Entrevistas

Tudo em Família

24 / agosto / 2016

Em entrevista ao blog, Tatiana de Rosnay, autora do best-seller A chave de Sarah e do lançamento A outra história, discute o perigo dos segredos familiares, bloqueio criativo na era digital e defende uma literatura livre de rótulos.

Por João Lourenço*

tatiana_blogTatiana de Rosnay (Foto: Charlotte Jolly de Rosnay)

Durma mais, leia o jornal, caminhe na natureza, marque um jantar com os amigos, converse com pessoas criativas, assista a uma palestra do TED Talks — e tente novamente. Essas são algumas dicas que aparecem no Google para quem procura meios para combater o bloqueio criativo. Mas, no caso do jovem Nicolas Duhamel, mudar de cenário foi a melhor saída para lutar contra o mal que atormenta escritores.

Em busca de inspiração, ele se refugia, acompanhado da namorada, em um resort de luxo na costa da Toscana, mas nem o ambiente exclusivo e paradisíaco é capaz de interromper a procrastinação do autor. Após o sucesso internacional de seu livro de estreia, O envelope — que se transformou em filme com direito a indicação ao Oscar, Nicolas passa horas monitorando o tráfego de suas redes sociais.

Para vencer o bloqueio criativo e encontrar inspiração para o próximo romance, o jovem escritor precisa enfrentar um passado assombroso e lidar com um futuro assustador. Além de alto e bonito, Nicolas é o protagonista de A outra história, novo romance de Tatiana de Rosnay. “Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro. Ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Mas debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático que está prestes a enfrentar novos desafios”, conta a autora.

Às vezes a ficção imita a vida real. Quando se trata das conveniências da fama, Tatiana de Rosnay também enfrentou situação parecida com a de Nicolas. Em 2007, ela chegou à lista de best-sellers internacionais com a publicação de A chave de Sarah, romance que revisita a participação e o papel da França na Segunda Guerra Mundial. O livro vendeu mais de 5 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 30 idiomas; ganhou adaptação cinematográfica, em 2010, tendo como estrela a atriz Kristin Scott Thomas. Em seguida, Tatiana entrou para a lista dos 10 autores mais importantes de ficção na Europa, ao lado de nomes como Dan Brown, Stephenie Meyer e Stieg Larsson. “Devo admitir que a experiência de Nicolas com a fama e suas desvantagens é muito parecida com a minha. A diferença é que não sou tão vaidosa como ele, claro. Meu conselho para os escritores: mantenham uma distância saudável da fama!”

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Além de abordar importantes questões relacionadas à fama, à procrastinação e ao processo criativo na era digital, A outra história também é um livro sobre como lidamos com os segredos de família e seus mistérios. A trama é impulsionada por memórias e flashbacks de Nicolas. Certas reviravoltas, em um primeiro instante, parecem óbvias, mas Tatiana apresenta uma maneira inteligente de manter o leitor interessado no curso da história, mesmo quando o protagonista não é uma pessoa fácil de simpatizar. “Segredos de família são incrivelmente românticos e inspiradores. No entanto, sei do sofrimento e da dor que segredos de longa data podem causar quando são finalmente revelados. A outra história é um livro bastante pessoal, resultado de minhas experiências como escritora.”

Tatiana de Rosnay, que também colabora com jornais e revistas como Elle e Vanity Fair, conversou por e-mail com a Intrínseca.

 

Intrínseca: Certa vez, um escritor me disse que escrevia para a página em branco, que o importante é não pensar em um leitor específico enquanto escreve. E você, para quem escreve?

Tatiana de Rosnay: Comecei a escrever quando tinha 10 anos, pois gostava muito de ler. Eu era um típico rato de biblioteca. Acredito que escrevo porque sinto necessidade de compartilhar uma grande variedade de emoções. Mas não penso em um leitor em particular enquanto escrevo; isso é algo que limita o fluxo narrativo.

 

I: A autora Joyce Carol Oates disse em entrevista à Paris Review que existem algumas desvantagens para mulheres na ficção. Ela disse, por exemplo, que pelo simples fato de ser mulher ela não é levada a sério por alguns críticos do sexo oposto. Porém, Oates fez essa declaração na década de 1970. Para você, a afirmação dela permanece verdadeira?

TR: A declaração de Joyce Carol Oates, autora que admiro, infelizmente ainda é válida. Mulheres e homens são considerados de formas diferentes. Por quê? Nosso trabalho ainda não é levado tão a sério. Algumas vezes, nosso trabalho é rotulado como “ficção feminina”. Particularmente, além do fato de soar pejorativo, eu não entendo o que querem dizer com esse termo. Será que isso significa que para algumas pessoas as mulheres não escrevem com a mesma potência e habilidade que os homens? Não concordo com esse ponto de vista. Não acredito que o trabalho de um escritor deve ser julgado com base em gênero, sexualidade, raça, religião e opiniões políticas.

 

I: A outra história acompanha a trajetória de Nicolas Duhamel, um escritor autocentrado que ganha fama após a publicação de um livro de sucesso. Você também alcançou sucesso internacional com a publicação do romance A chave de Sarah, que, assim como o livro de Nicolas, teve uma adaptação cinematográfica. Como você encarou esse período de fama internacional?

TR: Sou o tipo de escritora que gosta de mudar de estilo a cada novo romance. A outra história é um livro muito diferente dos meus romances anteriores, explorei novos caminhos, novas aventuras. Eu diria que se trata de um livro moderno, porque explora como os escritores escrevem hoje em dia, onde eles vão atrás de inspiração e como essas ideias são utilizadas para criar romances. O livro também é sobre como lidamos com segredos de família e seus mistérios. E, finalmente, é um livro sobre identidade, como podemos forjar a nossa identidade quando estamos on-line.

Não escrevo sobre mim diretamente, mas gosto de começar com algo pessoal e, em seguida, transformo isso na história de outra pessoa, que é exatamente o que aconteceu nesse livro.

 

I: Nicolas sofre de bloqueio criativo, o que costuma ser uma experiência comum para o escritor após um enorme sucesso comercial. A obsessão de Nicolas com redes sociais e dispositivos eletrônicos não o ajudou a superar o bloqueio. Como as novas tecnologias impactam o processo criativo?

TR: Meu herói é um jovem moderno que passa mais tempo na frente de telas do que interagindo com pessoas na vida real. Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro; ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático.

Estou interessada em entender como as redes sociais transformam a vida de um escritor, como podemos ficar presos nessas plataformas, como Facebook e Twitter podem reduzir nossas inspirações. Gastar muito tempo on-line é algo perigoso para muitos escritores. Eu, por exemplo, não posso escrever em um computador que esteja ligado à internet. Preciso desligar meu telefone e me retrair em uma bolha de silêncio. Vivemos em um mundo onde estamos constantemente ligados a nossos celulares e nossas telas e, às vezes, nós nem sequer conversamos uns com os outros.

image1Tatiana de Rosnay e a atriz Julia Roberts, que participará da adaptação de Extraordinário para os cinemas  (Foto: Alexi Lubomirski )

I: Você tem uma presença forte nas redes sociais. Qual a importância dessas plataformas digitais para você?

TR: Sim, sou uma grande fã das redes sociais e meus leitores sabem disso! Mas, ao contrário do Nicolas, que desperdiça muito tempo na internet, aprendi a ter cautela. A minha rede social favorita é o Instagram. Às vezes, imagens falam muito mais do que palavras!

 

I: Você pode compartilhar um pouco do seu processo criativo? 

TR: Escrevo ficção desde os 10 anos, então posso dizer que escrita é parte da minha vida. Trabalho toda manhã e, às vezes, também escrevo no fim da tarde. Edito a mim mesma sem piedade. Geralmente, tudo surge com um esboço, mas na hora de realmente sentar para escrever um livro outras ideias aparecem e, então, me permito certa liberdade para fugir um pouco do esboço inicial. Descrevi todo esse processo em A outra história, o tema principal do livro é sobre essa exploração do processo de escrita e como isso se diferencia de escritor para escritor. Não sofro de bloqueio criativo na hora de escrever. Concordo com o que o Stephen King diz: “O momento mais assustador é sempre pouco antes de você começar [a escrever]. Depois disso, as coisas só podem melhorar.”

>> Leia um trecho de A outra história

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

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