Fernando Scheller

Morrer de amor

27 / outubro / 2016

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Tracei tantos cenários para o dia em que reencontrasse Roberto que, quando isso finalmente aconteceu, não soube o que fazer. Como resumir o que se passou em oito anos? O fato é que ele desistira e eu permanecera. Ele não pôde aguentar a destruição dos planos, a reversão das expectativas. Era fraco e, em retrospecto, sempre havia sido.

No primeiro sinal de adversidade, foi procurar o ideal, o que sonhara, o que planejara em sua mente de advogado tributarista. Mulher que não trabalhasse, dois filhos loiros, emprego público. Segurança era a palavra-chave. Ao cruzar aquela mesa no restaurante, ver os enteados dele quase adultos, não pude deixar de achar que ele parecia um intruso naquele grupo.

Trocara a experiência dos seus pela mentira de uma outra vida, inventada. Laranjeiras pela Barra da Tijuca. O filho real por postiços. A mulher que o amara desde os dezesseis anos por outra, genérica (nem nisso ele foi original: casou-se com a antiga secretária). Mas sei que Roberto não deixou a mim. Fugiu de Otávio, tão rápido quanto pôde.

Nenhuma comunicação, a não ser documentos judiciais, depósitos mensais da pensão em minha conta-corrente, pensão sempre em dia. Nunca o procurei. Quis  confrontá-lo, mas nunca o fiz. Pode ter sido um erro. Ou talvez ele tenha previsto o sofrimento, tenha antevisto o que eu não poderia adivinhar. Passei por tudo, apostei. Ganhei e perdi. Mas, agora, somos iguais: ambos vivos, no mesmo restaurante.

Todos estamos em contagem regressiva para a morte — uma vez meu filho me disse isso. A única diferença é que, no caso de Otávio, os ponteiros estavam acelerados, era necessário correr muito, sugar o mundo todo de uma vez. Como nas tragédias gregas, nosso filho morreu de amor. No fim, porém, os minutos passavam devagar. Falta de ar e feridas. Febre e delírio. Pele e osso. Dores e vômitos.

Nosso filho, como os heróis (ou heroínas) das tragédias gregas, morreu de amor. Amou tanto — mas não o suficiente. Amou muitos corpos, perdeu-se entre braços, pernas, torsos e órgãos genitais. Peitos peludos e pés grandes, masculinos. Foi dizimado pela praga. Tantos outros corpos também desapareceram, sugados pela doença e pelo medo.

Eu, por outro lado, sobrevivi. Como uma ninfa mágica, ou uma fênix, me reinventei. Experimentei maconha, beijei um aluno e comecei a ouvir reggae. É como se o sofrimento, os reveses e o impensável tivessem me dado uma profundidade que eu não tinha. Os olhos ganharam mistério, e eu mostro minhas rugas com orgulho. Elas validam minha história.

E, então, estamos aqui. Eu e Roberto, mais uma vez. Ele está mais gordo, mas não muito. Pude ver em seu rosto que ele não aprendeu nada. Pensei em enfrentá-lo, em dizer o que estava óbvio: ele não pertencia àquela família, aqueles jamais seriam seus filhos. O filho dele estava enterrado no cemitério de Botafogo, um funeral sob o sol de quarenta graus de um dia de Ano-Novo. Ele poderia fugir para o outro lado do planeta que nada mudaria a verdade.

Pensei em dizer-lhe isso. Eu já quis gritar, quis entender, mas hoje tudo isso me parece supérfluo. A vida é muito rica, e dura demais, para que Roberto seja capaz de suportá-la sem criar a própria redoma. Minha companhia me esperava para o almoço, mesmo assim me detive por mais alguns segundos, tentando chegar a uma conclusão, decifrar o enigma.

A resposta era simples. Roberto agora fazia parte de um passado distante, meio cor-de-rosa e um tanto imbecil, uma espécie de sonho que não se quer que vire realidade. A melhor coisa que ele fez por mim foi partir. Fui testada e superei todas as fases. O jogo continuava, a vida seguia, estávamos ambos aqui. Só havia uma diferença: ele ainda era o mesmo e eu, outra.

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