Leticia Wierzchowski

Sobre o amor

19 / maio / 2016

Recentemente, fui curadora da TAG — uma espécie de Clube do Livro mais moderno e orgânico, que vale conhecer — e indiquei como título do mês o livro Stoner, do autor americano John Williams.

Como todo bom livro, Stoner ainda segue retumbando em mim. Volta e meia penso nele, e foi assim que preparei meu papo com a turma da TAG, em que os leitores debatem a leitura do mês. Entre dezenas de belos momentos, talvez ancorada na minha própria vida e nas suas questões, escolhi ler um trecho em voz alta que, acho eu, é de uma sabedoria absoluta. Fala do amor, essa chama, esse refúgio, esse sonho com que todos sonhamos e que, pela dificuldade de ser levado adiante, acaba por ser uma das grandes questões humanas.

Disse o narrador: “Na sua mocidade, Stoner imaginara o amor como um estado absoluto do ser ao qual uma pessoa, se tivesse sorte, podia aceder um dia; na idade adulta, decidira que era o paraíso de uma falsa religião, que uma pessoa devia encarar como uma divertida incredulidade, um suave desprezo familiar e uma nostalgia embaraçada. Agora, na meia-idade, começava a perceber que não era nem um estado de graça nem uma ilusão; via-o como um ato humano de transformação, uma condição que era inventada e alterada de momento para momento, de dia para dia, por meio da vontade, da inteligência e do coração.”

Não existe amor sem vontade, sem dedicação e sem o esforço contínuo da vontade, da inteligência e do coração. Quando um desses três pilares esmorece, sofre o amor — sofremos todos nós, sujeitos conjugadores desse amor.

Copiei esse trecho da prosa de John Williams e colei no meu armário para que eu possa lê-lo todos os dias e nunca mais esquecê-lo. Stoner não é um livro sobre o amor. Talvez seja um pouco sobre a solidão, o contraponto do amor conjugado — embora alguns amores possam ser bastante solitários também. Stoner, como muitos bons romances, é um livro sobre tudo. Mas esse trecho é um mantra ancorado na maturidade — o amor é um ato humano de transformação. Se isso não for bonito, sinceramente, não entendo nada de beleza.

 

PS: Eu estava em casa numa noite dessas e uma amiga querida lá de Pelotas, que aqui no Sul preferimos chamar afetuosamente de Satolep, me manda por WhatsApp um trecho de Stoner que a fez se lembrar de mim. Bem, vocês já sabem qual é… Afinal, toda amizade é mesmo um tipo de amor muito especial.

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Comentários

2 Respostas para “Sobre o amor

  1. Um livro que surpreende e emociona pela sensibilidade de transformar o cotidiano de uma vida de trabalho, descobertas, mudanças e novas possibilidades em uma bela poesia de vida!

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