As canções que você escolheu para mim

Parecia impossível, uma mentira. Mas aconteceria. Selma realmente iria se mudar do apartamento das Laranjeiras, aquele em que eu havia passado metade da minha adolescência e juventude, logo no começo da nova década. Era dia 31 à tarde, e fazia o calor infernal típico da véspera de Réveillon. Não estávamos preocupados com os fogos da meia-noite, era hora de fechar as contas.

Selma vivera diferentes encarnações em uma só existência — dizia que, ao aposentar-se e mudar para o interior com o novo namorado, estava começando sua nona vida. Estava chegando à última etapa de uma existência felina, que fora repleta de reinvenções: normalista apaixonada por Roberto, mulher e dona de casa, professora universitária, mãe e ativista, doutoranda e não mais mãe.

Entendia que ela desejava se livrar de tudo, dos livros e dos discos. Pensara em chamar um sebo para que tudo fosse rápido, mas sabia que esses vinis foram minha educação musical. Marina, Caetano, Bowie, Rolling Stones, Abba, ACDC. Selma não podia escolher, tinha de levar todos ou nenhum. Escolheu abandonar tudo, deixar as memórias para mim. O namorado havia trazido um aparelho de CD dos Estados Unidos. O futuro é compacto.

Em seus poucos anos, Otávio acumulou muita coisa. Vários discos comprados por mês, livros que a mãe o incentivava a ler. Decidi jogar no lixo os livros antigos que Roberto deixara para trás e que, por algum motivo, foram parar no quarto do filho. Devem estar obsoletos. Ao longo dos anos, a vida é um pouco como o direito: leis antes imprescindíveis, escritas em pedra, tornam-se vetustas. Convicções antigas caem por terra, quase todas.

Uma caixa grande, cheia de fitas cassete, uma para cada humor. Ninguém sabe o trabalho que dava fazer uma boa fita mixada. O gravador em pausa esperando a música começar no rádio, os primeiros acordes cortados. Havia tantas delas, que Otávio preparava uma para cada ocasião. Em caneta vermelha, cada música listada, com o respectivo nome do artista. E um título, como de um álbum: “Dia de sol na praia”, “Relax”, “Dor de cotovelo” e, bem no fim da pilha, “Inácio — set/86”.

Ele havia selecionado músicas pensando em mim. Decido que ficarei com o walkman amarelo da Sony, um dos bens mais preciosos de Otávio. Acho que ainda poderá ser usado por alguns anos. O gravador de mesa também levarei, assim como o cartaz de A Lagoa Azul, agora meio amarelado pelo passar dos anos. Objetos podem ser um testamento da vida de alguém. De como somos atemporais e, ao mesmo tempo, datados.

Ao contrário das demais fitas, a minha não tinha as músicas listadas. Seria preciso ouvi-la. Quando a coloco no tocador, faz um som estranho, a fita se solta do cassete. Retiro-a com cuidado e, com a ajuda de uma caneta, rebobino o conteúdo de volta. Aperto bem. Quero saber seu conteúdo. Lembro-me que, um dia, Otávio me disse que logo o esqueceria. Estava quase sempre certo, porém se enganara sobre isso. Não passa um dia sem que eu não queira comentar alguma coisa com ele, contar-lhe algo.

As canções que Otávio escolheu para mim começam a tocar. As músicas são bem antigas, a compilação foi feita  três meses antes de sua morte. Pergunto-me se ficou inacabada. Apenas nove canções.

“The crying game”, Culture Club

“Poema”, Ney Matogrosso

“London, London”, Gal Costa

“A menina dança”, Novos Baianos

“Tempo perdido”, Legião Urbana

“You are”, Lionel Ritchie

“When doves cry”, Prince

“Todo amor que houve nessa vida”, Barão Vermelho

“Esse outro mundo”, Heróis da Resistência

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