Entrevistas

A economista Monica de Bolle analisa o mergulho brasileiro na crise

18 / outubro / 2016

Rennan da Rocha*

debolle_preview-54Foto: Leo Aversa

O título já dá o tom do novo livro da economista Monica Baumgarten de Bolle. Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma é uma história de fôlego jornalístico contada ao sabor da sucessão dos fatos na qual recursos da narrativa, como metáforas e fábulas, têm ascendência sobre a análise econômica. É uma escolha, claro. Aos 44 anos, a professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington, prefere falar para além do círculo de colegas economistas, profissão que, admite, sofre de certa crise existencial desde o colapso financeiro de 2008 e é dada hoje à pirotecnia técnica. Monica optou por escrever para o leitor que não faz ideia do que significa “quantitative easing” (ela explica no livro, a propósito), mas que se pergunta cotidianamente por que, em apenas cinco anos, o Brasil deixou de ser um farol emergente para submergir em recessão traumática. É desse tombo surpreendente que trata o livro.

A narrativa começa quando Dilma Rousseff assume a Presidência, em 2011, e termina quando sofre impeachment, em 2016. Para a autora, o calor de fatos tão recentes, em vez de impor a necessidade de mais tempo e distanciamento, inspirou a missão de esclarecer desentendimentos “que ainda são fonte de rancores e de visões apaixonadas”.

“Por esses motivos, ela (a história) fascina. Eu sabia que, ao publicá-la, correria o risco de ser rotulada de golpista, ou de ultradireita, ou de neoliberal, ou de tantas outras coisas que tenho dificuldade de entender e definir”, conta Monica.  “Entendo que, para alguns, essa história é ferida aberta, e que eu estou colocando o dedo nessa ferida. Para esses leitores, em especial, quero dizer que esse livro não é um tratado político anti-PT, nem é a favor de qualquer partido ou posicionamento ideológico. Eu teria escrito fosse Dilma petista ou não”, esclarece na entrevista a seguir.

 

capa_comomataraborboletaazul_webSeu livro conta como a ex-presidente Dilma Rousseff chegou ao poder disposta a fazer tudo de um modo diferente para alcançar resultados também inauditos: civilizar os juros, erradicar a pobreza etc. A história sobre a morte da borboleta-azul fala justamente disto: ideias mirabolantes, aparentemente bem-intencionadas, que resultam em desastre. Depois de mergulhar nessa trajetória, que motivos você aponta como os principais para a debacle dos anos Dilma? 

Há duas maneiras de refletir sobre o desastre econômico da gestão Dilma, complementares e não substitutas. A primeira é que Dilma, ao contrário de seu antecessor, enfrentou ambiente internacional absolutamente hostil. Tudo o que havia ajudado o Brasil ao longo dos anos Lula — matérias-primas em alta, China pujante, comércio global galopante, forte impulso do crescimento mundial — mudara.

Quando assumiu a Presidência, os preços das matérias-primas começavam a resfolegar em razão da perda de tração da China; os países afetados pela crise de 2008 davam sinais alarmantes; o crescimento mundial estava na berlinda. Diante desse quadro, Dilma mirou alto demais. Tentou o impossível, que era manter a economia brasileira crescendo e gerando empregos, no mesmo ritmo dos anos anteriores, sem adequá-la à nova realidade. A outra reflexão é que Dilma realmente tinha ideias diferentes sobre como promover o desenvolvimento do Brasil. E algumas de suas ideias já haviam sido tentadas no passado com resultados desastrosos. Exemplo: a ideia de que para crescer é preciso tolerar um pouco mais de inflação. A inflação ascendente foi para nós como a grama que cresceu, dizimando as formigas que protegiam os ovos da borboleta. A inflação, a grama. As formigas, os trabalhadores. A inflação, a queda da renda dos trabalhadores, a morte do crescimento.

 

Seu livro também usa, como apoio, alguns textos contemporâneos aos fatos, como posts e artigos seus publicados em jornais. Ao contrário de outras crises, em que economistas e a própria imprensa são acusados de falhar em prevê-las, essa parece ter sido documentada como um folhetim, não?

Por isso trata-se de uma grande crônica. Comecei a escrever com regularidade para jornais e para meu blog na segunda metade de 2010. Durante todo o governo Dilma, fui fazendo artigos, anotações, paralelos com a literatura, com filmes e músicas. Isso permitia que juntasse meus interesses pessoais com os profissionais — aliás, a grande liberdade da escrita. Sempre trabalhei com crises. Minha tese de doutorado foi sobre crises; minha experiência no FMI [Fundo Monetário Internacional] foi em resolvê-las — a da Argentina e a do Uruguai; hoje leciono sobre crises na Johns Hopkins. Crises são fascinantes, têm suspense, clímax, ambiente, personagens interessantes. São, enfim, trama para ninguém botar defeito.

A ideia de escrever um livro sobre os anos Dilma que trouxesse essa essência das crises vem, portanto, de muito tempo. Esse livro começou a ser elaborado em 2014, mas naquele ano eu já havia juntado tanto material de minhas análises que não foi difícil transformá-lo em uma narrativa com tom jornalístico.

Vejo essa forma de contar a história dos anos Dilma como o ponto forte do livro, que é sobre economia, mas sobre economia como coisa da vida, de todos os dias.


Trata-se também de um livro publicado no calor dos fatos. Por que contar essa história enquanto ela ainda está “quente”?   

Exatamente porque ela ainda pulsa, ainda provoca muitos desentendimentos, ainda é fonte de rancores e de visões apaixonadas. Por esses motivos, fascina. Eu sabia que, ao publicá-la, correria o risco de ser rotulada de golpista, ou de ultradireita, ou de neoliberal, ou de tantas outras coisas que tenho dificuldade de entender e definir. Hoje moro em Washington, mas escrevi a maior parte do livro enquanto morava no Brasil. Vivi as angústias e frustrações de cada momento, vivi a deterioração do debate entre as pessoas, a rixa entre “direita” e “esquerda”, que turva visões, dilacera corações, acaba com longas amizades.

Entendo que, para alguns, essa história é ferida aberta, e que eu estou colocando o dedo nessa ferida. Para esses leitores, em especial, quero dizer que esse livro não é um tratado político anti-PT, nem é a favor de qualquer partido ou posicionamento ideológico. Eu teria escrito fosse Dilma petista ou não. Digo a esses leitores: eu não votei em Dilma, mas um dia já votei no PT. Agora, que venham as pedradas do outro lado, como já as tomei quando traduzi o livro de Thomas Piketty!

 

Há alguns dias você escreveu sobre os “vitupérios internáuticos” que tem recebido por causa do livro. Por que nos anos Dilma o Brasil parece ter passado por um processo apressado de polarização? 

Vemos isso por toda parte. Aqui nos Estados Unidos os vitupérios internáuticos proliferam com a campanha sórdida de Donald Trump. Já fui atacada aqui por apoiar a candidata democrata. Na verdade, já fui atacada por achar Obama um exemplo de líder e de ser humano em um mundo que carece de gente extraordinária. Incomodo-me muito com a facilidade que algumas pessoas têm de atacar as outras sem conhecê-las, sem saber de seu histórico, do que as fez formar certas opiniões. Eu, por exemplo, acredito que o Estado tem um papel a cumprir, mas não pode querer tomar conta de tudo, como fez o governo Dilma. Ao mesmo tempo, também defendo políticas sociais que ajudem a quebrar o ciclo nefando da desigualdade de renda.

Acho que no Brasil, como no mundo, perdemos a capacidade de enxergar o que há de bom naqueles que pensam diferente de nós. Em minhas redes, converso com pessoas que acham que houve um golpe no Brasil, que preferem lembrar-se do Lula que moveu esperanças, ao mesmo tempo que falo com pessoas que vão votar em Trump porque acham Hillary Clinton muito pior. Hoje, esse tipo de postura, a busca por um meio-termo, ganhou conotação para lá de negativa. Trata-se do tal do “isentão”. É triste.

Ninguém cresce intelectualmente sem trocar ideias, refugiando-se em suas tribos. O mundo está tribal, o Brasil não é exceção.

 

Como se deu o seu processo de apuração e escrita? No meio dele você se mudou para Washington. Esse afastamento do Brasil no auge do drama ajudou a olhar a situação mais friamente?  

O livro cobre toda a era Dilma, de 2011 até o impeachment, que chamei de “impeachment de coalizão” pela forma inusitada que tomou. Portanto, vivi a era Dilma quase na sua totalidade. Saí do Brasil em meados de 2014, antes das eleições, quando já havia começado a escrever o livro. Por um momento, em 2015, quase desisti de escrevê-lo, tão profundamente perturbada estava com os acontecimentos e com as pedras que as pessoas atiravam umas nas outras. Mas já tinha dedicado tanto tempo a ele que acabei decidindo seguir em frente depois de uma interrupção de quase um ano. A distância ajudou a escrever sobre o desfecho da era Dilma com olhar mais clínico, menos movido pelas emoções do momento. Confesso que senti tristeza quando Dilma foi reeleita, pois já estava claro para mim que a economia acabaria mal. Mas também confesso ter sentido desalento no seu afastamento definitivo. O trauma e as feridas são muitas para essa nossa democracia ainda tão jovem.

 

Uma das pimentas sobre a derrocada econômica do governo Dilma é o fato de ela própria ser economista. Essa aparente contradição a espanta?  

Não. A Economia com “E” maiúsculo não é uma ciência exata. Às vezes me pergunto se é mesmo ciência, se meu PhD vale alguma coisa. Crises deveriam tornar os economistas mais humildes, capazes de enxergar as limitações de seus modelos. Alguns, como eu, estão passando por um certo tipo de crise existencial, sobretudo depois de 2008. Outros seguem a insistir que tudo o que aprendemos é imutável, que há regras que, se forem descumpridas, criarão problemas. Até certo ponto isso é verdade, mas só até certo ponto. A economia é analítica, rigorosa, possuiu instrumental matemático e quantitativo valioso. Contudo, é, antes de mais nada, ciência social, sujeita a subjetividades e contradições. A base da economia, como de qualquer ciência social, somos nós, as pessoas. Nós, as pessoas, temos viés, somos por vezes irracionais, nos deixamos levar por emoções e instintos equivocados. A economia tal qual é ensinada hoje perdeu essa essência humanista. Por todas essas razões, acho perfeitamente razoável que Dilma economista pense completamente diferente da Monica economista, ou nem tanto assim.

 

Lá fora, existe uma tradição de livros de economia voltados para o público em geral, consolidada por autores como Milton Friedman, Paul Krugman, Joseph Stiglitz e, mais recentemente, o fenômeno Thomas Piketty. Por que o país de economistas de texto tão brilhante como o de um Celso Furtado ainda publica tão pouco sobre o assunto para leigos? 

Não sei, é uma lacuna terrível, porque ajuda a enraizar percepções equivocadas sobre a profissão, sobre os economistas. Os autores americanos que você citou foram ou são todos vencedores do Nobel de Economia (que não é Nobel de verdade). Talvez isso tenha lhes dado o aval pessoal e a envergadura para tratar da economia como ela é, fugindo do excesso de pirotecnia que hoje predomina na profissão. É um pouco assim: como todos têm o selo de grandes acadêmicos, podem descer do pedestal. O erro é achar que existe pedestal. Não são muitos os que não enxergam pedestal algum. Eu jamais o vi, mas sou mulher numa profissão predominantemente masculina, o que ajuda, talvez, a ver a economia como ela é.


>> Leia um trecho de Como matar a borboleta-zul

 

*Rennan da Rocha é jornalista.

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Comentários

2 Respostas para “A economista Monica de Bolle analisa o mergulho brasileiro na crise

  1. O livro de Mônica é excelente. Leitura fluida, texto inteligente e educativo na melhor expressão da palavra. É incrível a capacidade de Monica usar associações para facilitar a visualização da aprendizagem proposta ao leitor.

  2. Livro excelente e autora brilhante. Escrever com tanta suavidade e leveza sobre assunto tão denso e complexo, como é o caso de economia, é somente para quem tem a nobreza de espírito da Mônica de Bolle. Leitura prazerosa que muito recomendo.

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