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Manual prático de formação de super-heróis

22 / março / 2016

Por Jeff Oliveira*

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Quando a Intrínseca me convidou para ler Simon vs. a agenda Homo Sapiens, não imaginei que as sagas psicológicas dos personagens remeteriam a tantas cicatrizes da minha adolescência. Além de divertido, o livro gera uma bomba de identificação em nossas mentes porque expõe questões essenciais com muita delicadeza e respeito.

Assim como Simon e seus amigos, agora convido todos a embarcarem nessa viagem rumo às intimidades do meu coração aos dezessete anos:

 

[Lembrança #1]

Fui um adolescente dos anos 2000. Isso basicamente significava internet lenta, uma coisa parecida com WhatsApp que chamávamos de ICQ, emocore por toda parte e confusão sobre sexualidade.

Meu círculo de amigos se resumia ao grupo de meninas que fazia trabalhos de sociologia comigo e alguns meninos que conheci no Chat UOL 18-20. Obviamente ninguém tinha nem perto de dezoito anos naquele site, mas entrar na sala 16-18 soava como suicídio social na época.

Jeff_Weasley_18 entra na sala.

Conheci o “ImNotOkay_RJ.20” — que, em errata ao nickname, tinha dezessete e se chamava Raphael — num domingo à tarde. Foram bons papos listando motivos para o Frodo ser o personagem mais tapado da Sociedade do Anel, conspirando se o The Used viria ao Brasil naquele ano e reclamando de fórmulas de física que não conseguíamos decorar. Era estranho termos tanta coisa em comum. Em geral os caras do meu colégio achavam tudo que eu fazia “bichice”.

Jeff diz:
Você beijaria o Seth?

Rapha está digitando…
Rapha está digitando…
Rapha está digitando…

 

Rapha diz:
Óbvio.
Ele é foda!
Todo mundo beijaria.
Tu não?

Comecei a ficar obcecado em conversar com o Rapha e, pior, com vontade de ser amigo dele na vida real. Sugeri um encontro para trocarmos cards de Pokémon.

Ele topou.

“No shopping então?”
“Demorô.”
“Vou estar com o uniforme do colégio.”
“Eu também.”

A última coisa que eu queria no mundo era que ele percebesse algum interesse além de amizade. Ele era meu único amigo homem. Não queria arriscar pedindo uma foto. Pedir a foto de um cara na internet era gay demais. Mais gay do que se assumir apaixonado por um personagem masculino de The O.C.

Cheguei suado, coração acelerado. Preferi acreditar que o tambor que rufava no meu peito era causado pelo passo apressado que mantive do portão da escola até ali.

Minutos depois chegou outro menino de uniforme, franja e mochila jeans com costuras de bandas. Nossas diferenças físicas, quase absolutas, seriam compensadas pelo quanto tínhamos em comum intelectualmente. Tinha que ser ele! Meu coração deu uma cambalhota.

Olhei algumas vezes na direção do suposto Rapha, mas não foi recíproco. Era o máximo que podia ser feito. 3G, só em episódios dos Jetsons, SMS era coisa de adulto — lembrava e-mail, que incontestavelmente era coisa de adulto — e ligar nunca foi uma opção, porque, na minha cabeça, pedir o telefone de um cara na internet também transpareceria mais homossexualidade do que desejar desesperadamente beijar o Adam Brody.

O menino foi embora. Não devia ser ele, pensei.
Duas horas esperando e nada.

“Oi.
E aí?
Aconteceu alguma coisa?”

Rapha não respondeu mais no ICQ.

 

[Lembrança #2]

Um dia simplesmente acordei e, plim, aceitei que gostava de meninos.

Não tinha nenhum problema nisso, ué! Foi como se parte do meu cérebro tivesse sido desbloqueada e feito as pazes com a parte que sempre soube que eu era gay.

Não importava mais que os outros meninos me chamassem de “viadinho” por estar lendo Harry Potter e o Cálice de Fogo enquanto eles usavam o tempo vago para jogar futebol. Eu era viado e pequeno. “Viadinho” fazia todo sentido, na verdade. Por fora eu só ignorava os “xingamentos”, mas, por dentro, ria da ironia. Era libertador!

Contei animado para uma prima e recebi um soco no estômago:
“Você precisa contar para a tia.”
Que injusto! Minha irmã nunca precisou de permissão para beijar caras.
Fiquei revoltado e fiz um piercing.

Se fosse para ser repreendido por algo, melhor que fosse algo pelo qual eu me sentisse culpado.

 

[Lembrança #3]

Não é possível que seja ele!

Meu cérebro estava descontrolado tentando achar uma resposta para o que o menino que ficou vinte minutos na porta do shopping me ignorando estava fazendo do outro lado da pista.

Eu só dei azar e isso é uma péssima coincidência.

Outro cara chegou perto dele. Os dois são bonitos. Bem mais bonitos que eu. Cabelos penteados com gel, bochechas rosadas, bocas pequenas. Na verdade, eles são bem parecidos e exatamente o contrário de mim.

Bebi mais para não cair naquela paranoia.
Adoro Britney.
Estava tocando “Overprotected”.
Acabou o beijo.
O outro cara saiu.

Foda-se tudo…

“Raphael?”
“Aham. Por quê?”
“Ih, foi mal. Pensei que fosse um amigo. Vou continuar procurando.”

Cheguei em casa chorando muito, nem sabia exatamente por quê.

Nota importante (sem spoiler, juro): Simon passa exatamente pela mesma situação quando decide sair do armário. Em um mundo ideal ninguém deveria precisar proclamar sua sexualidade aos quatro ventos. Heterossexuais, por exemplo, não saem de armários. Eles simplesmente beijam ou namoram alguém e pronto. Acho que quando falamos em igualdade estamos pedindo isto: para não sermos recebidos com um “MENTIRA QUE VOCÊ É GAY?” em Caps Lock.

***

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Simon vs. a agenda Homo Sapiens me fez revisitar nitidamente essas ocasiões da adolescência e lembrar a matriosca de sentimentos que é ser um menino gay e negro.

Assim que decidimos desbravar nossa sexualidade, libertamos novas questões ainda mais complicadas, como a autoestima debilitada pelos padrões estéticos e a desconstrução do pensamento eurocêntrico de “cara ideal”. Além disso, esbarramos com os mecanismos estruturais do racismo que silenciam e apagam pessoas negras LGBTs.

Durante essa jornada sobre identidade, é constante a sensação de que pertencemos a vários lugares e, ao mesmo tempo, não somos exatamente vistos como iguais em nenhum deles. Existe um desamparo sobre quem está na lacuna entre negros heterossexuais e gays brancos. Ser minoria das minorias é um pouco solitário.

Demorei anos para entender a beleza da minha cor, do meu nariz largo, do meu cabelo crespo e do quanto é normal se apaixonar pelo mesmo sexo. Não foi fácil tentar montar esse quebra-cabeça identitário e ainda decidir para que curso prestar vestibular. A consciência de quem sou foi amadurecendo junto comigo e, por isso, hoje considero que saí do armário duas vezes: uma quando me entendi gay e outra quando me entendi negro de forma plena.

Se Marty McFly me convidasse para um rolê no tempo, eu daria o seguinte conselho para meu eu adolescente:

Ser gay é um superpoder. Ser gay e negro são dois.

Leia um trecho de Simon vs. a agenda Homo Sapiens

 

Jeff Oliveira tem 28 anos, é carioca, publicitário e roteirista. Quando não está escrevendo sobre TV e cinema (ou postando textões no Facebook), grava vídeos em seu canal no Youtube sobre sexualidade e gênero, questões étnicas e direitos humanos. Jeff acredita que papos carinhosos e identificação são atalhos para entrar em corações e transformar diferenças em superpoderes que vão salvar o planeta.

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Comentários

8 Respostas para “Manual prático de formação de super-heróis

  1. Cara! Já tinha ouvido falar sobre esse livro, já tava na minha lista e agora vou correr pra comprar! Adorei o que o Jeff falou sobre o livro e sobre a vida dele, a partir de agora vou acompanhar seu canal no YouTube e sua jornada de super herói! Valeu Intrínseca, melhor editora <3

  2. Parabéns pelo artigo e pelo super-herói que se formou!

  3. Parabéns pela coragem. Bowie sempre deixou claro que sempre poderemos ser heróis. Cada um da sua forma, acho importante saber qual super poder você tem. <3
    Voa passarinho, voa

  4. Eu me apaixonei perdidamente pelo Simon e o Blue. E quando se fala não livro que não devia existir padrões, eu concordo com isso. Parabéns pelo texto e obrigado por dividir conosco a sua história. Bjs!

  5. Eu me apaixonei perdidamente pelo Simon e o Blue. E quando se fala no livro que não devia existir padrões, eu concordo com isso. Parabéns pelo texto e obrigado por dividir conosco a sua história. Bjs!

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