais desgastado da minha estante usa bigode e tem a pele alaranjada. Leminski, com toda sua poesia, me disse tanto em tão poucas – e não ocas! – palavras. Paulo, com todo seu carisma e sensibilidade, me encaminhou ao lugar mais intenso que um verso livre é capaz de nos levar: ao nosso próprio universo criativo.

A publicação exposta na minha prateleira é uma edição recente, de 2013. As traças não tiveram tempo de corroer aqueles haicais impressos em papel pólen soft. A inspiração é que tomou conta da minha cabeça ao ler infinitas vezes cada verso curto: finito visualmente, eterno na mente. É essa sensação de permanência que a poesia nos dá após ler um poema que determina a longevidade de uma obra poética. Paulo Leminski, em mim, é para sempre. Quando leio seus livros me sinto livre. Sem as amarras acadêmicas. Sem as algemas métricas. Sem o rigor da poesia tradicional.

Toda Poesia me acompanhou tantas vezes nas idas e vindas ao trabalho – um percurso que começava no Flamengo e terminava na Barra da Tijuca. Para quem não mora no Rio de Janeiro, essa distância equivale, mais ou menos, do planeta Terra até a lua. Em dias de chuva, esse trajeto aumenta consideravelmente.

Muitos condenam os leitores que rabiscam ou interferem graficamente nos livros. Eu já acho que um livro marcado é um livro vivido. É sinal de que aquela leitura, de alguma forma, foi importante naquele momento. É a prova de que a relação leitor-autor foi realizada com sucesso. O livro te marcou tanto que você retribuiu deixando marcas também.

A minha letra tremida, resultado de uma parceria maligna entre as curvas da Av. Niemeyer e da velocidade desnecessária do motorista do ônibus, é presença garantida em todas as 424 páginas do livro. Sim, rasurei cada uma delas. Todas têm uma intervenção minha: seja um desenho desengonçado, seja um traço incompleto, seja um esboço de uma possível ideia que não dará em nada. O importante é escrever. A escrita não pede explicação. Ela exige apenas que o poeta escreva.

As anotações datam de 3 anos atrás. Os registros da lapiseira 0.5mm já estão um pouco apagados pelo tempo e pela fricção constante das páginas, umas nas outras. O tempo é realmente uma borracha lenta. Alguns guardanapos esquecidos mudaram de função e hoje servem como marcadores de páginas aleatórias. Sempre gostei e proteger minhas criações dentro de livros marcantes.

Dessas leituras, não nasceram os meus melhores versos, mas, sem dúvida, os meus melhores raciocínios. Por exemplo, na página 147, leio a minha caligrafia: “Poesia é quando o sujeito verbaliza o silêncio que há em si”. Um pouco antes, na página 313, minhas mãos escreveram “Longo caminho para um logo destino”. Já a página 394 revela uma curiosidade. Ou um desespero. É a Única mensagem escrita em caneta preta. Talvez para eternizar esse verso: “Eu também quis que o infinito se acabasse em nós”.

Um livro inspirador nunca termina na última página. Ele continua para sempre na sensibilidade do leitor. Afinal, o que se desgasta é o objeto físico. A alma do livro, a cada releitura, é renovada. Desgastado pelas traças, pelos raios solares, pelas rasuras de todos os lápis que já passaram por ele, o meu Toda Poesia continua mais vivo do que nunca na minha estante, alimentando constantemente os meus novos espasmos criativos.

E, você, qual o livro mais desgastado da sua estante?

Leia mais Pedro Gabriel

A poesia pode andar de chinelo

A poesia pode andar de chinelo

Uma casa sem quintal não sabe o que é poesia

Uma casa sem quintal não sabe o que é poesia

[SOM PAULO]

[SOM PAULO]

Uma estrada chamada 2017

Uma estrada chamada 2017

Comentários

13 Respostas para “[O LIVRO MAIS DESGASTADO DA MINHA ESTANTE]

  1. Também adoro esse livro. Ele já chama a atenção pela cor. De longe eu o vejo na minha estante.

  2. Será que essa coluna me ajuda a acabar com meu bloqueio em relação a deixar marcas nos livros?

  3. Linda publicação Pedro! Você acabou colocando em palavras tudo o que sinto pela obra do Leminski, todo o conforto e os confrontos que a escrita dele trouxe a mim. Quanto a marcar os livros… isso não sou capaz de fazer… não sou digna de adicionar palavras a obra dele, você sim tem esse poder, essa alma de poeta , esse sopro de vida em caneta e papel.

  4. Que engraçado, eu rompi essa ideia de não marcar os livros justamente hoje. O meu livro marcado e intervido é o “Ilustre Poesia”, de um tal de Pedro Gabriel, rs. É uma forma de eternizar tudo aquilo que está escrito, dentro de mim. A sua sensibilidade me afaga. Obrigada por me proporcionar tantas viagens poéticas. ❤

  5. Pedro que texto FODA, perdoe-me a palavra. A toda semana leio aqui seu texto, mas esse em específico me identifiquei muito. Meus livros TODOS, sobretudo, Clarice Lispector são marcados por mim, e a cada nova releitura descubro algo novo. Leminski ainda não li, mas pelo seu texto, semana que vem compro o meu. Senti aqui todo o sentimento dessas linhas escritas. Beijos e Obrigada!

  6. Poesia é esse texto. Musical de tão afinado e bonito. Parabéns. Talento puro (ou muita dedicação!?!). Abraço.
    Obs: ficou até em segundo plano o assunto, mas sim, me dei vontade de ler Paulo Leminski.

  7. Oi, Ana! Muito obrigado pela leitura e pelo comentário. É muito importante pro autor receber esse retorno do leitor. Beijo grande e até minha próxima coluna, hein 😉

  8. Oi, Yasmim! tudo em paz? Conheço esse tal de Pedro Gabriel. Uma fofura só hahaha Obrigado pelo comentário! Beijão 😉

  9. Oi, Monalise! Fico feliz. Espero que a sua leitura de Toda Poesia desperte o seu lado mais criativo. Existem milhões de livros marcantes. Cada um vai encontrar o seu ao longo das leituras. Beijo beijo!

  10. Oi, Gabriela! Agradeço o elogio! Acho que um texto para sair mais ou menos aceitável é fruto de muita leitura e muita busca por referência até encontrar a própria voz. Estou encontrando a minha. Espero que não se silencie haha bjos!

  11. Oi, Pedro! Gosto muito do seu estilo, do modo como você usa as palavras, a sonoridade resultante quando pronunciamos… Eu quase não escrevo nos livros que leio. Eu destaco ideias, faço anotações.

  12. OI, Walbervan! Muito obrigado pela gentileza do seu comentário. Pois é, cada um vai encontrando seu método de absorver o mundo de ideias que cada livro nos dá, né? É impressionante como um único livro pode ser tantos! Abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *