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CARLOS ORSI COMENTA O REI DE AMARELO

9 / maio / 2014

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Responsável pelas anotações que contextualizam os contos de O Rei de Amarelo, de Richard W. Chambers, o escritor e jornalista Carlos Orsi mergulhou no mundo vitoriano em suas pesquisas para melhor informar o leitor. De Ambrose Bierce a Oscar Wilde, Orsi revela as principais influências de Chambers, as raízes da “weird fiction” e diz que teria coragem de ler a peça original do Rei de Amarelo – que supostamente leva seus leitores à loucura e à morte. Confira a entrevista:

1) Conte um pouco sobre como foi o seu trabalho de pesquisa para comentar, com tamanha propriedade, O Rei de Amarelo. Você parece ter mergulhado fundo no universo do livro e do autor.

Bom, eu sempre fui um fã de edições anotadas, como as que Martin Gardner fez para a obra de Lewis Carroll ou a de Leslie Klinger para as aventuras de Sherlock Holmes, então quando aceitei a incumbência de fazer O Rei de Amarelo, foi com esse espírito que comecei. Eu já tinha uma noção de por onde puxar a meada, por Ambrose Bierce e Oscar Wilde, e aí foi um caso de seguir os fios. A internet ajudou bastante: a Wikipedia em inglês, por exemplo, é uma ótima base de lançamento, porque a partir das notas de rodapé dos artigos dá para saltar para as mais variadas fontes. No fim, o trabalho virou um mergulho no mundo vitoriano. No caminho acabei montando uma pequena coleção de edições em inglês do Rubaiyat – Chambers não só cita poemas do corpo do livro, mas também versos que só aparecem em notas de rodapé no prefácio de algumas edições específicas –, aprendendo um bocado sobre a cena parisiense de artes plásticas do século XIX, folclore bretão, danças populares americanas e, claro, literatura decadente francesa.

2)E como você chegou à obra de Chambers? Qual foi a sua motivação e como surgiu o interesse?

Sempre tive muito interesse no que se costuma chamar, em inglês, de “weird fiction”, ou “ficção bizarra”, que é um tipo de narrativa que mistura os sinais dos chamados gêneros fantásticos – terror, fantasia, ficção científica – de modo que, por exemplo, pode-se ter uma história de terror passada no futuro, ou um conto com dragões e princesas que, no fim, acaba sendo de ficção científica. Chambers foi uma espécie de pioneiro nesse campo, e cheguei à obra dele a partir de pesquisas que fiz, lá nos anos 90, sobre a Mitologia de Cthulhu, de H. P. Lovecraft, à qual a obra de Chambers acabou sendo incorporada, postumamente. O primeiro conto de Chambers que li foi “O reparador de reputações”, numa antologia americana intitulada The Hastur Cycle – que colecionava obras que haviam inspirado, ou sido inspiradas por, um conto de Lovecraft chamado “Um Sussurro nas Trevas”. Esse, aliás, foi um livro que resgatei do fundo da estante para me ajudar nas notas de O Rei de Amarelo.

3)Que influências de outros autores você identifica em O Rei de Amarelo?

Essa é uma pergunta um pouco complicada. Seria fácil dizer que Chambers se inspirou em Baudelaire, Oscar Wilde, Ambose Bierce ou Huysmans, mas olhando mais a fundo, dá para ver que de Bierce ele pegou alguns nomes – como Carcosa, Hastur – e dos demais algumas ideias, mas ideias às quais, no fim, ele se opõe: a peça “O Rei de Amarelo” poderia ser uma obra de Huysmans ou de Oscar Wilde, mas veja o efeito que ela tem em que a lê: loucura, morte, decomposição. Os contos de O Rei de Amarelo são sobre o decadentismo, mas não são, eles mesmos, decadentes. São, no fundo, contra a decadência. Chambers era um romântico, não um cínico. Talvez haja alguma influência do estilo de prosa de Wilde, ainda que não da ideologia, e dos românticos franceses, como Théophile Gautier. Algum gótico americano – Edgar Allan Poe, sem dúvida, é uma influência importante.

Robert_William_Chambers

4) Que características da literatura e da vida de Chambers aparecem em O Rei de Amarelo?

Diria que a principal marca é a vida boêmia dos estudantes de arte americanos radicados na França. Não só Chambers foi um deles como seu primeiro livro, publicado antes de O Rei de Amarelo, chamava-se In the Quarter, isto é, “No Quarteirão” – no caso, o Quartier Latin de Paris. Da literatura mais geral, há o aspecto romântico, que perpassa todos os contos, com a possível exceção de “O reparador de reputações”, e que viria a dominar quase toda a sua obra posterior.

5) Qual a sua visão acerca da relação entre a literatura fantástica e a chamada “alta literatura”?

Trata-se de uma distinção complicada, porque mistura questões de mercado com de qualidade, e esses são critérios diferentes. Não há nada, a priori, que faça uma história sobre a dor de cotovelo, digamos, de um roteirista de cinema brasileiro desencantado com os rumos da esquerda, que se exila em Paris para curtir uma dor de cotovelo e pesquisar a vida de Jean Cocteau, melhor (ou pior) do que uma história sobre a destruição iminente da vida na Terra, à medida que o sol é engolido por um buraco negro. Mas a primeira história terá, por questões de mercado, mais chance de ser classificada como “alta literatura” do que a segunda.

A distinção funciona mais como um meio de administrar as expectativas do leitor e, o que me parece especialmente perverso, perdoar as falhas do autor: com uma meia dúzia de trocadilhos e duas ou três frases de efeito um escritor de “alta literatura” tem alguma chance de se safar com enredos que vão do nada ao lugar nenhum e personagens que não são nada além do que clones mal ajambrados dele mesmo, e com uma linda princesa, uma espada mágica e uma grande batalha final o autor de “literatura fantástica” talvez faça passar um texto mal concebido e recheado de clichês.

Arte antiga O Rei de Amarelo

6) Nas notas de O Rei de Amarelo, você lança algumas teorias sobre os personagens e o enredo e faz conexões entre os contos e com outras obras. Qual a sua intenção com essas relações? Acha que isso pode instigar o leitor a conhecer mais da obra de Chambers?

As relações internas de O Rei de Amarelo me parecem especialmente importantes – correndo o risco de estar dando um spoiler, digo, por exemplo, que uma leitura atenta de “O Emblema Amarelo” pode mudar radicalmente a interpretação inicial que o leitor já terá feito de “O reparador de reputações”. As notas buscam chamar a atenção do leitor para essas possibilidades, e também para a organicidade do livro: contos de O Rei de Amarelo às vezes aparecem em outras antologias de ficção fantástica, e embora as histórias sejam boas em si, quando lidas dentro da antologia original, e na sequência criada pelo autor, ganham uma camada extra de significado. Eu espero que alguns leitores, a partir das notas, vejam as histórias e as relações entre elas de modo diferente – a conexão entre a primeira e a segunda parte do livro, por exemplo, é algo que merece ser mais explorado – e busquem as referências externas: a peça “Salomé” de Oscar Wilde, os poemas de Baudelaire, o Rubaiyat.

7) A Intrínseca já divulgou que lançará no ano que vem um livro de Nic Pizzolatto, criador e roteirista da famosa série True Detective, cujo mistério central faz referência ao Rei de Amarelo. Você assistiu à série?

Não! Devo ser uma das cinco pessoas no Brasil com TV por assinatura em casa, mas sem acesso à HBO. Mas é claro que já havia notado o entusiasmo em torno da série, e fiquei curiosamente surpreso ao saber que O Rei de Amarelo era parte de sua mitologia interna. Eu mesmo já havia criado trabalhos inspirados pelo Rei ainda nos anos 90, como o conto que saiu numa antologia-tributo nos Estados Unidos, sobre uma tentativa de montar a peça no Brasil durante a ditadura, e um cenário de RPG em que uma mitologia paralela à do Rei de Amarelo é descoberta numa tribo de índios da Amazônia, mas isso na época em que curtir Chambers era coisa de um gueto dentro de outro gueto, formado pelos fãs de Lovecraft. Brincando com o meme da internet, às vezes digo que eu já sabia o que era O Rei de Amarelo “antes de virar modinha”.

True Detective Ep. 2 (Screengrab)

8) Você acredita que True Detective tenha despertado o interesse dos leitores de literatura gótica e não apenas dos aficionados por seriados? No caminho inverso, acha que os fãs da série podem se interessar pelo livro?

Bem, eu me interessei pela série, e pretendo assisti-la, então, sim, acho que a literatura pode atrair para o seriado. Quanto ao inverso, creio que o sucesso que é a edição de O Rei de Amarelo pela Intrínseca está provando que o fenômeno não só existe como é bem robusto!

9)O que você acha do resgate de obras clássicas como esta, publicada no fim do século XIX?

Uma coisa interessante é notar que boa parte da cultura audiovisual – filmes, seriados – que nos chega do mundo de língua inglesa bebe numa tradição literária anterior, a dos “pulps”, revistas de papel barato que, entre os anos 20 e 50 do século passado, publicaram milhares de histórias policiais, de terror, de ficção científica, eróticas e de aventura que, basicamente, cristalizaram o vocabulário desses gêneros: o tipo de personagem, o tipo de situação, o tipo de desfecho, um vocabulário que o cinema e a TV traduzem para outro meio, mas que se preserva em sua essência. Mas os “pulps” não nasceram num vácuo: eles bebiam em tradições ainda anteriores, e a dos góticos é uma das principais.

Nesse aspecto, o resgate desses clássicos, para além de seu valor óbvio – chamar a atenção do público para bons livros que andavam meio esquecidos ou, como no caso da edição da Intrínseca de O Rei de Amarelo, pôr um autor seminal e importante em circulação na língua portuguesa pela primeira vez –, tem também o mérito de mostrar às pessoas as raízes das histórias de que elas gostam tanto. E edições anotadas são ainda melhores para isso.

10) O fato de um texto levar seu leitor à loucura é algo assustador, mas a chance de conhecer uma obra tão enigmática e sublime é, de certa forma, tentadora. Você leria a peça?

No conto “More Light”, de James Blish, uma das melhores histórias inspiradas por O Rei de Amarelo, um dos personagens diz que a ideia de um livro enlouquecedor pertence a um passado mais inocente, que é muito inverossímil nos tempos atuais –não me lembro da frase exata, mas ele diz algo como: se não enlouquecemos com a realidade de Auschwitz, como uma mera obra de ficção poderia tirar a razão de alguém? Tendo a concordar com esse personagem de Blish. Então, sim, eu leria a peça.

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Comentários

8 Respostas para “CARLOS ORSI COMENTA O REI DE AMARELO

  1. Além de adorar o resumo do Orsi, o livro e os contos, como designer, devo acrescentar que o livro está incrivelmente bem diagramado.

  2. Estou lendo O Rei de Amarelo , e estou amando esse fantástico livro não me enloqueceu ele é um clássico da literatura o livro está com lindo acabamemnto bem feito parabêns a Carlos Orsi e todas as pessoas que colaboraram com o livro

  3. Muito boa a entrevista e o trabalho do Orsi e da Intrínseca. Podiam publicar mais Chambers e principalmente o Thomas Ligotti, que é um autor mais recente e que também inspirou a série. Não tenho conhecimento de nenhuma publicação dele em português no Brasil e não achei nenhum registro na BN. É talvez o melhor autor Lovecraftiano dando sopa por aí.

  4. Adorei o livro, comprei no dia do lançamento por acaso porque eu botei o olho – sabendo de antemão do que se tratava – e precisei comprar.
    As anotações de Orsi foram excepcionalmente magníficas, seria apenas dez contos “weird fiction” se não fosse pelo trabalho e estudo dele. Tive a oportunidade de realizar uma resenha desse livro o que me rendeu a nota máxima na aula de produção textual da faculdade.
    Muito bom, altamente recomendável!!!

  5. Ola a todos. Gostaria de chamar a atenção apenas para um detalhe, na primeira linha deste texto onde diz Richard W. Chambers, o correto não seria Robert W. Chambers ?
    Abrax.

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