Filipe Vilicic

A maldade que se prolifera pelo Facebook

24 / junho / 2016

Three-Wise-Monkeys-in-the-Internet-AgeThe New Yorker

“A natureza do homem é má; o que há de bom em nós é artificial”, já dizia a máxima chinesa, tradicionalmente atribuída ao filósofo confucionista Xunzi, que viveu no século III a.C. Ao olhar o estado atual das mais modernas redes sociais — o Facebook, o Instagram, o Twitter, o YouTube e o WhatsApp —, tal constatação se prova viva e forte. O mal parece pulsar nesses ambientes virtuais, como evidencia a repercussão de algumas trágicas notícias recentes. Vide o caso do tão falado — e com justiça, pois a ação de repúdio tem de ser colossal nesta era digital — estupro coletivo sofrido por uma adolescente no Rio de Janeiro, que fica para a história como exemplo indiscutível da crueldade humana.

Houve, sim, comoção em torno dele. Contudo, isso também foi acompanhado de memes, piadas, comentários machistas… Uma das tiradas preconceituosas, por exemplo, surgiu de uma imagem que se tornou viral: a fotografia da jovem munida de um fuzil, no ambiente do quadro “Se vira nos 30”, do Domingão do Faustão.

À época do ocorrido, ainda pipocavam nas timelines comentários daqueles “opinadores” de Facebook — que nada sabem, nada leem, mas que acreditam ter a opinião certeira sobre tudo — tentando culpar a vítima pela violência que ela mesma sofreu. Ela teria sido alvo pelo jeito que se veste, por querer dançar de madrugada numa festa, por curtir umas drogas e por aí vai.

Acho inusitado, no mínimo, o fato de que muitos que comentaram, que conheço de outros carnavais, já usaram suas doses ou ainda abusam delas. Mesmo assim, julgam a garota, menor de idade, pouco instruída, de origem pobre, como culpada. Quanta hipocrisia!

Mais uma vez: reflexo da maldade humana. Nada mais. Qualquer outro blá-blá-blá para justificar tais atitudes não passa de desculpa, é do mal.

O lado mais sujo do ser humano se espalha pela internet. Basta ver a forma como terroristas abusam de redes sociais e apps. de mensagens, como o WhatsApp e o Telegram, para divulgar seus pensamentos insanos e garimpar voluntários a homem bomba, atiradores suicidas, soldados de uma visão deturbada da religião — recentemente, escrevi este texto sobre isso.

Frente ao maior massacre executado por um atirador nos Estados Unidos, no último dia 12, a uma boate LGBT em Orlando, o presidente Barack Obama abordou o perigo do mal na internet: “Um dos maiores desafios que temos à frente é esse tipo de propaganda e de perversões do Islã que você vê gerado pela internet […] que motiva indivíduos a tomar ações contra outras pessoas.”

Na reação ao atentado, a maldade provou sua força novamente na timeline do Facebook. O discurso de ódio proliferou, condenando as vítimas, que teriam “pedido” — seguindo o raciocínio deturpado dos vis — para serem assassinadas por terem uma orientação sexual que irrita a muitos. Calma aí! Essa lógica não faz o menor sentido. Sim, não faz para mim nem para os mais sensatos. Contudo, a maldade exibiu mais uma vez seu dom de condenar a vítima, ao invés do algoz. De quebra, ainda exibiu seu preconceito, peça elementar da maldade, ao condenar ao paredão aqueles que gostam de aproveitar os prazeres da vida de forma distinta da maioria. Afinal, por que se irritar com a atitude do outro, que em nada afeta sua vida, amigo?

Para mim, só os que não conseguem controlar o próprio lado vil — sobretudo na intimidade — acabam por reprovar prazeres e comportamentos totalmente saudáveis do outro. É a figura do lobo mau se incomodando com a felicidade dos porquinhos, da Chapeuzinho Vermelho, e querendo se alimentar de todos.

Colegas que denunciaram ao Facebook os perfis que espalhavam essas atitudes raivosas, preconceituosas e homofóbicas relataram que não houve retorno do site, que parece não ver problema nesses posicionamentos e, portanto, se recusa a derrubar posts ou perfis relacionados ao discurso de ódio.

No mundo virtual, tudo indica que já não assombra deparar com casos noticiados de pedofilia, vazamentos de fotos privadas de mulheres nuas, traficantes de drogas e armas que utilizam sites e apps. populares para seus atos ilícitos (confira aqui um texto sobre isso). Por que nos espantaríamos? Afinal, como escreveu Shakespeare em sua peça A tempestade: “O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.” Por que nos assustaríamos com a natureza vil do homem, se ela sempre existiu? Mesmo quando escancarada no Facebook, ela não nos choca mais. Mesmo quando exposta por um amiguinho no Instagram, parece se inserir no contexto do “mas o mundo é assim, cara”. Mesmo quando chega via WhatsApp, é tratada só como uma coisa qualquer.

Não me engano: também tenho o mal (inclusive, o virtual) dentro de mim. Concordo com Xunzi: isso é “natural”. Porém, nesse ponto, prefiro construir melhor meu lado “artificial” e desviar do restante. No fim, há muito que o homem deixou de ser apenas um ser natural.

 

Querem saber mais de meu trabalho? Convido-os a me seguir no Facebook (@fvilicic) e no Twitter (@FilipeVilicic).

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