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Hawking, o ladrão dos deuses

11 / fevereiro / 2015

Por Amâncio Friaça*

Stephen Hawking

“Como moscas para garotos travessos, assim somos para os deuses, eles nos matam por diversão.” (William Shakespeare, Rei Lear)

Em 1988, o best-seller Uma breve história do tempo projetou Stephen Hawking como o maior cientista superstar depois de Einstein. Quais as razões de tamanho sucesso? Certamente a tragédia pessoal de Hawking, a esclerose lateral amiotrófica, foi um fator determinante para que ele se tornasse uma celebridade instantânea. Assim como o foi sua determinação em zombar da doença. A atitude de Hawking decorre de sua personalidade, ao mesmo tempo ácida e bem-humorada, que se reflete nas provocações que acrescentam um tempero picante ao texto claro e preciso do Uma breve história. A introdução de Carl Sagan, na primeira edição do livro, resume a essência da obra: “… revelações lúcidas sobre os domínios da física, astronomia, cosmologia e coragem.”

Coragem… Toda a obra de divulgação científica de Hawking, seja em livros, entrevistas ou palestras, segue o projeto dos titãs de roubar dos deuses em benefício dos homens. O poeta inglês William Blake, em sua gravura Newton, de 1795, apresenta o físico Isaac Newton como um titã, compenetrado, sentado em uma rocha, fazendo com um compasso figuras geométricas em um pergaminho no chão, geometrizando o Universo. É uma grande coincidência que, na Universidade de Cambridge, Hawking ocupe exatamente a cátedra de Professor Lucasiano, que já foi de Newton. O corpo fragilizado de Hawking encerra um titã rebelde. A mitologia grega, apesar de ser a versão dos deuses olímpicos — e, portanto, depreciar os titãs —, permite vislumbrar as diferenças de posturas das duas espécies de imortais em relação ao ser humano. Os titãs, vide Atlas e Prometeus, estão comprometidos com a sustentação desse mundo e da humanidade que o habita. Já para os olímpicos, somos “moscas”. Na mitologia grega, é o titã Prometeu que rouba o fogo dos deuses para dá-lo aos homens. Hawking também é um ladrão. E um ladrão daquilo que é mais precioso, o tempo. Descobriu a sua doença aos 21 anos. Deveria ter morrido pouco tempo depois, mas completou 73 anos.

O bem mais valioso é o tempo (é ele que distingue os imortais dos mortais). A maior tentação de todas é tentar explicar o tempo. Uma Breve história do tempo reúne, no mesmo título, três signos incongruentes: “tempo”, “história” e “breve”. O tempo, que é a condição para a existência de uma história, tem uma história. A história do universo, a mais vasta de todas, sempre que for contada será breve. O título perturbador, bem dentro da tradição britânica da lógica irônica de um Lewis Caroll, assim como o tema fascinante, o tempo, explicam em parte o impacto do livro.

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Uma das primeiras capas de “Uma breve história no tempo”

Herdeiro de Einstein, Hawking, conta como a ciência moderna recuperou o tempo em sua exuberância. Não é mais o tempo domado do tique-taque invariável do relógio ou do correr dos calendários. O tempo da ciência contemporânea é o tempo selvagem (e um pouco de selvageria agrada os leitores). Alexandre Koyré afirma que a revolução científica e filosófica do século XVII foi caracterizada pela “destruição dos cosmos e a geometrização do espaço” [Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1986, p. 8]. Mas, em 1917, ocorre o renascimento da Cosmologia através do modelo cosmológico de Einstein, o primeiro proposto em quatro séculos de ciência galileana. É a parte cosmológica da obra de Hawking que suscita aquelas perguntas que interessam a todos:  De onde viemos? Por que o universo é do jeito que é? O “amplo interesse por grandes questões” explicaria o êxito de Uma breve história do tempo, como diz Hawking no prefácio do livro.

A cosmologia só foi possível graças a uma nova revolução científica que produz uma retemporalização do mundo por meio da Teoria da Relatividade, a partir dos trabalhos de Einstein de 1905, e da Termodinâmica, no século XIX. No tempo selvagem da Teoria da Relatividade, os relógios podem andar mais devagar, no da Termodinâmica, algo não é conservado, a entropia, cujo aumento se alinha com a seta do tempo. Aliás, um dos mais importantes resultados do trabalho de Hawking é a evaporação dos buracos negros (capítulo “Buracos negros não são tão negros”), que combina relatividade geral, termodinâmica e mecânica quântica. Sua contribuição é reconhecida na denominação desse efeito: radiação de Hawking. É também dentro do contexto do tempo selvagem que pode haver viagens no tempo, assunto tratado com imaginação e precisão no capítulo “Buracos de Minhoca e Viagem no Tempo”.

Ao se rebelar contra a tirania dos buracos negros, com a radiação de Hawking, ou contra aquela do calendário, com a viagem no tempo, Hawking endossa o projeto titânico de roubar para todos o fogo do conhecimento. Mesmo que a vida no cosmos prolifere no cosmos, não é garantido que ela evolua para além de formas microbianas. A evolução para formas mais complexas implica a adaptação a condições ambientais mantidas estáveis por bilhões de anos. A utilidade extraordinária das informações contidas no DNA é que elas são significativas para que o organismo prospere no seu habitat. A complexificação emerge com a evolução, mas deve ser acompanhada pela robustez e pela flexibilidade dos organismos para responder a mudanças ambientais bruscas, que sempre atuam no sentido de embaralhar as informações e destruir as estruturas.

Livros Stephen Hawking

Leia um trecho de Uma breve história no tempo

Hawking, em sua palestra Vida no Universo, de 1996, busca situar o gênero Homo dentro da evolução da vida no contexto cósmico: “Com a raça humana, a evolução alcançou um estágio crítico, comparável em importância ao desenvolvimento do DNA. Foi o desenvolvimento da linguagem, particularmente da linguagem escrita. Isso significava que a informação podia ser passada de geração em geração por outros meios além do genético, através do DNA.” A informação significativa extracorporal foi crescendo exponencialmente ao longo dos milênios e se tornou um fator evolutivo para a humanidade muito mais premente do que mutações aleatórias.

Dentro da história cósmica, os seres humanos criam uma ilha, por pequena que seja, de significado. No capítulo “A seta do tempo”, Hawking conclui: “O progresso da raça humana em compreender o universo estabeleceu um pequeno canto de ordem em um universo cada vez mais desordenado.”

Amâncio Friaça é astrônomo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Trabalha em astrobiologia, cosmologia, evolução química do universo, e relações entre astronomia, cultura e educação. Foi o responsável pela revisão técnica da edição revista de Uma breve história do tempo lançada em 2015 pela Intrínseca.

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