Entrevistas

O brilho de escrever poesia em guardanapos

29 / junho / 2016

Por Pedro Martins*

Artigo publicado originalmente no jornal The Guardian

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O poeta brasileiro Pedro Gabriel começou a escrever poemas em guardanapos quando estava sem papel. Agora, após dois livros e milhões de seguidores on-line, seus desenhos deslumbrantes estão fadados ao reconhecimento internacional, escreve Pedro Martins, repórter do The Guardian.

Pedro está sempre com a cabeça nas nuvens, fervilhando de ideias numa mistura de palavras que, pelas peripécias do destino, o levou ao estrelato, e seus livros tiveram mais de 200 mil cópias vendidas. Num país onde o hábito da leitura ainda não é tão forte, conseguir ser publicado é algo extremamente difícil.

“Nunca pensei que isso fosse se tornar minha fonte de renda. Hoje em dia, posso dizer que vivo de poesia e de ilustração, mas três anos atrás era impossível pensar nisso”, conta o autor de 32 anos.

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Naturalmente, o que todos se perguntam é de onde veio essa ideia.

“O primeiro guardanapo surgiu quando eu estava voltando do trabalho, certo dia, e tinha esquecido meu caderno de anotações em casa. Você pode ficar parado no trânsito, mas suas ideias não. Eu estava com muita vontade de escrever. Quando desci do ônibus, resolvi ir ao Café Lamas, um tradicional bar no Rio de Janeiro que costumava visitar, e naquele momento a única plataforma que eu tinha para me expressar era a pilha de guardanapos à frente. Então, de uma forma muito natural, comecei a desenhar e me encantei, passei a gostar de me manifestar naqueles pedacinhos de papel tão frágeis.”

Depois disso, Pedro fotografou seu trabalho e criou uma página no Facebook para mostrar sua ideia ao grande público, batizando-a de “Eu me chamo Antônio”. Mas por que Antônio? Por causa de sua timidez.

“Costumo dizer que ele sou eu com um pouco mais de coragem para me expressar. Meu nome é Pedro Antônio Gabriel, mas ninguém me chama de Antônio. Então, ao criar esse alter ego, encontrei uma forma de manter minha identidade sem assinar como Pedro Gabriel.”

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Atualmente, não há mais dúvidas de que cada vez mais a internet se mostra um meio de comunicação infinito. Nada passa despercebido pelos internautas, e não seria diferente com Antônio. Seis meses após o primeiro guardanapo, a página começou a atrair um imenso tráfego de usuários, o que chamou a atenção da Intrínseca, que propôs a Pedro a ideia de levar seu trabalho também para a mídia off-line em forma de livro. O resultado são dois best-sellers no Brasil: Eu me chamo Antônio e Segundo — Eu me chamo Antônio. Um terceiro está a caminho.

“Hoje em dia, tenho quase 1 milhão de seguidores on-line, mas não atribuo meu sucesso a números, e sim ao conteúdo que apresento. Independentemente do número de seguidores, desde o primeiro guardanapo que postei mantive um conceito do Antônio em mente. Os leitores sabem que há alguém como eles por trás de tudo aquilo. Obviamente, esse sucesso também está atrelado ao fato de que escrevo sobre sentimentos universais — os mais diversos tipos de amor, saudade, liberdade etc. —, mas de uma forma diferente, usando um jogo de palavras. É como se eu tentasse retratar um pouco da minha própria vida também”, explica o autor.

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Além de inusitado, o processo de criação do autor também é influenciado por uma pluralidade linguística de berço. Filho de brasileira com suíço e nascido no Chade, ex-colônia da França na África, Pedro cresceu falando francês, mas sempre conviveu numa casa onde “a língua em que nos comunicávamos não era a língua de ninguém”. Aos treze anos, quando veio para o Brasil, sua inexperiência com o português o atiçou a prestar atenção à sonoridade, aos processos de formação e às grafias das palavras.

“Só fui perceber a importância desse período que vivi fora do Brasil recentemente, quando encontrei minha voz por meio dos guardanapos. Além da linguagem em si, toda a riqueza com que convivi nesses doze anos na África foram fundamentais para eu desenhar minha poesia; tudo é um reflexo do que vivi em algum momento da vida.”

O interessante é que, mesmo anos após seu primeiro guardanapo, Antônio ainda tem uma necessidade peculiar ao criar: “Já perdi as contas de quantos guardanapos criei até hoje, mas foram mais de 2 mil. Todos desenhados no Café Lamas. Costumo dizer que meu escritório é o bar, um privilégio para poucos.”

E será que, após milhares de guardanapos, Antônio ainda se surpreende?

“Quando a gente se habitua a alguma coisa, parece que ela começa a perder um pouco do brilho. Por incrível que pareça, ainda sinto muito prazer em fazê-los; ainda me surpreendo com o que tenho a dizer. Claro que não vou me forçar a criar guardanapos novos somente para alimentar o grande público que me acompanha; sempre vou criar em função das minhas emoções. Antônio e as manifestações em guardanapos vão durar enquanto eu sentir verdade nisso. Óbvio que não produzo a mesma quantidade dos primeiros meses, mas sempre que sento no Lamas novas ideias vêm à minha cabeça e saio de lá com uma ressaca de poesia.”

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“Falo com um público eclético. Em palestras que ministro, quando os alunos conseguem enxergar que poesia pode ser feita com um simples ‘jogo de palavras’, começam a enxergá-la como algo interessante. Eu me chamo Antônio também serviu de porta para os mais jovens conhecerem a poesia consagrada. Pelas minhas redes sociais, muitos conheceram Drummond, Manuel de Barros, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes e outros fantásticos poetas mestres que me inspiram no dia a dia.”

Para todo escritor, o novo e o desafiador deve ser sempre encorajado. Quando perguntado se algum dia pretende dizer adeus a Antônio, Pedro deixou claro que pretende, sim, aventurar-se em outros mundos, mas que ainda tem muitas ideias inovadoras para Antônio apresentar:

“O primeiro livro é inteiro feito de guardanapos fotografados, e nele fica bem claro que Antônio é um boêmio. Há até uma linguagem de bar, alguns trocadilhos. No segundo, já existem alguns parágrafos isolados, tímidos, e algumas ilustrações, como se Antônio tivesse saído dos bares e entrado no mundo dos sonhos. No terceiro, haverá um casamento muito forte entre o guardanapo e a prosa, com textos maiores. Antônio é um personagem de um romance que está sendo escrito e vivido. Minha ideia é que esses três livros formem uma espécie de trilogia de um pré-romance, mantendo o lado visual, claro, que é minha marca. Talvez uma mistura de graphic novel com prosa”, continua o autor.

Os guardanapos acima fotografados para esta matéria foram retirados dos dois livros já publicados por Pedro, e isso não foi um processo fácil. Não basta escolher um guardanapo qualquer e traduzi-lo; é necessário escolhê-los a dedo, considerando quais são passíveis de tradução, para depois traduzi-los e redesenhá-los, reinterpretá-los.

“Para uma publicação no exterior, eu faria um apanhado de guardanapos dos primeiros livros, como uma antologia, mesclando o que mais gostei dos dois, escolhendo os que são traduzíveis, e adicionaria conteúdos inéditos. Assim acredito que conseguiria entregar um trabalho bacana aos leitores de outros países.”

Para encerrar uma longa conversa por Skype na qual o relógio parecia estar parado, decidi fazer algumas perguntas rápidas que revelam muito sobre uma pessoa:

Um sonho?
Que as pessoas leiam mais e valorizem a literatura, pois aqueles que leem conhecem o infinito.

Um medo?
Que eu perca minha inspiração, a sensibilidade mais bonita que a gente tem.

Em dez anos eu…
Quero ter pelo menos um romance do Antônio publicado e estar mais estabelecido no mercado editorial, com livros fora do Brasil também.

 

Pedro Martins é repórter do jornal britânico The Guardian e webmaster do site Potterish.com.
Redes sociais: Twitter (@ImPedroMartins), Instagram (@ImPedroMartins), Facebook (/ImPedroMartins).

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