Adriana Falcão

Da dificuldade de se amar nas cidades grandes nos dias de hoje

3 / Abril / 2015

 

metro

Mark Weber

Enquanto nos enlaçávamos na noite, misturando nossas pessoas, eu não pensava em mais nada, a gente se amava, e era sábado. De manhã, na cachoeira. Você em você dentro d’água. Eu te querendo de fora. Daqui a pouco eu já não saberia quem éramos, pois como disse Heráclito: um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, porque mudam as águas e muda o homem, que homem?, qual deles?, você?, você quem?, e a gente se amava.

Na segunda-feira de tarde, de repente, fiquei séria. Trabalho. Contrato. Compromisso. Imposto. Problema. Família. Mas que confusão era essa, qual era a “eu” que eu preferia? A romântica? A competente? A desiludida? Mas que bobagem. Já passou a moda ser a confusa louca de filme francês louco e confuso. E a gente se amava.

Terça-feira. Bethania cantava “eu que não sei nada do mar, descobri que não sei nada de mim”, mas como conflito existencial saiu de moda, mudei de música na hora. Strangers in the night. Esquentou. E a gente se amava.

Quarta. Clube da esquina. “Se um dia você for embora, vá lentamente como a noite que amanhece sem que a gente saiba exatamente como aconteceu.”

Quinta. Tudo confuso. Alguém tem o direito de se entregar pra alguém, mesmo sabendo que o tempo passa e as coisas mudam, e o homem, e o rio, e os dias, sentimentos, quem pode me garantir que estaremos livres de sofrer desenganos?, só se for um mentiroso, desenganos fazem parte da vida, mas como são amargos, quanta tristeza, a pessoa toda achando que é feliz, e, pá, desengano — eu tenho medo. Não posso. Não devo. Não mesmo.

Mas chegou a sexta. E a questão filosófica “é possível amar e apostar em ser feliz ou é melhor nem começar pra não quebrar a cara depois?” virou apenas saudade de você.

E a gente se amava?

 

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