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Sofrendo no paraíso

9 / abril / 2015

Por Vanessa Corrêa*

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Poucos lugares poderiam ser mais agradáveis do que um jardim de infância com vista para uma praia paradisíaca. Mas em Pequenas grandes mentiras Liane Moriarty transforma esse cenário perfeito em palco de intrigas, agressões e até mesmo de um assassinato. O último livro da autora do best-seller O segredo do meu marido é mais sombrio do que suas obras anteriores e desenvolve temas difíceis, como violência doméstica, estupro e bullying.

Praticado tanto por crianças quanto por adultos, bullying é o tema central de Pequenas grandes mentiras. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Moriarty disse que não era para esse ser o assunto principal, mas, quando o livro ficou pronto, ela se deu conta de que a história se resumia a diferentes tipos de agressão, que vão de mordidas dadas por crianças em seus colegas até a violência praticada por um marido contra sua esposa, passando por fofocas maldosas e pela exclusão de pessoas de círculos sociais.

link-externoLeia um trecho de Pequenas grandes mentiras

“Acho que o bullying — sobretudo em suas formas adultas e verbais — é o tipo de coisa que você não nota até o final do dia, e é um sentimento horrível perceber que algumas atitudes não são inofensivas, mas algo realmente cruel. Afinal, todos nós somos capazes de coisas incrivelmente cruéis”, declarou.

Os livros de Liane lembram a série Desperate Housewives, em que famílias aparentemente perfeitas guardam segredos perturbadores. Em O segredo do meu marido, Cecilia e John-Paul têm que conviver com um fato terrível do passado, que acaba afetando a vida de várias pessoas. Já em Pequenas grandes mentiras, Jane não consegue superar um trauma da juventude e os lindos e ricos Celeste e Perry escondem seu comportamento violento atrás de uma fachada impecável.

Mãe de uma menina de quatro anos e de um menino de seis, Liane declara que não teve dificuldade para criar os diálogos e situações típicos de um ambiente escolar infantil. “As pessoas contam histórias sobre pais péssimos e pais que praticam bullying. E você consegue ver o potencial para isso, porque ama seu filho tão intensamente”, explicou ela em entrevista à CNN.

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“É um pouco como você mesmo voltar à escola, traz de volta todas aquelas inseguranças. Às vezes eu ouvia sobre algumas festas e pensava: ‘Meu filho não foi convidado, o que isso quer dizer?’ Todas essas coisas vêm à tona, então é fácil coletar material para a história”, concluiu.

Dona de uma habilidade inegável para criar tramas envolventes, é uma surpresa saber que durante muito tempo Liane Moriarty acreditou que ter livros publicados não estava ao alcance de “pessoas reais”. Se hoje suas obras dominam as listas de mais vendidos, a escritora australiana deve parte desse sucesso à irmã Jaclyn Moriarty, que, ao publicar o premiado “Feeling sorry for Celia”, em 2000, provocou em Liane o que ela mais tarde definiria como “uma febre de rivalidade entre irmãs”. Na época redatora publicitária, o sentimento a levou a escrever uma história infantil que foi enviada a todas as editoras da Austrália — e recusada por todas. Somente em 2003 ela conseguiu emplacar seu primeiro romance, Three Wishes, escrito como parte de sua tese final de mestrado.

Ela escreveria mais três obras antes da publicação de O segredo do meu marido, que a tornou conhecida no mundo todo. Um ano depois, Pequenas grandes mentiras repete o mesmo sucesso.

Lançado em 2013, O segredo do meu marido já vendeu mais de 2 milhões de exemplares, foi traduzido para 35 idiomas e permaneceu por mais de um ano na lista de livros mais vendidos do The New York Times. Pequenas grandes mentiras alcançou a primeira posição na mesma lista na semana de seu lançamento, em julho de 2014, e teve seus direitos para a televisão comprados por Nicole Kidman e Reese Witherspoon.

Mesmo com todo o sucesso, a autora mantém uma rotina tranquila em Sydney, onde mora com o marido e os filhos, e diz ser alvo de provocações de outros pais. “Quando meu marido tirou um período de folga do trabalho, me perguntaram se eu continuaria buscando meus filhos na escola e alguém disse: ‘É claro que ela vai continuar. Ela precisa de nós para o material dos livros’”, contou a autora à CNN.

“Eles me provocam, mas parecem felizes por mim. Não é como se eu fosse uma estrela de cinema. Não é especialmente glamouroso.”

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Vanessa Corrêa da Silva é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

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