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Sobre quando éramos jovens

15 / outubro / 2015

Por Pablo Miyazawa*

Ilustração de Matt Leunig (http://scrapedknee.com/1986-art-print-zelda-variant/)

Ilustração de Matt Leunig (Fonte)

Na virada da década de 1980 para 1990, jogar videogame era uma atividade típica e exclusiva de crianças e adolescentes. Adultos pouco se aventuravam nessa experiência, mas tinham um papel essencial no processo: comprar o console que as crianças iriam jogar. E, naquele momento específico, a questão era relativamente simples, ainda que de solução complexa: ou você preferia a Nintendo, ou preferia a Sega.

Pelo menos era assim que a situação se definia no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Mas o enfrentamento entre marcas podia ser considerado mais “variado” por esses lados. No caso dos produtos da Sega, a responsabilidade de lançá-los no país era da fábrica de brinquedos Tec Toy, que entre 1989 e 1991 colocou no mercado os consoles Master System e Mega Drive, além do portátil Game Gear. Já a Nintendo só passou a ter um representante definido a partir de 1993 — no caso, a Playtronic, uma joint venture entre a Gradiente e a Estrela. Antes disso, diversos fabricantes de eletrônicos lançaram no Brasil suas versões não oficiais do console homônimo da Nintendo, como a própria Gradiente (rebatizando-o de Phantom System), a Dynacom (Dynavision) e a CCE (Top Game).

Abrindo um parêntese: (Por força do marketing e do apelo dos comerciais de TV, ganhei um Phantom System no Natal de 1989, apesar de o Master System ter mais jogos disponíveis. Em 1991, preferi um Mega Drive a um Super Nintendo, também convencido pelos comerciais. Pelo menos no meu caso, preferi a Nintendo e a Sega — simultaneamente.)

Apesar de intensa e divisora de águas, a guerra dos consoles à brasileira não chegou aos pés daquela que se desenrolou do outro lado do mundo. Nos Estados Unidos, o embate entre as japonesas Nintendo e Sega foi uma intensa batalha de nervos em muitos níveis, de números e campanhas de marketing agressivos a provocações juvenis e mascotes sorridentes. No início dos anos 1990, a Nintendo abraçava quase 90% do mercado norte-americano de videogames. A Sega, cansada de ser a eterna coadjuvante, armou-se com um console mais potente — o Genesis (Mega Drive no resto do mundo) — e com uma poderosa campanha de marketing inédita no segmento. O objetivo era virar o jogo e arrancar da Nintendo a liderança impossível. Deu certo, pelo menos por um curto período de tempo. E essa história rendeu um livro sensacional em 2014, que chega agora ao Brasil.

untitledA guerra dos consoles: Sega, Nintendo e a batalha que definiu uma geração, de Blake J. Harris, não é o que pode se chamar de uma obra isenta, já que é um relato dos fatos sob o ponto de vista dos azarões (o que é algo positivo, visto que livros sobre a trajetória vitoriosa da Nintendo existem aos montes). A Sega tem uma história incrível que merece ser contada, mesmo que hoje a empresa seja mais uma entre as muitas que vivem das glórias do passado e investem cada vez menos em um mercado transformado e imprevisível. Entretanto, há 25 anos, ela foi a protagonista de uma inacreditável saga de Davi e Golias definida por detalhes que geram consequências até hoje. O que A guerra dos consoles deixa claro é que se não fosse por aquela cruzada suicida da Sega contra a Nintendo, a história dos videogames teria uma trajetória completamente diferente.

Mesmo não primando pela imparcialidade, A guerra dos consoles é um marco no jornalismo investigativo sobre videogames (quem lá pensaria que isso pudesse existir um dia?). Duas centenas de testemunhas oculares foram entrevistadas de ambos os lados do conflito, o que deu a Blake J. Harris a tranquilidade para contar uma história que se prova interessante até para quem conhece pouco sobre o assunto. A investigação é séria e a reconstituição histórica é precisa, mas a narrativa só funciona graças à luz humana que o autor joga sobre cada um de seus personagens: entendemos as motivações de cada um, torcemos pelo sucesso deles e ficamos surpresos quando lembramos que aquelas pessoas cheias de defeitos existiram de verdade.

link-externoVídeo: Blake J. Harris explica A guerra dos consoles

Escolher o ponto de vista do underdog acaba sendo a grande jogada de gênio do autor de A guerra dos consoles. Mas, pensando bem, seria a única maneira possível de relatar essa história com a franqueza necessária — afinal, pessoas só gostam de falar sobre seus fracassos quando fica claro que não poderiam ter feito nada para evitá-los. No caso, o fio condutor do livro é Tom Kalinske, um executivo veterano da indústria de brinquedos que um belo dia vê o cargo de presidente da Sega of America cair no seu colo.

Tom Kalinske, ex-presidente da SEGA

Tom Kalinske, ex-presidente da SEGA (Fonte)

Naquele momento, a Sega buscava um milagre para conseguir incomodar a colossal compatriota Nintendo. E esse milagre veio pelas mãos e atitudes ousadas de Kalinske, um homem de negócios carismático e criativo que sabia que precisaria desconstruir dogmas e pensar fora da caixa para vencer. Ainda que digna de aplausos, a revolução iniciada pela Sega tem relação direta com a maneira como os produtos eram marqueteados e vendidos, e não necessariamente com a qualidade dos títulos em si. Dessa época, o exemplar mais memorável e bem-sucedido foi o Sonic The Hedgehog, um jogo de ação bidimensional que mais chamava a atenção pela velocidade com que o protagonista percorria a tela do que pela originalidade. Antes do estouro do Sonic, a Sega mal fazia cócegas no império construído de maneira metódica e restritiva pela Nintendo. Sob o comando de Kalinske, porém, a Sega passou a questionar esse estilo na prática até conseguir incomodar de verdade.

A batalha dos videogames permanece ativa ainda hoje, mesmo que estrelada por outros protagonistas — Sony e Microsoft na ponta, com a Nintendo correndo por fora. Se a indústria do entretenimento eletrônico atualmente se parece um colosso poderoso e inquebrável, muito é por conta da sucessão de acontecimentos ocorridos naqueles cinco anos que abalaram o mundo. Com requintes cinematográficos, descrições fiéis de diálogos-chave e reviravoltas emocionantes, A guerra dos consoles vai além de ser um relato rico e instigante sobre a relevância dos videogames. É também a fabulosa história de seres humanos falíveis que adoram jogar e não se conformam em perder.

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Pablo Miyazawa atua desde 1996 no mercado brasileiro de games e atualmente é o editor-chefe do portal IGN Brasil (br.ign.com). Ao longo da carreira, editou publicações especializadas como EGM Brasil, Nintendo World, Herói e o blog Gamer.br, além de ter comandado a edição brasileira da revista Rolling Stone.

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Comentários

4 Respostas para “Sobre quando éramos jovens

  1. Cara eu tenho que comprar esse livro, o facebook me lembrou o compartilhamento dessa Materia Magnifica e que nao sera esquecivel, espero qie eu ainda ache o livro (:

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