Entrevistas

Os frutos da guerra: entrevista com Neil Lochery

19 / maio / 2015

Por João Lourenço*

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O Brasil faz parte da seleta lista de nações que lucraram com a Segunda Guerra Mundial. No entanto, para o historiador e pesquisador Neill Lochery, se o país tivesse declarado seu apoio ao grupo dos aliados mais cedo, “poderia ter se saído muito melhor”. No lançamento Brasil: os frutos da guerra, Lochery explora a questão e expõe fatos pouco conhecidos da nossa história. “Antes da Segunda Guerra Mundial, os americanos não tinham noção de como era o Brasil.”

Nascido na Escócia, Neill Lochery leciona na University College of London e é referência mundial em política e história moderna da Europa, do Oriente Médio e do Mediterrâneo. “Meu interesse pela Segunda Guerra Mundial surgiu durante minha pesquisa sobre a trajetória dos judeus refugiados, eu queria entender como eles chegaram à Palestina. Primeiro, os documentos me levaram à história de Portugal e, em seguida, à do Brasil. As questões que me intrigaram nos dois países eram parecidas: a neutralidade, o comércio de troca e os judeus refugiados.”

A curiosidade de Lochery o levou a uma longa jornada. Além do Rio de Janeiro e de Lisboa, foi pesquisar nos arquivos públicos e privados de cidades como Nova York, Londres e Washington D.C. Ao todo, foram dois anos de estudos. O resultado da investigação detalhada é uma obra com capítulos recheados de detalhes e curiosidades saborosas. Na tentativa de se esquivar de polêmicas, Lochery optou por uma abordagem neutra da história. “Quando se trata de ditadores, líderes e figuras autoritárias, costuma-se buscar categorias absolutas, do tipo vilão ou herói.”

9788580576917_MAINEm Brasil: os frutos da guerra, acompanhamos Getúlio Vargas em um momento decisivo da nossa história, quando, nos primeiros anos do conflito, o país ainda gozava de pouca visibilidade no cenário internacional. Com o objetivo de desenvolver a economia e a infraestrutura, o então presidente articulou um jogo arriscado: manteve relações estreitas tanto com os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália), como como os Aliados, liderados por Estados Unidos, Inglaterra e URSS. Segundo o historiador, a manobra de Getúlio, apoiada por conselheiros como sua filha Alzira Camargo e o ministro Oswaldo Aranha, ajudou o país a ganhar reconhecimento e poder.

link-externoLeia um trecho de Brasil: os frutos da guerra

Lochery, que também colabora com diversos jornais e revistas, como The Wall Street Journal, The Washington Post e Chicago Sun-Times, conversou por e-mail com a Intrínseca.

 

Intrínseca: Qual foi a maior conquista brasileira com o conflito?
Neill Lochery: Se tivesse declarado apoio ao grupo dos países aliados mais cedo, o Brasil poderia ter se saído muito melhor. Acredito que a maior conquista para o país (e para Vargas) foi emergir como uma grande potência política, econômica e militar na América do Sul. Esse status de “superpotência” não poderia ter sido alcançado sem os frutos da Segunda Guerra Mundial.

I: Brasil: os frutos da guerra explora a passagem de várias celebridades da época, como Walt Disney e Orson Welles, pela então capital do país, o Rio de Janeiro. Como essas visitas divulgaram e fortaleceram a imagem do Brasil no cenário internacional?
NL: A Política de Boa Vizinhança foi orquestrada e organizada pelos americanos, entre eles o milionário Nelson Rockefeller. A ideia era promover a cultura brasileira nos Estados Unidos e mostrar que o país poderia se tornar um importante parceiro político e econômico. Antes da Segunda Guerra Mundial, os americanos não tinham noção de como era o Brasil. Um dos frutos da política foi o personagem criado por Walt Disney, Zé Carioca, que ajudou a disseminar a cultura brasileira entre os americanos.

I: O senhor passou bastante tempo pesquisando em Portugal e no Brasil. Chegou a aprender português?
NL: Sim, entender a língua foi crucial para a minha pesquisa. Passei três anos na Torre do Tombo, o Arquivo Nacional português, lendo os diários de Salazar. E depois prossegui com minhas pesquisas no Rio de Janeiro. Teria sido impossível fazer esse estudo sem conhecer a língua.

I: O senhor nunca tinha visitado o Brasil antes das pesquisas para o livro. Quais eram suas expectativas?
Sempre pensei no Brasil como um país ensolarado, formado por um povo feliz. Ele é muito mais que isso! Ter passado um tempo no Brasil antes de começar a escrever o livro me ajudou muito. Pude sentir na pele a energia do país e entender suas finas camadas — na verdade, ele é quase um continente! Durante minha estada no Rio de Janeiro, também descobri que há um lado obscuro na história do Brasil — um lado bastante polarizador, que precisa de uma pesquisa minuciosa.

I: Há outro material relacionado à história do Brasil que o senhor gostaria de explorar em outro livro?
NL: Sim, com certeza. Tive que deixar um grande e rico material de fora desse livro. Seria interessante escrever em uma biografia de Vargas, com foco em seu desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Também gostaria de escrever um livro dedicado a Oswaldo Aranha e as relações entre Brasil e Estados Unidos. O período da ditadura militar também me fascina. Assunto é o que não falta.

I: Como o senhor avalia o atual cenário político-econômico brasileiro?
NL: Quando se trata desse cenário, prefiro olhar para todo o processo e não para os altos e baixos. Depois de um período de crescimento, a economia brasileira está em contração, mas não acredito que vá entrar em colapso. No tempo certo, o país sem dúvida retomará a trajetória de crescimento.

Veja também:
Oito livros sobre histórias durante a Segunda Guerra Mundial
Conheça Anthony Doerr, vencedor do Pulitzer de Ficção por Toda luz que não podemos ver 

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaare com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Agora, está em Nova York tentando escrever o primeiro romance.

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