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Quando uma Torre é um Túnel

20 / agosto / 2015

A inusitada arquitetura narrativa de Jeff VanderMeer na série Comando Sul

Por Octavio Aragão*

inspiration well, quinta da rigaleira, sintra, portugal

A ficção científica tem diversas faces. Para muitos não iniciados, o termo pode remeter a histórias rasas, cheias de naves espaciais barulhentas e robôs falastrões. Mas a verdade é que talvez não exista um subgênero da literatura fantástica mais plural e mutante que a ficção científica, capaz de se mesclar a estilos aparentemente incompatíveis para gerar narrativas instigantes e de profundidade incontestável. Das distopias sociais ao cyberpunk, que ajudou a desenhar boa parte de nosso mundo contemporâneo pós-moderno, passando pelo retrofuturismo do steampunk, que revive os temas e cenários de Julio Verne e H. G. Wells em outra roupagem, e pelo eventual tiroteio da space opera, a ficção científica deixou de ser voltada apenas à antecipação, por vezes superficial, do futuro para firmar-se como um espaço literário dedicado ao estudo de nossos anseios, sonhos e medos — por mais estranhos que eles sejam. E no caso do escritor Jeff VanderMeer, autor dos já publicados Aniquilação  e Autoridade, estranho é a palavra de ordem.

Essa fabulação do estranho pode ser agrupada em uma vertente da ficção científica chamada weird fiction. Seu pai ideológico e conceitual foi o americano Howard Phillips Lovecraft, mas o nome veio do título de uma das publicações populares impressas em papel barato  vendidas em banca de jornal, a revista Weird Tales. Publicado entre 1923 e 1954, o periódico era constituído por contos recheados do que se habituou chamar de “horror cósmico”: histórias que misturavam conceitos inspirados em descobertas científicas com um clima herdado da literatura gótica. Dessa forma, criaturas alienígenas ancestrais ao homem ganhavam contornos de monstros míticos, casas mal-assombradas viravam nexos espaço-temporais com linha direta para outros universos incompatíveis e espíritos obsessores eram encarados como a memória de civilizações perdidas. Segundo Lovecraft, o objetivo era alçar o leitor a um estado de maravilhamento ao aproximá-lo do “inusitado e do macabro”.

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O universo criado por Jeff VanderMeer faz parte de uma variante do weird fiction, o new weird, e é marcado por um “surrealismo” mais controlado. Trata-se de um meio-termo entre a fábula e a ficção científica soft, com ênfase em ciências humanas, mas sem descuidar da verossimilhança tecnológica (ou tecnocrática). O inusitado e o macabro ainda reinam, mas não sem o auxílio de um senso de causa e efeito — e até de humor. A linguagem é menos rebuscada que a dos escritores antecessores, mas, em compensação, os recursos narrativos são explorados ao máximo, com flashbacks entremeados à linha principal ou mudanças constantes de discurso. Todos esses elementos, ancorados por uma prosa enxuta, aparecem em Aniquilação e Autoridade, dois terços da trilogia Comando Sul.

Aniquilação - CapaO primeiro romance, Aniquilação, narra a missão quase suicida de uma equipe de especialistas ao cerne da Área X — um território onde as leis da física nem sempre obedecem ao senso comum — em busca de respostas para mistérios não desvendados por onze expedições anteriores. A partir da perspectiva da bióloga da equipe, testemunhamos a desintegração física e mental das cientistas, consumidas por um local que explora memórias e reflexos condicionados. O auge da busca, que rapidamente se transforma em uma caçada humana, é a Torre (que para a psicóloga, comandante da expedição, parece um túnel). Essa estrutura, cheia de andares aprofundados no solo e onde as ameaças se esgueiram, pode ser interpretada como uma metáfora para o inconsciente. E é aí que a narradora começa, num jogo bem azeitado de analogias e contraposições, a recordar os motivos pelos quais ingressou na missão.

A ausência de nomes próprios para as personagens de VanderMeer é típica de contos de fadas. Como nas histórias caucionárias, cheias de princesas, príncipes e bruxas anônimas, as personagens encarnam suas funções — a saber, a bióloga, a psicóloga, a antropóloga e a topógrafa. No entanto, ao mesmo tempo em que a ausência de identificação pode distanciar o leitor das personagens, principalmente das que não são narradoras, o fato de o livro ser narrado em primeira pessoa o aproxima ao máximo da protagonista. É por intermédio da bióloga que percebemos as nuances da trama, as pluralidades do cenário e também a possibilidade de estarmos lidando com uma locutora pouco confiável. A instabilidade emocional da protagonista e suas ações cada vez mais violentas são progressivamente perceptíveis, até que o leitor passa a questionar a coerência de certas atitudes, possivelmente exageradas.

link-externoLeia um trecho de Aniquilação

Durante a leitura de Aniquilação, duas referências saltam aos olhos e remetem a obras de autores bem diferentes. Em primeiro lugar, a conformação de um grupo investigando uma área proibida e de origem inexplicável, sofrendo alterações mentais durante o trajeto, se assemelha ao plot de Piquenique à beira da estrada, romance russo de ficção científica criado pelos irmãos Boris e Arcady Strugatsky, cuja versão cinematográfica, Stalker, foi dirigida por Andrei Tarkovsky. Além disso, há uma proximidade com o romance Nas montanhas da loucura, de Lovecraft, que mostra outra expedição às voltas com pistas de civilizações ancestrais e de animais deformados por forças desconhecidas durante uma visita ao ártico. Outra característica curiosa é a configuração geometricamente questionável da “Torre que é um Túnel”, que recorda as construções paradoxais da novela O chamado de Cthulhu, também escrita por Lovecraft.

Mesclando referências sutis e outras mais diretas a estruturas narrativas pouco convencionais, Aniquilação é uma leitura rápida: são 196 páginas cheias de ação e de situações-limite. Trata-se de um cenário bem diferente do que o leitor encontra no livro seguinte. Com 384 páginas, Autoridade explora os intestinos do Comando Sul, a agência voltada para a pesquisa da Área X. Em lugar da exploração de campo, vemos as batalhas burocráticas enfrentadas por John Rodriguez, que também atende pelo codinome Controle, ao assumir seu novo cargo de chefia. Sai de cena o protagonismo feminino — e talvez não seja exagero dizer feminista — em prol da visão de um personagem masculino, mas de origem étnica bem diferente do tradicional herói WASP (branco, anglo-saxão e protestante). Aliás, a preocupação de VanderMeer com a diversidade de seu elenco é um dos pontos altos de sua obra, divergindo da tradicional miopia reinante na ficção científica anglo-saxã.

blogSe o ambiente da Área X já era ameaçador em Aniquilação, o prédio do Comando Sul, onde grande parte da trama de Autoridade se desenrola, parece uma selva tão ou mais perigosa, com armadilhas e terrenos instáveis. Outra vez estamos em uma Torre que parece um túnel, mas agora as profundezas escuras são as dúvidas a respeito de quem realmente manda no Comando Sul e sobre quais são suas reais e, provavelmente nefastas, intenções. Outro ponto reconhecível na obra de VanderMeer, e presente em obras de ficção científica cyberpunk, é a desconfiança a respeito do poder, governo, representado aqui pelo Comando Sul e seus meandros.

Por que existe a Área X? Por que é imprescindível explorar seu território incessantemente? O que a separou do ambiente ao seu redor? Algumas dessas perguntas são respondidas, outras são postergadas, mas nada é mais instigante do que a imagem dos inúmeros coelhos com câmeras enxertadas, cuja ilustração não por acaso é parte importante do projeto gráfico do livro, e de quem o destino coletivo parece estar diretamente ligado ao cerne do mistério.

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Leia um trecho de Autoridade

A última (e mais marcante) diferença entre Autoridade e Aniquilação é a mudança da pessoa narrativa. No segundo livro da trilogia, o discurso em primeira pessoa é substituído pelo narrador onisciente, que usa a terceira pessoa — o que torna a leitura mais fluida para um romance mais volumoso. Enquanto acompanhamos a jornada de Controle pelo Comando Sul tentando decifrar o enigma deixado pelas últimas expedições à Área X, compreendemos parte da metáfora kafkiana que permeia os dois romances. Afinal, quando uma torre também é um túnel? A resposta é de uma simplicidade aterradora, como sempre acontece nas melhores charadas.

Uma torre é um túnel quando, uma vez no topo, depois de uma longa escalada, olhamos para dentro do edifício, verticalmente, e percebemos que lá embaixo, no fim do abismo interno, há uma luz. E ali, de pé sobre a escuridão e de costas para o nada, em equilíbrio precário, rezamos para que ela não venha em nossa direção.

 

 

Octavio Aragão é designer gráfico, pesquisador e professor de Jornalismo Gráfico na ECO-UFRJ. É autor dos romances de ficção científica A mão que cria (Mercuryo, 2006) e Reis de todos os mundos possíveis (Draco, 2013), além da HQ Para tudo se acabar na quarta-feira (Draco, 2011).

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