Dois livraços, por Leticia Wierzchowski

22 / fevereiro / 2013

 

Coluna publicada no jornal Zero Hora, em 21 de fevereiro de 2013.

A minha biblioteca costuma guardar lugar de honra para os romances, mas, neste verão, picada por algum bichinho, curiosamente eu me pus a ler uma série de livros de memórias, e dois deles me emocionaram muitíssimo – A lebre com olhos de âmbar, ed. Intrínseca, e Só garotos, Cia das Letras.

Edmund de Waal é um dos mais importantes ceramistas da atualidade, mas em A lebre com olhos de âmbar ele mostra que tem talento – e quanto talento! – para moldar palavras também. Ao herdar de seu tio-avô Iggie, que vivia em Tóquio, uma coleção de 264 netsuquês (miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim), Edmund decide refazer o caminho das miniaturas que o tio lhe deixou, e se empenha numa inacreditável e fantástica viagem pelo tempo através de três gerações da sua família paterna – os Ephrussi, os maiores exportadores de cereal do mundo, que deixaram Odessa no século XVII para espalharam-se pela Europa – Paris, Londres, Viena – transformando-se num dos mais sólidos pilares financeiros da sua época, até que guerras e desenganos dilapidassem sua sorte e fortuna, seus sonhos e a sua fabulosa herança, da qual sobraria apenas essa coleção de miniaturas que viajaram pelo mundo até voltarem ao seu lugar de origem, o Japão. Uma viagem que, nas mãos de Edmund de Wall, ganha a dimensão de uma fabulosa narrativa, uma verdadeira saga familiar, mais fantástica do que qualquer ficção.

Só garotos foi escrito por Patti Smith, e a poeta e cantora americana dispensa maiores apresentações. Só garotos não é, a priori, um livro de memórias. É a história da relação amorosa entre Patti Smith e Robert Mappelthorpe (polêmico e talentoso fotógrafo que morreu de aids em 1989), a quem Patti prometeu, no leito de morte, escrever esse livro – e aqui, quando falo de relação amorosa, falo de uma coisa maior do sexo, e houve sexo entre aqueles dois antes que Robert descobrisse seu desejo por outros homens, e Patti deixasse a sua cama sem nunca deixar de ser a sua musa e mais íntima amiga. Recém-chegada a Nova Iorque, sem dinheiro nem endereço certo, Patti deu de cara com Robert, e esse encontro fortuito haveria de marcar o destino de ambos. Só garotos é como um sussurro, um relato íntimo e amoroso da história dessas criaturas irmãs, e é também a história da viagem que Patti Smith e Robert Mappelthorpe fizeram, do anonimato e da pobreza em Nova Iorque, até o sucesso e a fama internacional. Um livro lindo e comovente que, sob o pano de fundo da cena cultural nova-iorquina dos anos 60 e 70, conta de uma relação de inesquecível cumplicidade.

Leticia Wierzchowski assina uma coluna quinzenal no blog da Intrínseca.
Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Seu romance mais conhecido é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

Seu próximo livro, ainda sem título definido, será publicado em junho pela Intrínseca.

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