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Temporada de acidentes

14 / março / 2016

Por Moïra Fowley-Doyle*

TemporadaDeAcidentes

Comecei a escrever Temporada de acidentes em novembro, no mês seguinte àquele em que a história se passa. Terminei o esboço inicial em um mês e meio, numa torrente de palavras, e durante esse tempo fiquei estranhamente cautelosa, talvez por escrever uma história na mesma época do ano em que ela ocorre. Começar foi fácil. Escrevi tanto sobre acidentes que peguei medo de facas afiadas e passei a tomar mais cuidado ao atravessar a rua ou descer escadas. Eu me imaginava torcendo o tornozelo e quebrando ossos.

Sou meio propensa a sofrer acidentes, em parte porque não presto atenção aonde vou e em parte porque gosto de aventuras. Já quebrei cinco ossos desde os dezessete anos, mas não foi por isso que escrevi este livro.

Eu sempre escrevi — diários, poesias, novelas, partes de romances e romances que não deram certo —, mas, exceto a poesia, escrevia basicamente para mim mesma. Um desses romances que não deram certo foi um que escrevi aos dezesseis anos sobre uma garota misteriosa que aparecia de vez em quando na vida da protagonista e armava ratoeiras, pendurava papel mata-moscas e perambulava pela floresta com uma rede de caçar borboleta. No começo de novembro, eu me sentei para contar essa história, mas as primeiras palavras que saíram foram: “É a temporada de acidentes: acontece todos os anos na mesma época.” Então decidi ir em frente com isso, e, conforme avançava, ia usando trechos e elementos do livro que tinha escrito aos dezesseis. Ficou claro que meus ossos quebrados estavam se debatendo no meu inconsciente; isso e meu amor persistente pela ideia da existência de um espírito de luz que cuida de garotas imprudentes. Isso e a vontade de traduzir em livro o surreal e o cênico, a magia e a mixórdia, além de todas as outras aliterações que marcam a adolescência; isso e a vontade de ambientá-lo na Irlanda.

Temporada de acidentes conta a história de Cara, uma adolescente de dezessete anos, e sua família desajustada, que, durante um mês do ano, de uma hora para outra e sem explicação plausível, ficam extremamente propensas a acidentes. Alguns meses de outubro são repletos de cortes, pancadas e machucados, outros têm infortúnios mais sérios, mas nos piores anos o avô, o tio e o pai de Cara morreram. Com o cabelo pintado de roxo, a mãe de Cara acha que a temporada de acidentes é uma maldição de família, mas a filha mais velha, Alice, tem certeza de que tudo não passa de coincidência. No momento, Cara está mais preocupada com o fato de Elsie — uma garota esquisita e sem amigos com quem ela estuda e de quem foi próxima quando criança — aparecer em todas as suas fotografias, mesmo quando não havia a menor possibilidade de ela estar por perto no momento em que foi tirada. Mas, quando Cara vai confrontá-la, não consegue encontrá-la: parece que a garota sumiu. Enquanto os acidentes pioram e o desaparecimento de Elsie se torna cada vez mais preocupante, Cara também tenta controlar sua amizade com a desvairada Bea — que tem ares de bruxa — e seus sentimentos pelo ex-irmão postiço, Sam. Além disso, ela está organizando com os amigos e a irmã uma festa de Halloween caótica bem no último dia da temporada de acidentes numa casa abandonada numa área da cidade mais afastada — e é esse evento que fará os segredos de todo mundo finalmente virem à tona e Cara encontrar as repostas que busca.

Foto autora_facebookA autora Moïra Fowley-Doyle

Eu cresci lendo a magia selvagem e glamorosa de Francesca Lia Block, a magia extraordinariamente comum de David Almond e a magia ocultista de Alice Hoffman, e queria escrever alguma coisa mágico-realista (magicamente realista? Mágico-realística?) que me parecesse tão onírica e selvagem quanto eu era na adolescência — quando às vezes você não consegue dizer o que é real e o que não é, quando tudo é imediato e dramático e quando o amor e a amizade são sentimentos que abraçam o mundo. Eu queria escrever uma história onírica e misteriosa, na qual fantasia e realidade muitas vezes se confundem, e queria que se ambientasse perto da minha casa, porque, se é possível encontrar a magia nas ruas de Los Angeles ou nas praias ventosas do estado do Maine, também dá para encontrá-la numa cidadezinha no condado de Mayo, na Irlanda.

Eu não moro no condado de Mayo — sou de Dublin —, mas passo muito tempo lá com a minha família, numa cidade perto da fronteira com Galway. Um rio atravessa essa cidade, que tem também uma floresta cheia de árvores antigas que estalam, além de um monte de casas abandonadas que servem de inspiração. Comecei com os detalhes na cabeça — ratoeiras e redes de caçar borboleta, um mês de desgraças, um rio atravessando uma cidadezinha, uma casa abandonada — e acrescentei mais elementos conforme avançava na história: uma cabine de segredos em que os segredos são datilografados numa máquina de escrever e pendurados num varal, um amor proibido, um baile de máscaras, cigarros manchados de batom vermelho e muito uísque.

Liguei os detalhes, escrevi a história e tomei cuidado quando atravessava a rua. Um dia, durante os vários meses que passei editando o livro para enviá-lo à minha editora, eu escorreguei (veja você: no palco, no meio de uma performance do The Rocky Horror Picture Show) e quebrei o pulso. Com o braço esquerdo imobilizado, tive que terminar o livro com uma só mão. Escrevi o título no gesso, com uma caneta permanente (para a enorme diversão das enfermeiras da emergência), e me dei conta de uma profunda empatia pelos meus personagens, além de ter descoberto tudo o que é possível carregar numa tipoia.

Atualmente estou escrevendo um livro sobre coisas perdidas, ambientado numa floresta semelhante à de Temporada de acidentes. Estou quase ficando preocupada com o que em breve pode começar a sumir.

Leia um trecho de Temporada de acidentes

Moïra Fowley-Doyle é metade francesa, metade irlandesa e mora Dublin com o marido, duas filhas pequenas e um gato já velhinho. Sua metade francesa gosta de vinho tinto e livros sombrios, daqueles em que todos morrem. Já a metade irlandesa gosta de chá e finais felizes. Temporada de acidentes é seu romance de estreia. Esse artigo foi originalmente publicado aqui. 

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