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Sete conselhos

30 / junho / 2015

Por Bruno Leite*

Dexter

Diálogo ficcional entre Douglas Petersen, um dos protagonistas de Nós, e Dexter Mayhew, do romance Um Dia, ambos do escritor britânico David Nicholls.

 

Hey, Dexter. De uns tempos para cá tenho visto muitas pessoas nos comparando, algumas chegam ao ponto de me dizer que eu seria você mais velho. Espero que não fique ofendido com o que vou dizer, mas, francamente? Eu rio muito. Em geral, quem diz isso não nos conheceu pessoalmente e têm uma ideia vaga de como somos em um relacionamento. Ultimamente tenho passado por alguns momentos, digamos, amedrontadores, e, bem, se as pessoas estiverem minimamente certas quanto às comparações, queria aproveitar o ensejo e te deixar algumas dicas, sete, pois soa cabalístico. São elas:

1 – Permita-se ser gostado:

Sempre que alguém me aborda, vêm à tona nossa incrível semelhança em deturparmos o bem querer de quem nos gosta, a maneira meticulosa como subvertemos um elogio e a audácia em menosprezar qualquer gesto amistoso que recebemos. Aprendi muito sobre mim vendo isso em você — pelo que dizem, claro —, e com base nessa consideração, esse é meu primeiro conselho: aprenda com o amor dos outros; se alguém por completa desventura vier a gostar de nós é porque não somos tão fracassados na vida quanto acreditamos ser, nós valemos sim alguma coisa e um pouco mais para quem nos quer bem. Respeite e cuide disso, Dexter! Vai ser muito importante durante a sua caminhada.

2 – Ame seus filhos:

É difícil. Na verdade, é horrível na maioria das vezes. Existe um limite para a genética e a maior parte é um grande acaso, para o meu desespero. Mas compensa, eu garanto. Não há nada melhor que ser pai, existe uma gratificação enorme em ver alguém crescer, evoluir, te contrariar e até mesmo colecionar canecas imundas na soleira da janela. É um amor que liberta sentimentos que você jamais imaginaria. Não desista, apenas insista e lembre: permita-se ser amado por essa criaturinha, os modos são bem peculiares, mas pode ter certeza de que esse sentimento mora lá, debaixo de uma coleção de meias que quero acreditar que servirão para um estudo de desenvolvimento de fungos em ambientes urbanos.

3 – Demonstre seu amor:

Tão importante quanto se permitir amar é demonstrar que gosta, e, acredite, demorei muito para perceber isso. Não deixe sua partner acreditar que ama sozinha, que pensa por dois sozinha — é horrível. Demonstre com sutileza a cada dia que aquela é decididamente a pessoa e que você se importa tanto com ela quanto com a sua própria existência. Não é difícil e, ao longo do tempo, você vai perceber que a arte de seduzir quem se ama é um exercício maravilhoso. Divirta-se!

4 – Tenha um relacionamento estável:

Ok, meu jovem, você é bonito, popular e faz sucesso com o mulherio. Não te julgo, mas, acredite, a vida requer um momento de pausa e reflexão. Existem inúmeras possibilidades num relacionamento que você não se dá conta agora, mas a vida vai se encarregar de te ofertar, confie em mim.

5 – Assuma suas responsabilidades:

Eu erro, você erra, ele erra e todos nós erramos, fique tranquilo quanto a isso, mas melhor ainda é identificar o erro, tentar não repeti-lo e, principalmente, admitir suas falhas. Não deixe problemas rotineiros minarem sentimentos preciosos e também não permita em hipótese alguma que isso machuque quem te ama.

6 – Aprenda a lidar com dificuldades:

Dexter, entenda que a vida não é um grande open bar e nem sempre as pessoas estão ali para te servir. Eu gosto muito de uma palavra: revés — e esses reveses acontecem o tempo todo. Ainda bem, pois é bom sair de vez em quando do nosso eixo gravitacional para enxergarmos as coisas de uma maneira mais rica. Acredite em mim, não sei se minhas experiências valeram de algo, mas, se valeram, quero muito que sejam úteis para você também.

7 – Não menospreze os problemas alheios:

Apenas não faça isso. Não menospreze os caminhos que as pessoas escolheram, não desvalorize as falhas dos outros, não desmereça seus momentos de fraqueza. Pelo contrário, tente entender e se esforce para se colocar no lugar da pessoa e ajudá-la da melhor maneira possível.

Dexter, espero mesmo que você tenha sucesso, que seja feliz e fique em paz consigo mesmo. Se eu pudesse te dar um presente seria este: paz de espírito. Ou isso ou uma vela perfumada.

 

link-externoLeia também:  
Trecho do romance Nós
David Nicholls está confirmado na Bienal do Livro Rio

 

Bruno Leite, 26, é estudante de Letras, trabalha há 8 anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

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Comentários

11 Respostas para “Sete conselhos

  1. Taí, um texto que só uma pessoa com a sensibilidade, humor e inteligência como a do Bruno poderia escrever! Mais um texto nota mil pela originalidade e mais ainda por com isso fomentar meu desejo, em baixa, confesso, de ler “Nós”.
    Parabéns, Intrínseca! E,se forem espertos, contrata logo o moço pra colunista mais que fixo!

  2. Incrível análise. David Nicholls sabe cutucar a ferida!

  3. Parabéns pela estréia, Bru!! Espero ler muitos outros textos seus aqui. 🙂 Sucesso sempre!!! Um grande beijo, Laís

  4. Muito bom o texto, pra quem leu Um Dia, com certeza ficou com saudades de Em & Dex, Dex & Em. Confesso q aumentou ainda mais o meu desejo por esse livro! 😀 Parabéns Bruno, vc soube captar a ess~encia de David Nicholls, provavelmente ele escreveria algo bem similar ao seu texto.

  5. Texto incrível! Muito bem escrito e muiton tocante. Traz os pontos mais cruciais da vida com uma sutileza inabalável,e acima de tudo isso a sinceridade com que ele fala nos toca ainda mais. Amei!!

  6. Confesso que meu desejo de ler “Nós” aumentou em uma escala de 0 a 100 com certeza no mínimo 95%. Parabéns pelo texto, se eu fosse David Nicholls, estaria mais que feliz em ler isso. Você conseguiu captar a essência que os livros trazem para nós leitores. “Um dia” está no topo dos meus livros favoritos, “Nós” estará ao lado, compartilhando o topo em breve. Amei de verdade meus parabéns.

  7. Nicholls encanta por este universo de resoluções quebradas e segundas chances; é como se a vida começasse no primeiro instante de coragem (que pode ter a duração de algumas décadas ou um espirro) e em seguida a própria coragem tivesse que se conformar com o que sobrou de nós mesmos.

    Douglas e Dex, Stephen McQueen e Brian Jackson: quando a história acontece na contramão das páginas, o que ainda é possível de ser escrito? Nicholls é como uma eterna interrogação de esperança, e, ainda assim, cada personagem (assim como o leitor) respira, segue em frente e vive.

    Aliás, amo/sou Douglas Petersen; adorei o texto! <3

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