Miguel Sanches Neto

A bondade nos tempos de guerra

6 / julho / 2015

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O tema mais presente na literatura e no cinema do século XX é a Segunda Guerra Mundial, o que exige muita criatividade de escritores que queiram se dedicar a ele. Momento de perigo em que o planeta teve consciência de sua unidade, este é o nosso primeiro grande episódio universal, determinando o início da preocupação sobre os rumos do planeta. Em Toda luz que não podemos ver, o norte-americano Anthony Doerr explora as periferias do conflito, em um romance espetacularmente bem construído. Suas opções revelam antes um desejo de compreender o período do que de acusar grupos em bloco.

Para isso, Doerr escolhe como cenários originais dois lugares distantes dos epicentros da guerra. Zollverein, um complexo de mineração perto de Essen, na Alemanha; e a cidade murada de Saint-Malo, na região francesa da Bretanha. O romance todo transcorrerá dentro de uma lógica binária, alternando temporalidades e capítulos que falam da Alemanha e do avanço do nazismo com outros que tratam da França e da resistência. Com isso, não se tem uma visão única do conflito, mas pontos de vista que se complementam, criando um conhecimento em profundidade do cotidiano dos dois lados.

tmb_capa-todaaluzO que solda afetivamente essas duas localidades é o rádio. Em Zollverein, os órfãos Werner e Jutta ouvem um programa transmitido de Saint-Malo, adquirindo um sentimento francês pela música e por aulas de ciência. Pela primeira vez na nossa história houve a possibilidade de eventos distantes serem vivenciados contemporaneamente. Um exemplo nacional é o do poeta mineiro Murilo Mendes, que presenciou o avanço dos alemães por meio do rádio, o que mostra o grau de globalização empreendido por esta invenção: “No ato de bombardear Paris destelhavam a casa de meu pai”, diz o poeta em “Fragmentos de Paris”. A casa de seu pai ficava em Juiz de Fora, mas estava colada à capital francesa, fazendo parte dela.

Recuperando este clima de múltiplo pertencimento pela tecnologia que une pessoas, Toda luz que não podemos ver se constrói em torno das ondas do rádio, que levam coisas belas e informações vitais, mas que também servem para transmitir ordens de bombardeio. Entre uma coisa e outra, uma história intensa acontece.

Werner, um órfão inteligente, vai ser preparado em uma escola militar nazista e se torna uma autoridade em transmissores. Conhece o lado perverso dos seguidores do Führer, mas nunca deixa de ser alguém sensível aos sofrimentos humanos. Destacado para a batalha, entra em uma equipe para localizar transmissores que passam códigos contra a Alemanha.

No outro polo, a menina Marie-Laure, a filha cega do guardião das chaves do Museu de História Natural da França, tem que abandonar Paris, que está sendo evacuada com a chegada das tropas de Hitler. Seu pai, um artesão primoroso, constrói uma réplica da cidade em madeira para que ela possa aprender pelo tato a se localizar — ela tem assim as ruas nas pontas dos dedos. Como a réplica de Paris já não pode ser usada, pai e filha partem em busca de um lugar seguro, carregando consigo o objeto mais precioso do Museu para proteger assim este patrimônio dos saqueadores nazistas. Eles levam uma pedra muito valiosa, envolta em mitologia, o Mar de Chamas, que teria a propriedade de dar imortalidade a quem o possuísse. Em suas andanças, acabam em Saint-Malo, na casa de seus antepassados.

Neste mundo em dissolução, do qual as pessoas são expulsas gratuitamente, há a construção de uma rede de relações duradouras. Anthony Doerr ergue um enredo em que o vínculo é muito maior do que a força destrutiva. Tanto entre os franceses quanto entre os alemães, ele encontra personagens do bem tentando neutralizar as ações perversas da ideologia nazista que empurrava todos, indistintamente, para a frente de batalha.

Por isso, depois de tudo virar passado, quando as pessoas reconstruíram suas vidas e as cidades, o narrador diz: “A bondade, mais do que qualquer outra coisa, é o que perdura”. Esta afirmação nos permite dizer que Toda luz que não podemos ver é um romance sobre a bondade no tempo em que o mal se movia insanamente pelo mundo.

Pelo rádio, dois destinos se cruzam, dois países se encontram, criando uma identificação inquebrantável. Escritas em capítulos curtos, as histórias começam paralelamente para acabarem sobrepostas, num símbolo desta união total. Com grande domínio narrativo, Anthony Doerr faz com que a Segunda Guerra Mundial não seja um estereótipo militar, desvelando pessoas em carne e osso, sonhos e recordações, pessoas que continuam vivas como ondas magnéticas, vagando pelo ar, mesmo depois de mortas.

 

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Trecho de Toda luz que não podemos ver

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Comentários

4 Respostas para “A bondade nos tempos de guerra

  1. Gostei muito da resenha deste livro,este livro vai estar na minha estante na lista de espera,Também estou com os seus dois livros Miguel: A Segunda Pátria e A Máquina de Madeira,não vejo a hora de começar a lê-los ,é que estou terminando de ler a biografia Hitler-Ian Kershaw.

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