Uma versão Nazi do Brasil

Por Miguel Sanches Neto

27 / março / 2015

Em nove aforismos, o romancista tenta distinguir o seu método imaginativo do método científico do historiador.

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1.
O maior risco de insucesso de um romance é o desejo de ser estritamente fiel a fatos.

2.
Todo grande livro de ficção nasce de desvios do mundo factual, ao ponto, muitas vezes, de negá-lo completamente. Por mais que nos baseemos em pessoas reais, em episódios históricos, é sempre no interior de nossa mente que se formam as narrativas. Um romance é um pequeno delírio, um pesadelo que amplifica percepções do real.

3.
A mente de um romancista funciona à maneira de um filtro que projeta como fantasmagoria tudo que passa por ela. Máquina de produzir imagens, esta mente será tanto mais ficcional quanto mais livre das contingências do real.

4.
Em um bom romance tudo tem caráter simbólico, colocando-se fora do meramente verificável. Walter Benjamin, em seu ensaio sobre Goethe, sugere que esta natureza simbólica nasce de um deslocamento do teor factual para o teor de verdade — a verdade como um além dos fatos. É esta a mágica que o ficcionista tenta fazer.

5.
Nascido da pergunta E se Getúlio Vargas tivesse apoiado Hitler?, meu romance de história alternativa traz episódios históricos que só valem na medida em que permitem ao romancista propor desvios. Dessa forma, este A segunda pátria se passa em um Brasil que não é o Brasil dos manuais de história, e sim um país fundado ficcionalmente a partir de uma de suas possibilidades que, por esforços coletivos, não se realizou.

6.
Aquelas pessoas que, no plano da comprovação, são personalidades com espessura histórica, no plano narrativo são personagens criadas para atender a uma estrutura de linguagem. O nome pode coincidir, pois há uma continuidade relativa entre os dois planos, mas cada um pertence ao seu universo. Por exemplo, o Getúlio Vargas político se comunica diretamente com o Getúlio Vargas do meu romance, mas um não representa o outro, pois a ficção faz sempre uma apropriação centrífuga da história.

7.
O que seria a heresia num estudo técnico — afastar-se dos episódios documentados — é justamente a alma da ficção. O maior crime literário em um romance desta natureza é erguer monumentos. O romancista tem como função primordial “desrespeitar” a história, povoando nosso imaginário com aquilo que era impensável, embora estivesse em semente nos momentos cruciais de uma região, de um país ou do mundo.

8.
Toda ficção se faz deformante, problematizando a verdade para não reduzi-la a um bloco monolítico. Este Brasil nazi que aparece em A segunda pátria não existiu tal e qual, mas em algum momento esteve por existir. Suas motivações raciais continuam a latejar, sob disfarce, em muitas concepções de nação defendidas ainda hoje.

9.
O que pode passar despercebido a muitos fere a sensibilidade do artista. É de ferimentos tais que nascem as narrativas. Para ler aquilo que se propõe um romance de história alternativa é preciso entrar em seu universo paralelo, saindo dele, talvez, com outro sentimento de quem somos.

 

Miguel Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso, no interior do Paraná. É autor de seis romances, além de livros infanto-juvenis, contos e ensaios. Seu romance A Segunda Pátria foi publicado em 2015 pela Intrínseca.

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