Bastidores

Não deixe passar o trem que pode mudar sua vida

22 / setembro / 2015

Por Suelen Lopes* 

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Quando as primeiras páginas de um livro fazem você se lembrar do seu passado com um carinho que talvez nem imaginasse ser possível, repensar determinados momentos da sua vida e levam a questionar suas expectativas para o futuro, talvez seja melhor lê-lo.

Embarquei em um avião pela primeira vez em 2010, quando fui morar em Paris. O engraçado é que uma das lembranças mais vivas que tenho dessa época não envolve avião, o Sena, nem croissant. Até hoje consigo fechar os olhos e recordar exatamente o que senti ao pegar o RER, o trem da Rede Expressa Regional: desespero. Desses desesperos que deixam você sem chão. O francês que eu ouvia ali era muito mais rápido do que eu conseguia entender, e todos os meus anos de dedicação à língua, que não sei por que sempre provocou grande entusiasmo em mim, pareciam ter fugido por aquelas janelas.

O mesmo trem é cenário de O leitor do trem das 6h27, romance de estreia de Jean-Paul Didierlaurent. O desespero de Guylain Vignolles, no entanto, é outro: homem que já carrega no nome o fardo de um trocadilho ingrato, ele é funcionário de uma usina que destrói encalhe de livros. Guylain leva uma vida monótona, solitária e cinzenta, até que passa a salvar páginas de algumas obras dos dentes de metal da máquina que opera e as lê no dia seguinte em voz alta no vagão, a caminho do trabalho. Os textos que ele liberta das folhas quase mortas lhe abrem novos caminhos. No meu trem, poucos minutos após o desespero, os ouvidos começaram a se habituar ao ritmo das palavras. A calma se assentou. No de Guylain, outra mágica acontece: suas palavras remediam o ranço do mecanicismo cotidiano e trazem novas cores à vida das pessoas. Inclusive à dele.

Europa 195

Como o personagem de Didierlaurent, sou apegada aos livros. Foram eles que me levaram ao outro lado do Atlântico e determinaram minha profissão. Agora, depois d’O leitor, às vezes me pego pensando em quais páginas salvaria da destruição. De A nova república, primeiro livro em que trabalhei na Intrínseca, a página 318, que gerou nós na minha garganta. De Pequenas grandes mentiras, a 203, em que Madeline me fez morrer de rir. A 128 de Sonhos partidos (e tantas outras…), que me marcou de modo surpreendente e fez com que eu chorasse a ponto de ter que sair da sala do editorial para ir à cozinha pegar um copo d’água.

As emoções e as fragilidades humanas me comovem, tocam, e a narrativa de Didierlaurent ainda é coroada com o poder transformador das palavras. Há beleza em se deixar sentir — o que não quer dizer que seja um movimento fácil —, em conseguir enxergar que a vulnerabilidade é também força, essencial à nossa natureza humana e componente indispensável de nossa sensibilidade, da vida.

Tudo isso acontece nas páginas de O leitor do trem das 6h27. Em meio a livros sendo destruídos e salvos, encontros e desencontros, lágrimas e gargalhadas, as palavras que tomam conta do vagão e dos outros cenários da história são capazes de construir um novo universo, repleto de humor, delicadeza e amor. Sendo sincera, não faço a menor ideia de qual seja o destino deste trem, mas tenho certeza de que vou continuar atenta todos os dias para nunca perdê-lo, torcendo para que cada vez mais pessoas queiram embarcar nele comigo.


link-externoLeia um trecho de O leitor do trem das 6h27

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*Suelen Lopes é editora assistente no setor de ficção estrangeira da Intrínseca. Gosta de chá, golden retriever e francês, e acredita que dar voz à vulnerabilidade humana ainda vai mudar o mundo.

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Comentários

7 Respostas para “Não deixe passar o trem que pode mudar sua vida

  1. Fiquei muito emocionada com a sensibilidade da análise. Parabéns!

  2. Fiquei emocionada, excelente análise agora preciso comprar o livro.

  3. Quando um texto nos transporta para dentro de nós, mágica acontece: passamos a vivenciá-lo. Já estou neste trem. Parabéns! Você me transportou para ele.

  4. Parabéns, excelente análise! Você instigou ainda mais o meu interesse por esse livro, e assim como Maria Rita no comentário cima, você me transportou pra esse trem!

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