Pedro Gabriel

Uma casa sem quintal não sabe o que é poesia

7 / junho / 2016

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Um quintal, aos olhos do dicionário, pode ser um pequeno terreno com horta, um jardim ou um pátio acoplado a uma moradia. Um quintal, aos meus olhos, é onde a casa faz poesia. Quando todos os habitantes se recolhem para sonhar, ela desperta para sentir, escrever, falar. As paredes não têm só ouvidos: elas têm alma, e boca, e mãos. E dessa alma nascem todas as palavras que precisam ser ditas; e dessa boca ecoam todas as vozes dos nossos silêncios; e dessas mãos surgem os versos mais bonitos e necessários para redesenhar nossas lembranças.

A casa é a primeira moradora de qualquer casa. Ela conhece como ninguém a vida de cada inquilino que passou por ela. Alguns ficaram para sempre. Outros, apenas por uma noite — ou menos. Por ser concreta demais, não consegue expressar seus sentimentos mais profundos. Acusada de ser fria e vazia, transferiu toda a sua delicadeza para os fundos. Para se proteger, ela escondeu toda a sua poesia no quintal. Desde aquele dia, ele se apossou de sua ternura e passou a ser o responsável por compor o que ela sente. Ele sabe quando ela tem vontade de chorar. Ele sabe quando ela sente desejo por sorrir. A sensibilidade de uma casa depende do seu quintal. 

Quando as pessoas perguntam quantas casas existem na minha rua, no fundo, querem saber quantos quintais existem ali. No fundo, querem descobrir quantos poemas existem ali. Uma rua com mais de trinta casas, por exemplo, é uma coletânea de poesia. Uma casa isolada é um poema triste. Uma casa sem quintal tem a métrica de uma casa — logicamente —, mas é uma casa que não teve a chance de ser poesia. Já um apartamento é uma casa que se mudou, que cresceu para cima e nunca mais pôs seus pés de cimento na infância. Um apartamento é um verso que vive de saudade. Eles tentam nos enganar e nos fazem até acreditar que o play é uma espécie quintal moderno, como se ali pudéssemos encontrar um vestígio de delicadeza, um pedacinho de candura, um restinho do que fomos quando éramos poesia. Bobagem. Play é autoajuda, é alegria que se esquece rápido.

Tenho certeza de que Manoel de Barros fazia poesia no quintal. Sorte a dele de ter apenas o Pantanal inteiro como jardim. Dizem que foi o Pantanal que escolheu nascer em volta do Manoel, não o contrário. As plantas mais raras começaram a brotar das sementes da sua solidão. Suas mãos, então, pintaram as primeiras manchas das onças. Seus pés ensinaram os jacarés a nadar. Suas asas criaram raízes no chão de nuvem. Ele voa com os versos, pousa num rochedo, descansa ao lado de um pequeno tamanduá. Só ele sabe que lágrima de crocodilo é sincera. Cada página da poesia do Manoel é uma folha que se despede do nosso quintal. Que tal a gente procurar de novo aquele nosso quintal interior? 

 Volto para meu quintal. Meu vulto agora é de menino. A roupa molhada ainda espera o vento no varal. A bermuda parece balançar com perninhas invisíveis. A camisa escura — que claramente já não me veste mais — parece querer me abraçar e dizer: “Ei, menino, vamos correr? Vamos brincar novamente de ser infância?” Se eu tivesse um lenço, choraria. Choro. A família não para de crescer. Aos domingos não cabemos mais na cozinha, por isso põe-se a mesa no quintal. As meninas pulam amarelinha. Os rapazes rodam pião. Os passarinhos fazem a festa quando cai uma migalha de pão. O chão reflete o galho da árvore maior. É a mão do poeta alimentando a liberdade. Sou livre? 

  Toda criança quando cresce deveria virar quintal.

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