Artigos

A voz que faltava

12 / Fevereiro / 2015

Por João Lourenço*

Lena dunhan

É outono em Nova York e há um certo senso de urgência no ar. Os ventos gelados do Atlântico anunciam a chegada de mais um longo inverno. Em uma sexta-feira alaranjada, parece que metade de Manhattan decidiu aparecer no mesmo lugar. Trata-se da primeira noite do The New Yorker Festival, evento anual de arte, música, literatura e cinema realizado pela prestigiosa revista The New Yorker. Boa parte dessa multidão está lá para ouvir e ver o rosto desta geração: Lena Dunham.

Se você ficou sem internet e sem TV nos últimos anos, um pequeno resumo: Lena é produtora, roteirista, atriz e show runner da série Girls, do canal HBO. Ela também acaba de lançar o livro Não sou uma dessas, em que relata seus fracassos, desejos, paranoias e obsessões, tudo em tom cômico e depreciativo, mas corajoso.

Não sou uma dessas - FRENTE FINALAntes de começar a sabatina, Lena deixa um recado para a plateia: “Sempre fui um livro aberto. Abro a boca e acabo entregando tudo, nunca me senti confortável com aquelas coisas que nossos pais ou a sociedade nos aconselham a manter para nós mesmos. Sempre acreditei que o conceito de segredo pode ser bastante destrutivo. Meus pais tentavam controlar a minha língua, pois eu era o tipo de criança que falava tudo que vinha à cabeça. Ainda sou assim!”

Como um prelúdio do que estava para acontecer, Lena Dunham teve uma infância bastante agitada. Filha do pintor Carroll Dunham e da designer e fotógrafa Laurie Simmons, Lena cresceu entre os artistas boêmios do SoHo e do Brooklyn, em Nova York. “Sempre vi esse universo com um olhar de romance.” Para desenvolver uma linguagem artística própria, deixou a casa dos pais e se mudou para o estado de Ohio, onde estudou escrita criativa. Lá, começou a escrever e dirigir os primeiros curta-metragens, tudo no esquema colaborativo entre amigos de faculdade. Dessa fase universitária, destaca-se o web show Delusional Downtown Divas, uma sátira ao mundo da arte.

Quando voltou para Nova York, cansada de enfrentar audições para papéis secundários, Lena convidou alguns amigos e a própria família para estrelarem o primeiro longa que dirigiu, Tiny Furnitures. Ela fez o papel principal e explorou conflitos comuns a qualquer pessoa, como a transição da juventude para a idade adulta. Indicado a vários prêmios do cinema independente, o longa chamou a atenção de Judd Appatow. Conhecido por ter produzido o filme Missão Madrinha de Casamento e dirigido O Virgem de 40 Anos, Appatow convidou Lena para um projeto de série de TV. Meses depois, eles surgiram com o seriado Girls, sucesso imediato entre público e crítica. De acordo com Lena, a série é uma mistura de ficção com experiências próprias — ora trágicas, ora cômicas. “Às vezes me sinto uma fraude, pois coloco muito do que acontece comigo na série. Quando esse sentimento começa a me perseguir, mudo o tom do roteiro e tento deixar minha vida de lado. No geral, não tenho problemas com amigos próximos. Não é como se eu fosse jantar com uma amiga e, no dia seguinte, escrevesse tudo que ela me contou para depois usar na série. O processo de criação é mais complexo do que isso.”

Cena de "Tiny Furniture"

Cena de “Tiny Furnitures”

Em Girls, Lena manteve a mesma postura corajosa dos trabalhos anteriores. Temas tabus como sexo, aborto e racismo já foram discutidos na série. Ela escreve sobre mulheres que, apesar de nem sempre escolherem a melhor opção, buscam maneiras de se sentirem confortáveis na própria pele. “Acho engraçado o fato de que muitas pessoas, quando me encontram na rua, agem como se me conhecessem profundamente. Não me incomoda. Sabe, nessas situações, eu tento agir da mesma forma, como se fossem pessoas que eu também conhecesse. Isso me mostra que já existe uma conexão honesta com o público.” A tal conexão de que Lena está falando lhe rendeu dois Globos de Ouro — melhor atriz e melhor série de comédia — em 2013, além de indicações ao Emmy, maior premiação da TV americana. No mesmo ano, Lena entrou para a lista anual das pessoas mais influentes da revista Time. Muito desse prestígio está ligado a seu lado político e ativista. Na última eleição presidencial nos Estados Unidos, ela apareceu em rede nacional para pedir a participação dos jovens na política. Sem medo de críticas, Lena também defende causas sociais, como o casamento gay. Namorada do guitarrista Jack Antonoff, da banda Fun, ela disse que só vai se casar quando o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo for aprovado em todos os estados americanos.

Apesar de não se identificar com o título de “voz de sua geração”, uma coisa é certa: seja da telinha, das telonas ou das prateleiras, Lena Dunham não vai embora tão cedo.

 Leia um trecho de Não sou uma dessas

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaare com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Agora, está em NYC tentando escrever seu primeiro romance.

Tags , , , , .

Leia mais Artigos

Mulheres sem nome: a história por trás da História

Mulheres sem nome: a história por trás da História

Espelho, espelho meu: existe alguém mais ferrado do que eu?

Espelho, espelho meu: existe alguém mais ferrado do que eu?

Comentários

4 Respostas para “A voz que faltava

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *