Pedro Gabriel

A poesia pode andar de chinelo

21 / junho / 2016

21.06 colunapedrogabriel

Quando a caneta encosta na página em branco, não solta somente uma tinta preta; também liberta nossa sensibilidade, deixa fluir nossa história. O que escorre do nanquim a gente não escolhe — nunquinha! O que sentimos simplesmente vem, sem pedir licença (poética?).

Na tinta há um tanto do que lemos. Na tinta há um tanto do que ouvimos. Na tinta há um tanto do que amamos, do que silenciamos. Na tinta há um tanto de abandono, desespero, amparo. A escrita é uma espécie de disfarce revelador. Ela materializa o que tentamos esconder constantemente. A escrita é uma espécie de escuridão transparente: esclarece o que não temos coragem de acordar. Se por um lado nos preserva com nomes de personagens e histórias que supostamente brotaram da imaginação, por outro abre nossa gaveta mais íntima sem que a gente perceba. Ninguém inventa histórias. O que se inventam são mecanismos, processos e formas de contar o que já existe, adormecido, dentro de nós. A imaginação nada mais é do que um despertador de realidades. Cada um sabe a hora que prefere despertar.

Sempre fui mais apegado aos autores e às autoras que descomplicam a poesia. Posso citar Arnaldo Antunes, Mario Quintana, Manoel de Barros, Marcelino Freire. Gosto dos que falam de profundidade com uma aparente superficialidade. Não que sejam de fácil leitura, mas que não tenham a prepotência no discurso, o nariz em pé na palavra ou salto alto nas mãos.

O estereótipo do poeta tradicional nunca me agradou: cabelos grisalhos, óculos redondos, paletó bege com cotoveleira de couro, sofrimento, solidão, e mais sofrimento, e mais solidão. O estereótipo do poeta tradicional parece não combinar com o verão. Aos olhos do mundo, precisa ser inverno: ver neve onde poderia muito bem haver areia. O estereótipo do poeta tradicional parece não ornar com o sol, o calor, o suor, a bermuda. Besteira. Para que tanta pose para escrever poesia? A poesia também pode — e deve — usar chinelo de vez em quando. (Só não se esqueça de cortar as unhas dos pés).

Leia mais Pedro Gabriel

[O ESBOÇO DO INFINITO]

[O ESBOÇO DO INFINITO]

[ENTRE SUSTOS E FASCÍNIOS]

[ENTRE SUSTOS E FASCÍNIOS]

[SOM PAULO]

[SOM PAULO]

Uma estrada chamada 2017

Uma estrada chamada 2017

Comentários

Uma resposta para “A poesia pode andar de chinelo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *